prog rock

The Mute Gods – Tardigrades Will Inherit The Earth (2017)

Após ótima estreia em 2016, banda dilui o pop e abraça de vez o rock progressivo inglês

Por Lucas Scaliza

O grupo The Mute Gods é uma reunião de grandes músicos que estavam sob as asas de outros nomes mais proeminentes do rock progressivo. Nick Beggs tem andado com Steven Wilson, sendo seu baixista e backing vocal há três turnês (e talvez embarque em uma quarta este ano ainda). Roger King é o tecladista da banda de apoio de Steve Hackett (ex-Genesis). E o carismático baterista Marco Minnemann é parte do trio de fusion The Aristocrats e também já passou pelo line up de estúdio e de turnê de Steven Wilson.

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No The Mute Gods vemos como as excepcionais habilidades desses músicos encontram o bom gosto das composições de Beggs e resultam em canções interessantes e que contribuem com a abrangência das fronteiras da música progressiva. Do Nothing Till You Hear From Me, a estreia, ganhou o prêmio de Vanguarda do Progressive Music Awards em setembro passado ao trazer os elementos do progressivo para uma vibe ora mais roqueira, ora mais pop. O grande diferencial do grupo era justamente esse feeling mais pop em excelentes canções como “Nightschool For Idiots”, “Last Man On Earth” e “Father Daughter”. Em sua segunda vinda ao mundo, a banda dilui o pop e investe em uma sonoridade progressiva mais pomposa e encorpada. Não a ponto de transformar Tardigrades Will Inherit The Earth em algo difícil de ouvir, mas estão muito mais roqueiros dessa vez.

Os bumbos duplos de Minnemann dão as caras na agressiva “The Dumbing of the Stupid”. O single “We Can’t Carry On” coloca o baixo de Beggs na dianteira da canção, conduzindo a harmonia dos versos e com letra com claro teor político. Já a introdução “Saltatio Mortis”, com sua orquestração e guitarra de notas longas, é praticamente um tributo à corte de Hackett e seu estilo mais épico e místico de prog, que se estende até a ótima “Animal Army”, que tem uma das descidas de baixo mais legais do ano. O ritmo constante e texturas oitentista da faixa-título contrastam com o vocal mais grave e mais kautrock de Beggs, ajudando a diversificar os sabores do álbum. Já “Early Warning” mistura algo de Rush com leves toques de King Crimson para uma faixa mais contemplativa e mesmo assim bastante elaborada. “Hallelujah” é pesada sem precisa de guitarras afinadas em Drop C. Com um baixo bem timbrado, os pés ágeis de Minnemann sintetizadores enervantes de King, a faixa é barulhenta e abusa dos graves.

O trabalho com guitarras foi dividido mais uma vez entre Beggs e Minnemann. Se o virtuosismo nas seis cordas não é o que eles almejam, conseguem com louvor executar ótimos riffs e criar temas memoráveis que dão mais dinâmica e força às faixas. Minnemann também responde pela modelagem de som, ofício que junto com as camadas de som de King, criam as excelentes texturas do álbum, como a pegada levemente eletrônica de “Window Onto The Sun” e os sons mais macios, coloridos e viajantes de “The Singing Fish Of Batticaloa”, que deverá agradar muito fãs do progressivo mais imaginativo já feito por Yes, Genesis, The Flower Kings e Transatlantic.

Percebe-se que o lado mais pop do The Mute Gods não foi descartado, mas sim incorporado com muita habilidade ao rock progressivo quando você nota que praticamente todos os refrãos de Tardigrades Will Inherit The Earth são cativantes sem apelar para o chiclete e todas as músicas, inclusive as instrumentais “Lament” e “The Andromeda Strain”, mantém o ritmo do trabalho, que nunca fica enfadonho. No final, “Stranger Than Fiction”, é praticamente o único momento verdadeiramente pop do álbum e que nos leva de volta a Do Nothing Till You Hear From Me.

