post-rock

The Raveonettes – 2016 Atomized (2017)

O anti-álbum se revela, afinal, o maior laboratório criativo da dupla dinamarquesa

Por Lucas Scaliza

O disco é de 2017, mas as faixas são todas de 2016. A história é a seguinte: Atomized é uma coleção de faixas lançadas separadamente pela dupla The Raveonettes ao longo do ano passado e só agora reunidas em um produto. Se não são exatamente inéditas, resta saber se compõe um todo coeso.

Sim, as 12 músicas de Atomized fazem sentido juntas. Ao mesmo tempo exorcizam o clima pesado que marcou o ótimo Pe’ahi (2014) e abre Sune Rose Wagner e Sharin Foo para novas possibilidades, como as intervenções de voz em “Run Mascara Run”, o balanço groovado que encontramos em “EXCUSES”. A viajante “PENDEJO”, que fecha este “anti-álbum”, sozinha tem o tamanho de quatro ou cinco músicas padrão da banda.

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Basicamente, em termos de sonoridade, a banda continua sendo um mix de guitarra sujinha, baixo, bateria, teclado e vozes suaves que parecem gravados dentro de um aquário ou encanamento. Musicalmente, estão muito mais amplos, diversos e corajosos.

Enquanto faixas como “This World Is Empty (Without You)” e “Won’t You Leave Me Alone” ainda são o velho Raveonettes roqueirinho e pós-punk de sempre, a excelente “Scout”, com baixo e bateria black music entrecortados por passagens mais sentimentais de voz e teclado mostra a banda amadurecendo sua expressão artística. “A Good Fight” é um eterno vai e volta entre a ansiosidade do rock básico e as lindas passagens instrumentais comandadas pelo teclado. “This Is Where It Ends”, com sua dose de emoção e de maluquice, parece saída da mente de Wayne Coyne, do The Flaming Lips. “Choke On Love” e “Junko Ozawa” apostam em riffs tropicais. Nem mesmo a balada “Where Are You Wild Horses?” soa deslocada nesse álbum cheio de misturas bem-vindas.

Embora observar todas as possibilidades serem testadas por Sune e Foo seja muito divertido, surpreendente até, Atomized é uma coleção de faixas. Uma boa coleção, diga-se. Mas talvez a falta de um projeto maior que tivesse unido todas as faixas desde o início faça falta. Não é o melhor álbum dos dinamarqueses, mas é sim um dos melhores laboratórios de criação que a dupla já entregou aos fãs.

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Thurston Moore – Rock N Roll Counciousness (2017)

Moore contrasta jams repletas de fuzz e euforia garageira com letras hippongas

Por Lucas Scaliza

Leva precisamente 7 minutos e 47 segundos para ouvirmos a voz de Thurston Moore em seu novo álbum solo. Mas antes das palavras saírem de sua boca, o som de sua guitarra – que vamos considerar sua segunda língua – é a primeira coisa que ouvimos ao dar o play em Rock N Roll Consciousness. “Exalted” tem o Thurston Moore dos dedilhados, dos riffs que se criam a partir das levadas da base e o guitarrista solo que adora um fuzz. Tem também o Thurston metaleiro, uma faceta que custou a aparecer em sua carreira solo. Mas cá está ele, arrebentando o instrumento com peso e os ruídos que sobram do fuzz, deixando a bateria de Steve Shelley (também ex-Sonic Youth) contribuir também, claro, mas bem abafada, diferente do que geralmente uma banda faria num momento como esse. É Thurston em primeiro e em segundo plano.

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Acredito que grande parte dos interessados em Thurston Moore, e neste álbum, são fãs do Sonic Youth ou pessoas que já conhecem o guitarrista de outros tempos e outros projetos. Portanto, acredito que, em sua maioria, sejam leitores e ouvintes acostumados com a excentricidade, com a rispidez com que frequentemente trata as seis cordas em uma canção ou pessoas versadas em rock alternativo. Mais do que qualquer outro álbum solo, Rock N Roll Consciousness é o que mais exige do ouvinte.