Tardigrades Will Inherit The Earth mistura o que deu certo no prog oitentista (uma década complicada para muitas bandas cujo prog derivava da década anterior) com o que há de mais moderno no estilo, sem cair gratuitamente em fórmulas complexas. Como seu antecessor, um disco bem produzido e que não afasta os ouvintes. Mas diferente de seu antecessor, está muito mais focado e até um pouco mias ousado. Nick Beggs mostra conteúdo nas letras e vontade de expressar algumas opiniões urgentes sobre nosso tempo. Só por isso o álbum já mereceria o nosso crédito, mas tem tantas outras qualidades que vira uma audição obrigatória.

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Pain Of Salvation – In The Passing Light Of Day (2017)

Um drama hospitalar dá origem ao disco mais pesado, difícil e dramático já concebido por Daniel Gildenlöw

Por Lucas Scaliza

Faz seis anos desde que a banda sueca Pain of Salvation lançou seu último trabalho inédito, Road Salt Two (2011). A banda não se manteve parada nesse tempo todo: fizeram turnês tocando material antigo e até lançaram um ótimo segundo álbum acústico há três anos (Falling Home), mas sentíamos falta do senso distorcido de beleza de Daniel Gildenlöw, o vocalista, guitarrista, principal compositor e letrista do grupo, que faz do PoS uma das bandas mais interessantes do metal progressivo europeu.

In The Passing Light Of Day é exatamente o que Gildenlöw disse que seria: mais pesado, complexo, duro e cheio de contrastes. É também um álbum difícil, sem a polidez da produção dos álbuns mais recentes e voltando com tudo para uma estrutura de composição que era muito mais presente nos três primeiros álbuns do PoS, mesclando faixas mais fluentes com outras cheias de contrastes de dinâmica, ternura e raiva, tudo permeado de mudanças de andamento e ritmos quebrados. A produção de Daniel Bergstrand deu timbres secos aos instrumentos e tirou do teclado o papel de instrumento que poderia criar uma cama, amaciando o som. As guitarras de sete cordas soam encorpadas nos registros mais graves e mais estridentes nos agudos, um contraste que é tanto a cara da banda como um certo descuido (desde sempre) com a timbragem. In The Passing Light Of Day é o Pain of Salvation mais cru e visceral desde The Perfect Element (2000), como atestam músicas como “Reasons” e a excelente “If This Is The End”.

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Baseado no tempo em que Gildenlöw permaneceu hospitalizado em 2013 por quase seis meses após ser infectado por uma bactéria carnívora nas costas. A princípio, não era um assunto que ele achasse que cairia bem a um novo disco da banda, que representaria uma nova fase e com uma ótima nova formação também, mas deve ter notado que o caso, quando olhado do ponto de vista reflexivo – pois ele foi submetido a uma cirurgia (que o deixou com um buraco nas costas), passou pelas piores dores que já havia sentido, podia ter morrido, podia ter ficado com graves sequelas que o impediriam de tocar, cantar, subir em árvores com os filhos ou fazer parkour – deve ter visto o potencial dramático do caso. E drama é algo que sempre esteve presente no PoS, seja contando como ainda garoto viveu seu segundo amor (Remedy Lane, 2002) ou criando uma história sobre uma suposta cunhada (Road Salt One, 2010).

A questão da polirritmia às vezes é tão “na sua cara” – em faixas como “Angels of Broken Wings”, toda a abertura de “On a Tuesday” e boas partes de “Full Throttle Tribe” – que fica claro como a banda usa a complexidade rítmica para representar um certo descompasso na vida de Gildelöw. Se fosse uma escultura, In The Passing Light Of Day seria uma dessas obras contemporâneas de metal retorcido cheio de arestas – algo bem dramático que, no caso do álbum, é uma síntese do progressivo com o metal alternativo.