Diferente de seu ex-parceiro, Lee Ranaldo (que sabe ser diferentão na forma e aprazível no que produz), Moore é abrasivo como nunca no som, se aproveitando da presença de James Sedwards na segunda guitarra para propor jams roqueiras e até mesmo eufóricas. Já as letras – uma contribuição do poeta inglês Radio Radieux – são as mais ternas dentre seus cinco discos de estúdios e evocam um período de sonhos da Califórnia hipponga.

As repetições, como em “Cusp”, causam uma sensação inquietante. Mesmo “Turn On”, que começa muito mais melódica, e “Aphrodite” acabam caindo nos mesmos maneirismos guitarrísticos apresentado em faixas anteriores – mão direita insana, flertes metaleiros, passagens harmônicas com complemento do baixo de Debbie Googe (My Bloody Valentine) e solo com cara de espontâneo. E se o ex-Sonic Youth parece-se muito com ele mesmo, “Smoke of Dreams” soa como uma faixa de Demolished Thoughts retrabalhada para a estética mais rock’n’roll de garagem do novo disco.

A produção é sempre bem crua, deixando claro que se trata de uma banda bem compacta e bem resolvida no comando de tudo. Sob o comando de Paul Epworth (que já trabalhou com Adele e Paul McCartney), nada de teclados, orquestrações ou truques de produção para preencher os vazios.

Embora possa ser um pouco desconcertante, é o tipo certo de desconcertamento. Moore chega à “consciência rock’n’roll” que almeja e é capaz de colocar o ouvinte mais entregue em êxtase também. Mas é menos prazer ou satisfação e mais um estado de nervosismo. Isso é o que o rock também causa na gente.

Explosions In The Sky – The Wilderness (2016)

The Wilderness é um trabalho com qualidades narrativas instrumentais mais poderoso que os antecessores

Por Lucas Scaliza

Após seis discos de estúdio e quatro trilhas sonoras (três delas lançadas entre 2013 e 2014), os texanos do Explosions In The Sky dão o passo previsível na discografia da banda: levam os movimentos típicos das trilhas para suas músicas. Assim, não espere o poder cru do post-rock instrumental de All Of A Sudden I Miss Everyone (2007), mas sim a beleza melódica de Take Care, Take Care, Take Care (2011) em um ambiente ainda mais contemplativo e mais aberto ao eletrônico.

Mas não se preocupe. O Explosions In The Sky não entregam um álbum ruim e nem mediano. The Wilderness é bastante imaginativo e emocional e embora não seja visceral, não é nem um pouco acomodado também. Dentro do ambiente reluzente que é o álbum, cada faixa serve a um passeio musical próprio, fazendo deste um trabalho com qualidades narrativas instrumentais mais poderoso que os antecessores.

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Se “Wilderness” é quase música ambiente e flerta bastante com o eletrônico e o sintetizado, “The Ecstatics” já propõe mais melodia, aliando teclados, guitarras e sons eletrônicos. “Tangle Formations” é um vislumbre dos primeiros discos do grupo, com sons saturados de bateria e muita harmonia, nos dando tanto o lado luminoso do grupo quanto o mais alternativo. E então chegamos a um ápice sonoro com a pesada primeira metade de “Logic Of a Dream”, uma incrível faixa que coloca as baquetas de Chris Hrasky para percorrer o kit, criando uma marcha potencializada por guitarras com muita distorção e efeitos de sintetizador que ajudam a elevar a dinâmica e o espírito do ouvinte. Quando chega ao ápice, “Logic Of a Dream” recomeça de forma gentil e contida, desembocando na ágil e mais visceral “Desintegration Anxiety”.