Quando as primeiras composições novas começaram a surgir, Daniel Gildelöw disse que havia encontrado em seu novo guitarrista – Ragnar Zolberg, o loiro que raramente sorri – um parceiro que há tempos não tinha na banda. O primeiro single do trabalho, “Meaningless”, mostrava não só o poder metaleiro cru de sua guitarra, mas sua voz aguda, dando mais vida (e drama) ao refrão. Parecia que ele teria mais espaço individual do que o PoS jamais deu a outro membro. Contudo, embora os riffs arrastados de Zolberg façam a diferença, é Gildenlöw quem permanece no controle da situação do começo ao fim, seja sussurrando, narrando, vociferando ou criando uma melodia marcante. Ao vivo poderemos ter uma ideia melhor de como eles dividem suas funções e proeminências nas guitarras, por ora fica o destaque para o solo em “Angels of Broken Wings”. Apesar da falta de solos no álbum, contudo fãs de discos anteriores vão reparar em algumas melodias conhecidas sendo reaproveitadas aqui e acolá.

A faixa final, “The Passing Light Of Day”, coroa a tradição de grandes composições que fecham os álbuns do PoS (categoria que conta com “The Perfect Element”, “Beyond The Pale”, “Enter Rain” e “The Physics of Gridlock”). Com 15 minutos, a maior faixa já registrada em estúdio pela banda, ela até lembra a fase Road Salt até sua metade. Depois volta ao seu metal para um abrasivo e emocionante crescendo.

É bom ter o Pain of Salvation de volta. Embora seja difícil antever qualquer coisa que venha deles – tipo de som, temática, etc – qualquer ouvinte atento às bases do estilo, ou a estética fundamental, e não apenas à aparente, percebe que o grupo sueco sempre consegue permear sua obra com contrastes entre sofrimento e libertação, brutalidade e melodia, fluência e quebras temporais. O álbum se ajusta perfeitamente a isso tudo que faz parte do PoS, não importando muito se estão tocando metal ou rock setentista, disco ou rap, folk ou um épico progressivo. In The Passing Light Of Day não é o melhor trabalho que Gildenlöw já fez, mas com certeza supera os anteriores em carga dramática e visceralidade.

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Kansas – The Prelude Implicit (2016)

Grupo faz disco mais acessível, mas mantém a identidade

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em rock progressivo, a maioria das pessoas pensa na Inglaterra, país onde surgiram os grandes medalhões do estilo como Genesis, Yes, Jethro Tull e Pink Floyd. Mas os Estados Unidos também foram palco de produções significantes do prog rock, uma prova disso são os discos do Kansas.

Como uma boa banda americana, o Kansas conseguia mesclar a vertente progressiva com outras tendências do rock, como AOR e hard rock. Daí veio um sucesso considerável que talvez não existisse se a banda focasse somente no prog. Resumindo: a grande virtude do grupo era misturar passagens complexas e típicas do prog britânico com refrãos grandiosos e épicos, com melodias palatáveis.

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A banda não lança nada novo desde 2000. Para piorar, o guitarrista/tecladista Kerry Livgren e o vocalista Steve Walsh da formação clássica deixaram o grupo. Para os vocais, foi chamado Ronnie Platt. Para a guitarra, foi chamado Zak Rizvi, a fim de auxiliar Rich Williams. Para os teclados, David Manion foi contratado.

O que esperar de uma banda que há 16 anos não lança algo novo? E que tentaria a sorte sem o line-up original? O guitarrista Rich Williams afirmou que seria algo para os fãs de “Dust in The Wind”, balada voz-violão famosa gravada no disco Point of Know Return (1977). Mas será que The Prelude Implicit é mesmo somente para os fãs da balada?

Em primeiro lugar, The Prelude Implicit não é um álbum totalmente baladeiro. Embora seja mais acessível e palatável, não é tão totalmente entregue às músicas fáceis de serem assimiladas. Eles mantêm a identidade do Kansas, mesclando o progressivo mais pesado com passagens épicas, recheadas de orquestrações e uma sonoridade mais melodiosa.

A banda abusa de melodias mais sensíveis, como em “The Unsung Heroes” e “With This Heart”, combinando-as à momentos mais orquestrais. Em “Visilibity Zero”, “Camouflage” e “Rythm in the Spirit”, as melodias mais fáceis são mescladas com momentos mais pesados conduzidos por ótimos riffs de guitarra.

Além disso, o Kansas também se mostra preocupado com as questões sociais que envolvem o mundo. A letra de “Refugee”, balada que lembra “Dust in the Wind”,  trata de uma oração cheia de súplica à Deus em favor das crianças e dos refugiados. Tocar nesse assunto foi bem oportuno dado o momento político em que vivem os americanos e todo o resto do mundo. Já “Section 60” é uma faixa instrumental cujo título faz referência à uma parte do cemitério Arlington National reservada para as vítimas das guerras no Oriente Médio. Na letra de “Visilibity Zero” eles trazem uma visão pessimista e distópica acerca dos políticos, enquanto conclamam o ouvinte a abrir os olhos para não ser enganado, nem dominado.

Basicamente, em The Prelude Implicit o Kansas trabalha com melodias marcantes, momentos mais agressivos e momentos mais épicos. As orquestrações foram lideradas pelo grande violinista David Ragsdale, que impõe seu instrumento frente ao demais. Seu violino conduz harmonias, cria texturas e se comunica bem com os outros instrumentos, contribuindo para o todo muito significativamente. Em alguns momentos, os temas instrumentais criados por eles soam tão bem que nos fazem lembrar trilhas sonoras de grandes filmes.

Os momentos mais guitarreiros são bem dosados, bem colocados e cooperam com os momentos de dinâmica mais baixa. Os músicos souberam como utilizar as distorções e as guitarras vão de riffs mais técnicos a ideias mais simples e diretas, cedendo espaço para os outros instrumentos aparecem.

O Kansas não volta tão feroz quanto costumava ser antigamente, mas também não decepciona. O novo álbum é muito bem produzido e bem direcionado, feito para soar mais acessível, enquanto apresenta os elementos característicos da banda, desde o instrumental ao conteúdo das letras, mantendo de certa forma, a identidade.

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Foto: Marti Griffin

Orbs – Past Life Regression (2016)

Superbanda manda ver no rock visceral e progressivo para contar histórias estranhas de vidas passadas

Por Lucas Scaliza

Não chore mais o fim do The Mars Volta. A banda Orbs é uma prima mais jovem, mais ansiosa e igualmente maluquinha em seu rock’n’roll criativo e nervoso. Do começo ao fim, Past Life Regression é uma rajada de músicas interpretadas com urgência pelo vocalista e guitarrista Adam Fisher, lembrando diversas vezes a banda punk Titus Andronicus. Existe certa ênfase na técnica, o que dá uma cara progressiva ao rock do quinteto e uma dinâmica de banda que alterna entre o rock de riffs poderosos do Muse e o psicodelismo do Of Montreal e do MGMT.

Não quero fazer parecer que o Orbs necessita dessas aproximações com essas bandas mais famosas para se definir. No entanto, eu, como um resenhista tentando pôr em palavras o som dessa banda, achei pertinente citar as bandas com elementos e estilos que parecem confluir para formar o som do Orbs. Definir sem referências fica ainda mais difícil no caso deste disco em que as faixas são camaleônicas. “Jaws On Repeat (Life On Hold)”, por exemplo, começa com uma levada psicodélica do teclado e da guitarra (o som do MGMT, a voz do Titus Andronicus) e vai ficando mais intensa, como acontecia no Mars Volta, uma dinâmica de guitarra, baixo e bateria que lembra o Muse ao vivo e um encerramento digno do Of Montreal. Mas e se eu disse que, apesar dessas comparações todas, a Orbs soa autêntica? E que Past Life Regression, em sua explosão roqueira e diversa, tem uma assinatura sonora própria?

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É exatamente isso o que ocorre com esse supergrupo e com este álbum. Mesmo que você curta uma das bandas mencionadas, não é certeza que você vai gostar da mistura sonora, mas vale a pena tentar, porque há qualidade no trabalho e nos músicos envolvidos. Dan Briggs, guitarrista, vem da pesadona e prog Between The Buried And Me; a tecladista Ashley Ellyllon é egressa das bandas de black metal Cradle Of Filth e Abigail Williams; o cantor Adam Fisher era da banda experimental Fear Before The Marcho of Flames.