Se as linhas melódicas e as escolhas harmônicas do quarteto americano sempre remeteram a algo de espacial no passado, agora é como se a nave tivesse pousado em um novo planeta e o grupo começasse a explorar e contemplar o novo espaço físico. “Losing The Light” é talvez a mais evocativa deste tipo de leitura da obra. Confia totalmente no piano e nos sintetizadores para existir, criando um ambiente tão hostil quanto deslumbrante. Após uma curta aventura por esse novo pedaço de chão descoberto com excitamento (“Infinite Orb”), é hora de fazer a nave decolar de novo. “Colors In Space” usa aquele esquema de duas camadas: a primeira são dedilhados e riffs bem definidos; a segunda trata-se de uma guitarra entupida de sustain e reverb que cria aquelas notas espaciais que parecem flutuar pela trilha. Em um certo ponto, as duas camadas se combinam e ganham ritmo, para no terceiro ato tudo ser engolido por um buraco negro ruidoso e dissonante. “Landing Cliffs” é o que encontram do outro lado, marcando o final dessa jornada.

O Explosions In The Sky talvez estivesse alcançado um ponto em que fazer novas músicas com a mesma receita já esperada da banda não traria nada de novo ao público e a sua discografia. Aliar características de trilha sonora à forma como o grupo interpreta seus acordes e pensa as linhas melódicas é uma maneira de variar o processo de composição e trazer novos elementos para a banda sem que ela perca sua assinatura sonora. Os escoceses do Mogwai passaram por um processo muito semelhante com Rave Tapes e acredito que a mudança foi até maior do que a sofrida pelo Explosions.

The Wilderness valeu a espera e apresenta um novo patamar artístico para a discografia do quarteto. Acrescenta também novas possibilidades imagéticas para acompanhar as apresentações ao vivo. Agora mais do que nunca trata-se de uma banda em que a parte visual fará toda a diferença. Visto que eles trabalham com as narrativas audiovisuais há um bom tempo, é de se esperar que o show apresente também este novo patamar artístico.

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God Is An Astronaut – Helios | Erebus (2015)

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Contemplação, aniquilação e renascimento: tudo isso em um dos melhores discos do GIAA

Por Lucas Scaliza

God Is An Astronaut é uma dessas bandas que passa debaixo do radar de muita gente, o que é uma pena, pois eles nunca decepcionam. Talvez a qualidade desses irlandeses tenha a ver com o fato de fazerem um post-rock bastante consistente e que nunca pecou pela falta (de técnica, de criatividade) e nem pelos excessos: nunca foi uma banda que prometeu revolucionar o estilo, mas sempre o manteve vivo e pulsante. Helios | Erebus é isso: tão atmosférico e interestelar quanto quente, aconchegante e vivaz. O tipo de disco para ouvir no escuro e se deixar levar pelos próximos 45 minutos.

Sempre houve algo de espacial na música do God Is An Astronaut. Se o novo disco é como uma contemplação do Sol, quem sabe a partir de uma sonda, já fizemos essa viagem misturando música e ficção-científica em Age Of The Fifth Sun (2008). A própria contemplação já era algo evocado no título de A Moment of Stillness (2005) e o sentimento de estarmos em uma trilha sonora para um período pós-Terra sempre foi um dos principais leitmotivs da banda, já evidentes no primeiro disco, The End of the Beginning (2002), e revisitado em 2013 com Origins.

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Helios | Erebus é mais equilibrado que Origins. Coloca tanta energia na guitarra solo quanto na criação de climas com teclado e sintetizador, dando uma característica mais melódica e viajante a todas as faixas. Também não faltam guitarras mais pesadas, que criam a densidade sonora típica do post-rock, mas elas estão mais precisas e só aparecem quando realmente necessário, o que indica uma preocupação com as composições. Os elementos eletrônicos do álbum anterior estão muito menos presentes desta vez.