Completam o time o baixista Chuck Johnson e o baterista Matt Lynch (substituindo Clayton “Goose” Holyoak) que, apesar de não terem feito parte de bandas conhecidas, fazem um trabalho primoroso em Past Life Regression. Afinal, quando há um repertório lotado de canções que mudam de dinâmica constantemente, você PRECISA de uma cozinha que acompanhe com precisão e a força necessária. A nervosa “These People Are Animals” mostra justamente como Lynch moi o kit de bateria e Johnson propõe ótimas linhas de baixo o tempo todo.

Embora soe mais jovial que o The Mars Volta e o At The Drive-In, a Orbs faz parte da mesma estirpe: uma banda que presa pela criatividade e procura meios de perverter as composições, transformando-as em coisas que ouvintes possam exclamar: “Nossa, que louca essa parte!” A recusa de fazer uma música linear e fácil de digerir é o que garante a originalidade da proposta. Nem mesmo os vocais facilitam para o ouvinte, alternando entre o intenso, o raivoso, o infantil, o arrastado e o limpo (como na faixa “Exploded Birds”), interpretando diversos personagens na mesma faixa. Afinal, trata-se de um disco conceitual com “histórias de reencarnação e suas mais estranhas formas”.

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Goste ou não do resultado final, tenha ou não você paciência para chegar à metade do álbum, saiba que não deve desconfiar da qualidade musical dos envolvidos. Nenhum músico mostra preguiça, não há uma levada que não valha a pena prestar atenção e os climas criados por Ashley Ellyllon são certeiros para o som do Orbs ter uma qualidade viajante e etérea que sabe a hora de aparecer e a hora de dar lugar ao rock’n’roll ágil. É uma banda plural que usa a sua pluralidade com muita inteligência – mas não tenta, nem por um minuto, sacrificar essa pluralidade para agradar quem prefere uma música mais linear. Past Life Regression exige do ouvinte a mesma pluralidade.

A descrição da banda para seu som era, há algum um tempo, era uma tentativa de representar o espaço e a natureza. Embora isso ainda possa ser encontrado em faixas como na melancólica “Giving Tree Hanging Me”, parece ser uma declaração mais restrita ao primeiro álbum, Asleep Next To Science (2010). O novo trabalho tem cara de ópera rock, com variações de dinâmica e intensidade coordenados para combinar com o desenvolvimento da narrativa e dos atos do personagem.

Com as bandas At The Drive-In e The Mars Volta fora dos estúdios, o Orbs acaba sendo a banda de rock experimental e progressivo que preenche a falta de um som tresloucado, visceral e bem calculado. E eles entregam o que prometeram e vão além. Não é preciso ter ouvido todas as bandas citadas para entender o que se passa com esse supergrupo, mas só mesmo ouvindo “Death Is Imminent (However, Relative)”, “Dreamland II”, “El Burro” e “Peculiar, Isn’t It?” para ter noção de verdade do que eles propõem e de como são originais.

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Dark Suns – Everchild (2016)

Banda alemã chega ao ápice criativo misturando metal, jazz, progressivo e toneladas de melodias cativantes

Por Lucas Scaliza

A safra de música heavy metal de 2016 está muito superior à dos anos anteriores. Não que não tivesse um ou outro destaque, mas este ano o metal voltou a ser instigante e parecer muito menos acomodado que no passado (vide o caso do Dream Theater). Algo que também chama a atenção é o quanto as bandas têm arriscado, colocando a criatividade acima de qualquer “obrigação” de manter uma certa sonoridade (caso de Affinity do Haken e o vindouro Sorceress do Opeth). Everchild, quinto disco dos alemães do Dark Suns, é a cereja em cima do bolo do metal progressivo, nos presenteando com um trabalho incrível. Se faltava algo para a banda ascender ao primeiro escalão do prog metal, era este disco.

Para começar, eles não se importaram em misturar diferentes gêneros musicais e incluir ideias ousadas ao seu metal, transformando-o em algo muito mais complexo e difícil de definir. As duas músicas que abrem Everchild – “The Only Youn Ones Left” e “Spiders” – vêm com um leve toque jazzístico em meio à guitarras com overdrive mantendo a animação das faixas. Já “Escape With The Sun” é um rock progressivo que vai dos teclados setentistas ao blues rock moderno. Transcendendo o metal progressivo, os alemães pisam no terreno que podemos chamar de fusion prog metal.

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Em termos de jazz, o Dark Suns se revela em toda sua sensibilidade em “Monster”, canção lenta, melodiosa e extremamente bem feita. Um guitarra bate os acordes com distorção leve (para não esquecermos de que se trata de rock), outra faz dedilhado, um piano e o trompete dão a tônica jazzística. A melodia, em dueto, é um aceno à melhor contribuição do metal melódico para o álbum e para o metal em geral. Uma faixa corajosa, para um disco de metal, que mostra não só a pretensão da banda, mas a capacidade de fazer algo que foge completamente à expectativa de seus ouvintes.

Em termos de metal, não espere nada próximo ao death metal que fizeram no início da carreira. Assim como Opeth, os heróis do Dark Suns, a banda evoluiu bastante a sua forma de encarar a música e mostrou uma abertura sonora surpreendente em Orange (2011), quando o fusion ficou sério, e em Grave Genuine Human (2008), trabalho em que seu metal mostrou mais preocupação artística do que vontade de agradar a fãs presos às velhas fórmulas do estilo. Os vocais de Everchild são quase sempre suaves para acompanhar canções de fundo melancólico (e aí há uma proximidade com a fase mais recente do Katatonia). Ao mesmo tempo, usam timbres mais clássicos para seus instrumentos. O teclado de Ekkehard Meister em “Codes” e em “Morning Rain” soa vintage, como o do Opeth em seu Sorceress.

Mesmo sendo mais diverso que Orange, Everchild é menos esquizofrênico que seu antecessor. “Unfinished People” tem tanto uma pegada mais obscura como mais moderna, frente à beleza singela da balada “The Fountain Garden”, às melodias supercativantes de “Torn Wings” e ao refrão poderoso de “Everchild”, saciando a vontade de guitarras pesadas do ouvinte.

É nesse equilíbrio entre peso, intensidade, levadas roqueiras, levadas jazzísticas, quebras progressivas, ótimas harmonias e uso de melodias expressivas que Everchild se faz um dos melhores discos de 2016 e a obra mais vistosa já criada pelo Dark Suns até agora. As duas últimas faixas, ambas com mais de 10 minutos de duração, fazem um grand finale digno dos melhores discos do século 21 do estilo, passando por bandas como Tool, Pain Of Salvation, Dream Theater e o próprio Opeth. A sofisticação sonora de “Morning Rain” e “Yes, Anastasia” (um cover de Tori Amos) não difere do que foi apresentado nas nove faixas anteriores, fechando um ciclo que cria uma ponte entre o metal, o rock, o progressivo e o fusion dos últimos 20 anos utilizado por bandas da Europa continental, da Inglaterra e dos Estados Unidos. Acredito que nem mesmo o Dark Suns tenha noção dessa amálgama sonora que conseguiu criar sem que essa diversidade de referências soe pastiche, mas está tudo em Everchild para que perceba qualquer um que tenha acompanhado o heavy metal nos últimos anos.