As faixas “Finem Solis” e “Helios Erebus” resumem o disco (mas não ouçam apenas essas, ok?). A primeira é uma sensacional paisagem sonora criada por teclados e sintetizadores. Feche os olhos e se imagine no filme Interestelar ou Solaris, na superfície da Lua, de Marte, ou em um deserto em noite estrelada. “Finem Solis” realmente é uma experiência sinestésica em que onda sonoras viram ruídos para, logo depois, deixar a melodia melancólica da guitarra preencher seus ouvidos. A segunda, com mais de 8 minutos, mostra bem o outro lado do GIAA e do álbum: a capacidade de usar diferentes efeitos (reverb e delay para a sensação de profundidade, distorção para a agressividade) e assim ir modulando as emoções da composição em uma faixa bastante roqueira e com ênfase nos ritmos. E “Obscura Somnia” é a união maciça dessas duas vertentes, mergulhando o ouvinte em ondas sonoras e dedilhados.

 

Apenas “Helios Erebus” e a ótima “Sea of Trees” possuem vocais, mas não são o tipo de letra que conte algo exatamente relevante para a canção. Na mixagem final, as palavras viram mais uma camada melódica da música, uma vocalização. “Centralia” e “Agneya”, ambas com uma pegada mais Mogwai, destacam o ótimo trabalho do baterista Lloyd Haney.

O quarteto é formado por três multi-instrumentistas: Torsten Kinsella (guitarra e sintetizador), Niels Kinsella (baixo e guitarra) e Jamie Dean (teclado, sintetizador e guitarra). Essa pluralidade sempre ficou evidente nos discos do GIAA, já que os músicos mostram flexibilidade estilística. Não se trata de compor música para guitarra ou puramente rock. Quem responde pelas guitarras sabe pensar em como o teclado ou os efeitos sonoros deverão se comportar, e isso acaba fazendo a música da banda – e especialmente de Helios | Erebus – comportar aquilo que se espera de uma banda de rock (como os excelentes riffs em “Agneya”) e estarem abertos para propor algumas abordagens mais abstratas (“Obscura Somnia”), e bonitas e com crescendos (caso de “Pig Powder”, que coloca os dedilhados de guitarra em primeiro plano, e “Vetus Memoria”, que é uma música conduzida principalmente pelo piano).

Outro mérito da banda é conseguir encaixar compassos diferentes em algumas seções de suas músicas, como o final de “Centralia” em 9/4, partes de “Agneya” estão em 7/4 e “Vetus Memoria” é inteira em 10/8. É o refinamento da banda deixando claro que cada composição foi cuidadosamente esculpida em sua métrica, arranjos, timbres e texturas.

Em alguns momentos, as músicas assumem contornos típicos do metal, mas não chegam a caracterizar nenhuma faixa inteira. Eles usam os elementos do estilo (como riffs pesados e linhas enérgicas de bateria) como exercício de dinâmica, mas nunca perdem o foco. O Asunder, Sweet and Other Distress dos canadenses do Godspeed You! Black Emperor, foi mais longe nisso, deixando passagens de suas músicas tão metalizadas que acabavam se tornando facilmente ruídos e abstrações sonoras pesadíssimos.

Helios | Erebus é um dos melhores discos do God Is An Astronaut e é bem melhor que o antecessor Origins. Embora ainda apresente uma música que não difere do post-rock tradicional, consegue ser uma pérola dentro da discografia da banda, cheia de texturas e de sons que, mesmo um pouco mais pesado e quem sabe mais sombrio também, devem atingir novos e velhos ouvintes da mesma forma: como se fossem astronautas envolvidos pelo vácuo do espaço, olhando a Terra acabar e renascer. Há beleza nisso.

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Nordic Giants – A Séance of Dark Delusions (2015)

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Música caleidoscópica, retro-futurista e feita para ser sentida

Por Lucas Scaliza

O estilo musical conhecido como post rock geralmente se caracteriza pela ênfase no som, deixando letras em segundo plano, mostrando como o rock pode ser musical – e ainda assim “rock” – tomando diversas ideias abstratas. Mas dentro desse nicho há muita diversidade. O Godspeed You! Black Emperor lançou faz pouco tempo o excelente Asunder, Sweet and Other Distress mostrando uma carga dramática de ruído e distorção, às vezes como uma música que pode ser esquematizada em uma partitura e às vezes totalmente abstrata. Já o Mogwai, um grupo escocês e um dos mais famosos do estilo, se consagraram fazendo rock alternativo instrumental e criando incríveis paisagens sonoras com sintetizadores, efeitos de guitarra e teclados. Há diversas outras bandas e em todas o “sentir” é um verbo que se faz muito presente. A banda Nordic Giants é assim também: muita técnica envolvida, mas sua música é, sobretudo, para ser sentida.