A banda apostou alto dessa vez, inclusive em termos financeiros. Usaram todo o dinheiro recebido como adiantamento para custear o aluguel do estúdio Funkhaus, em Berlim, com o produtor Yensin Jahn. Para financiar a mixagem feita pelo produtor Peter Junge em Londres, abriram um crowdfunding – o que diz muito também sobre a qualidade e confiança dos fãs do Dark Suns. Dessa vez o vocalista Niko Knappe concentra-se apenas nos vocais, deixando as guitarras para Maik Knappe e Torsten Wenzel, que fazem uma dupla e tanto, nunca competindo um com o outro, e sim complementando-se. O baixista Jacob Müller se dá muito bem no jazz e cria linhas marcantes para as faixas mais lentas. Dominique Ehlert agora é o baterista oficial do grupo e simplesmente destrói em Everchild. Ao lado de Meister nos teclados, é o músico que se mostra mais versátil, indo do metal ao jazz, do rock à balada, sem deixar de propor uma dinâmica prog que perpassa todo o álbum. Por fim, Govinda Abbott e Evgeny Ring entram para a banda definitivamente no trompete e no saxofone alto, respectivamente, adicionando os bem-vindos elementos de jazz.

Em termos de metal, eles conseguiram um som desafiante e inovador. Em termos artísticos, chegaram ao ápice de sua criatividade demonstrada até aqui. Elevaram o grau de comparação não só para si mesmos, mas para as outras bandas também.

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Anderson/Stolt – Invention of Knowledge (2016)

É o melhor do Yes que você encontrará fora do Yes

Por Lucas Scaliza

Em 2014, a superbanda Transatlantic (uma espécie de seleção do rock progressivo) se apresentou dentro de um cruzeiro cheio de outras bandas de rock e metal progressivo. Como se o show do grupo já não fosse uma constelação suficiente, tiveram Jon Anderson, o lendário vocalista do Yes, como convidado. Thomas Waber, o chefão no selo InsideOut, gostou do que viu e achou que seria uma boa ideia se Jon Anderson e Roine Stolt, o guitarrista, cantor e principal compositor da banda sueca The Flower Kings (e também do Transatlantic) trabalhassem juntos. E eles trabalharam mesmo.

Durante um ano e meio a dupla compôs e gravou músicas novas tendo em mente não exatamente a sonoridade do Yes ou do Flower Kings, mas o espírito clássico do rock progressivo atualizado para os dias de hoje – o mesmo modus operandi do Transatlantic, aliás. Por isso, Invention Of Knowledge é composto de nove faixas para quatro suítes, como se fosse um livro em nove capítulos divididos em quatro partes. Pela internet, Anderson e Stolt trocaram ideias e gravações de suas partes até chegarem a um resultado que agradasse a ambos e funcionasse bem. “Funcionar” aqui significa ser tecnicamente apurado e gostoso de ouvir ao mesmo tempo, algo que tenha apelo junto aos fãs do rock progressivo, que passeie por diversos estilos, e que não afaste um ouvinte de fora desse nicho.

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Invention Of Knowledge funciona, não tenha dúvida. Aos 71 anos, Jon Anderson continua cantando bem e ainda entrega vocais doces, suaves e melodias apaixonantes em seu timbre agudo característico e reconhecível a milhares de quilômetros. Embora não se resuma a uma faixa, a abertura com “Invention” é uma demonstração da coesão estética do trabalho e da qualidade como cantor de Anderson. Não se trata de um rock forte e poderoso como “Going For The One”, mas é uma canção cheia de imaginação que remete ao final dos anos 60 e início dos 70 com produção esmerada que não deixa os instrumentos soarem retrô.

Roine Stolt é um guitarrista de mão cheia e está incrivelmente bem colocado no disco. Como ele divide a autoria do disco com Anderson, era fácil prever que teríamos longuíssimos solos de guitarra ou uma onipresença do instrumento em cada faixa. Longe disso, ele encontrou equilíbrio perfeito ao dar espaço generoso para o resto da banda contratada para dar forma ao projeto. É claro que temos vários solos de guitarra e vários fills e arranjos entre os versos, mas nunca de uma forma intrusiva e forçada. Teclados, sintetizadores, baixo, bateria e diversas camadas de vozes desempenham papel igualmente fundamental na criação da música em Invention Of Knowledge.