O álbum já está disponível no site oficial e no iTunes, mas pode ser ouvido na íntegra em streaming aqui.

Apesar do nome, o Nordic Giants não é um grupo escandinavo. É uma dupla de músicos ingleses, mas tanto a estética dos figurinos quanto do som fazem menção à cultura nórdica. Em fotos de divulgação e em shows ao vivo, os músicos aparecem usando peles de animais e pinturas corporais, sem falar nas tatuagens. A cênica é muito importante também: símbolos místicos antigos, iluminação planejada para não revelar muita coisa e criar um ambiente quase ritualístico. E um telão que fica atrás da banda, completando as músicas e dando à plateia todo o efeito sinestésico de suas harmonias e melodias.

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Embora A Séance of Dark Delusions finalmente marque a estreia do Nordic Giants no formato álbum, a dupla já vem se apresentando ao vivo faz algum tempo e lançou alguns EPs (Built Seas e Dismantle Suns) dando uma boa amostra do som inspirado que fazem. Eu não consegui encontrar muita informação sobre os dois músicos – nem o rosto eles mostram direito e sempre se apresentam na sombra do palco –, mas eles se chamam Loki e Roka e se dividem entre um pianista/tecladista e trompetista e um baterista, baixista e guitarrista. Eles vão se alternando e confiando em bases pré-programadas para conseguirem se apresentar.

O som de A Séance of Dark Delusions é muito bem cuidado e caleidoscópico: colorido, cheio de alternâncias de dinâmica. A bateria é um show de ritmo e de ataque aos pratos, conferindo uma pegada mais selvagem e visceral às composições. Em contraste, o piano sempre lança bases melodiosas e melífluas que se adequam rápido ao nosso senso de harmonia e beleza. Completando a paleta de sons, entram trompetes e trombetas, teclados robustos e guitarras distorcidas criando paisagens sonoras dignas de trilhas sonoras. “Black Folds”, por exemplo, é praticamente uma criação de paisagem sonora que introduz a ótima instrumental “A Thousand Lost Dreams”, que fecha o álbum evocando o máximo de nossa sinestesia.

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Essa capacidade imaginativa está presente tanto no álbum musical quanto em seu primeiro clipe, vai do encarte do CD às fotos e se estende aos palcos torna o Nordic Giants uma dupla interessante. Não é um projeto musical apenas, é quase uma força transmídia.

A origem do som deles também merece tentar ser elucidada. É uma música totalmente século XXI, mas que busca um impulso primal e mítico por meio do que aparelhos como sintetizadores e pedais são capazes de proporcionar. Pode ser tanto uma volta ao passado como um exercício de ficção, como se A Séance of Dark Delusions fosse trilha sonora de um futuro pós-apocalíptico (há pistas disso no clipe de “Rapture”).

Apesar da ênfase na criação cuidadosa de todas as camadas sonoras, o duo escalou algumas vocalistas para participar de suas músicas. Há o arroubo vocal de Beth Cannon (ainda desconhecida) na ótima “Rapture”, a voz gentil de Freyja (essa sim uma cantora com carreira solo consolidada da Europa) em “Give Flight To The Imagination”, Saturday Sun em “Dissolve” e Nadine Wild Palmer (da cena independente) em “Futures Dark”. Em várias, como na abertura “Elysian Skies” em “Illumiante”, usam apenas um canto coral ou vocalizações, colocando a alma humana no mapa sonoro. E em “Evolve or Parish”, uma narração fatalista dá dicas sobre o futuro apocalíptico da humanidade.

Com todo esse background, ouça a música do Nordic Giants com os ouvidos bem abertos. Não é uma música complexa. É mais como o +- do Mew, uma produção bastante eloquente que dá vazão para uma enorme variedade sonora. E não se preocupe em entender a história retro-futurista que pode estar por trás de A Séance of Dark Delusions. Deixe o som guiar seus sentidos. Essa é a melhor forma de aproveitar e compreender o primeiro disco do Nordic Giants.

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Godspeed You! Black Emperor – Asunder, Sweet and Other Distress (2015)

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A sensação de ser esmagado por ondas sonoras

Por Lucas Scaliza

Asunder, Sweet and Other Distress, esse delicioso nome quando pronunciado em voz alta, é arrastado, é pesado, é experimental, é instrumental e está cheio de momentos épicos sujos de overdrive e de camadas sonoras (teclado, sopros, sintetizadores, cargas de distorção bruta) para ninguém botar defeito. Um disco de post-rock exigente e exemplar.

“Peaseantry Or ‘Light! Inside of Light!’”, música que abre o disco, já mostra todo o potencial de peso do grupo. Os timbres de baixo e guitarra estão bem graves e bem sujos e embora seja um música com um BPM relativamente baixo, a dinâmica imposta pelo loop da melodia e os sons de teclado e sopros aumentam a dinâmica e a tensão. Cada nota parece se arrastar e o ouvinte tem tempo de saborear a duração de cada uma. E tempo é algo que não vai faltar neste disco. “Peaseantry…” tem mais de 10 minutos de duração.

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A primeira faixa se emenda na segunda, “Lamb’s Breath”, que mantém o clima opressor e joga para cima do ouvindo quase 10 minutos de ruídos graves e desconcertantes. O grau de distorção é tão alto que as notas do instrumento viram uma massa sonora ruidosa que dura quase 3 minutos, sendo substituída por um chiado que vai se transformando até virar um sinal sonoro grave e incômodo. O ouvinte vai conseguir ouvir a faixa toda ou vai pular? Exigente, a banda propõe em “Lamb’s Breath” um exercício de paciência e de música abstrata que cairia muito bem no repertório da dupla Atticus Ross e Trent Reznor.

“Asunder, Sweet”, logo em seguida, não torna a audição mais fácil ou prazerosa. Por mais seis minutos somos bombardeados com frequências de dar nos nervos que só ficam cada vez mais carregadas conforme novas camadas de som se aglutinam à faixa.

Já que a estética está garantida até aqui – elegendo o peso, a experimentação, a música que não é música-de-partitura mas também pode ser música, ou melhor, uma experiência estética e sonora – o álbum termina com a longa “Piss Crowns Are Trebled”, de onde vemos uma banda se reerguer do caso deixado pela faixa anterior. Thierry Amar e Mauro Pezzente (baixos), Aidan Girt e Timothy Herzog (baterias), Efrim Menuck e Mike Moya (guitarras) e Sophie Trudeau concebem um épico contemporâneo do ruído e da dissonância, e ainda assim uma música que possui melodia e ritmo envolventes.

Asunder, Sweet and Other Distress é o quinto disco de estúdio da banda de Quebec e explodirá a cabeça de fãs e de admiradores do post-rock, estilo também dos escoceses Mogwai. O trabalho é muito denso e foi baseado na música “Behemoth” que o grupo executava ao vivo na série de shows desconcertantes chamados We Have Signal, em que ruídos e abstrações eram parte importantíssima da experiência.

Barulhento como aço sendo retorcido e incômodo como o chiado estático da tevê. Faixas que obliteram o ouvinte com sua intensidade e complexidade na forma como fazem vários sons caóticos se organizarem em uma música coesa de onde brota melodia e um prazer pela sensação acachapante de ser esmagado por ondas sonoras. Um disco excelente para o estilo e só me resta pensar: Imagina isso ao vivo!

Blueneck – King Nine (2014)

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Um pouco post-rock e um pouco música ambiente, sem pressa de fazer as coisas acontecerem

Por Lucas Scaliza

O Blueneck é uma banda relativamente desconhecida do grande público. Não possuem nem uma página na Wikipedia, para se ter uma ideia, mas tem prestígio no underground europeu, no circuito alternativo. Admiradores de rock progressivo – principalmente fãs de Steven Wilson e Porcupine Tree – conheceram essa banda de Bristol recentemente por intermédio do fotógrafo e videomaker dinamarquês Lasse Hoile, que já fez inúmeros trabalhos para Steven Wilson e suas turmas. Hoile foi contratado para percorrer os rincões do interior dos Estados Unidos e fotografar algumas paisagens desoladas, melancólicas, o abandono do país após toda a crise mundial. O fotógrafo ia mantendo os fãs informados de sua jornada e postando algumas fotos muito interessantes. As imagens ilustram o encarte de King Nine, o quinto disco do grupo inglês, sucessor de Scars of the Midwest (2005), The Fallen Host (2009) e Repetitions (2011) e do miniálbum instrumental Epilogue (2012).

King Nine é mais uma experiência de fronteiras. Um pouco post-rock e um pouco música ambiente, sem pressa de fazer as coisas acontecerem, deixando notas reverberarem e apostando muito na criação de atmosferas. “Mutatis”, a música mais longa do disco, leva mais de 6 minutos para chegar ao seu ápice com guitarras distorcidas. Até lá, mantém a dinâmica sob controle, o vocal etéreo e um piano repetitivo, dando aquela sensação de ciranda ou de minimalismo. Há também um longo solo de trompete, cheio de notas longas.

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O disco é bonito e flui com uma certa densidade lamacenta. Os vocais de Duncan Attwood (também pianista e guitarrista) são sempre suaves e quase beiram o fantasmagórico, que é uma sensação que permeia todo o disco, desde sua arte gráfica até a música em si, passando pelo fato que inspirou todo o trabalho: um episódio da série de suspense sobrenatural Além da Imaginação.

“Counting out” é a música que abre o disco segurando o ritmo no piano, na bateria e depois com o guitarra carregada de efeito para fazer suas notas sobressaírem. A arrastada “Sirens” só se permite alguma fluência quando chega à metade. Já a faixa-título é uma das mais assombradas do registro.

Musicalmente, King Nine incorpora elementos da música eletrônica, principalmente ruídos e algumas batidas, como faz Trent Reznor em suas trilhas sonoras e no Nice Inch Nails, e traz mais trechos orquestrados, que contribuem com a criação das atmosferas do disco e reforçam o clima de abandono do álbum. Vários instrumentos e principalmente a voz parecem soar filtrados por um onipresente efeito de reverb, criando uma sensação especial para cada faixa que reforça a impressão do vazio pretendido pela música.

A densa melancolia de cada música, presente até mesmo na vibrante “Father, Sister”, chega ao seu ápice em “Spiderlegs”. Sem percussão e sem piano, é uma faixa que se sustenta num pesaroso naipe de cordas que vai ficando cada vez mais pesado. King Nine não chega a apresentar momentos felizes, mas o cenário de desolação dá espaço para um colorido (de leve) no final da ótima “Anything other than breathing”, que encerra o disco.

O novo trabalho do Blueneck pode ser a porta de entrada da banda para um público maior. Seu post-rock com orquestração e elementos eletrônicos soam como uma mistura de Anathema e Engineers, ambas bandas inglesas e um tanto diferentes entre si mas que dão pistas do que o Blueneck está almejando. Estilisticamente, King Nine é bastante consistente e possui uma sonoridade que se mantém ao longo das nove faixas. Não são músicas que prezam por qualquer tipo de virtuosidade ou ênfase muito acentuada nos instrumentos, estão mais preocupados com a ambiência sonora de uma forma geral. Por isso é difícil saber se vão emplacar entre os fãs de rock/metal progressivo, fãs de música ambiente ou algum outro público. Ficaremos de olho.

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