Anderson e Stolt miraram alto. No caso, Tales From Topographic Oceans (1973) vem à mente imediatamente. Composições longas, cheias de diferentes partes e grandes refrãos, mudanças na dinâmica e trechos de elevação espiritual (quando a música não fica exatamente pesada, mas sim mais cheia de som, tentando despertar a emoção do ouvinte) fazem com que o álbum tenha a um só tempo uma cara de clássico instantâneo e seja menos rock’n’roll do que poderia ser. Na verdade, Anderson sempre teve em mente fazer música progressiva, e não rock progressivo, ao embarcar neste projeto. Assim, o preciosismo das composições é o que acaba ganhando mais destaque, em detrimento da força e da empolgação roqueira (não espere power chords cheios de distorção). Se ele parece um tantinho enfadonho, é por isso. Mas o bom gosto da dupla – refinado em mais de um ano e meio de e-mails trocados – garante a qualidade e a inegável beleza de suas nove faixas. Sem longas passagens instrumentais, passa longe de parecer o Transatlantic, mas lembra bastante a pegada do TFK.

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Há muito som no álbum. Não se trata de um trabalho minimalista ou que confia em alguns poucos recursos para se expressar. Mas há alguns elementos que acabam chamando nossa atenção. O baixo foi divido pelos suecos Jonas Reingold (The Flower Kings, Kaipa, Karmanic e ex-The Tangent) e Michael Stolt (ex-The Flower Kings) e é um o instrumento mais criativo do conjunto, conseguindo se libertar da base harmônica das canções e propor linhas melódicas próprias. Em “Knowing” o instrumento se divide de forma brilhante entre complemento da harmonia, instrumento de melodia, marca as acentuações do ritmo, acompanha a voz e ainda faz ambientação no finalzinho da faixa. “Chase and Harmony” é outro grande momento do baixo no álbum, assim como as bases que acompanham os solos de guitarra e a voz de Anderson em “Everybody Heals”. Uma utilização do baixo mais próxima do jazz e da música clássica que foge do rock mais genérico, mas que sempre dá as caras no rock progressivo mais imaginativo, como é o caso de Invention Of Knowledge.

As várias vozes que criam camadas e mais camadas de vocalizações, coros e harmonias também são um ponto forte do álbum. Para essa função foram convidados Daniel Gildenlöw (Pain Of Salvation), Nad Sylvan (Steve Hackett), Anja Obemayer, Marua Rerych e Kristina Westas. Não apenas reforçam a voz principal como também criam texturas interessantes. Quando cantam acompanhados de acordes de teclado e de orquestrações, são responsáveis pela sensação de grandiosidade das músicas. Talvez seja um recurso usado um pouco demais, o que contribui com a sensação de enfado, mas por outro lado é um elemento importante da estética musical do álbum.

Não tenha dúvida de que se trata de um grande álbum de música progressivo, com grandes músicos e capitaneado por duas forças criativas que sabem o que fazem. Contudo, não é perfeito. Há excesso de beleza e suavidade principalmente porque falta um contraste feito por um pouco mais e peso, riffs, distorção e até melancolia, já que é um disco muito “para cima” na maior parte do tempo. Toda a luz do conhecimento que banha Invention Of Knowledge não cria sombras e torna tudo um pouco adocicado demais. Ainda assim, é o melhor do Yes que você encontrará fora do rock do Yes.

 

Tabula Rasa – Crimson (2016)

Com carisma e qualidade técnica, banda da Flórida une pop e rock progressivo em segundo álbum

Por Lucas Scaliza

Quando a banda Tabula Rasa lançou Tabula Rasa, um rock progressivo com hard rock melódico e vocal feminino, fiquei absolutamente boquiaberto. Era o primeiro disco deles e mostravam uma musicalidade madura, técnica avançada e canções superempolgantes. Além disso, vinham de uma região dos Estados Unidos onde nem o rock e nem o progressivo são muito fortes: Miami, Flórida. Com certeza foi um dos discos que gostei de ter ouvido naquele ano e não sei por que não escrevi uma crítica para o Escuta Essa Review na época.

Crimson, o segundo trabalho do grupo, não é tão forte quanto o primeiro (a incrível “Postscripts” vem à mente) e nem abusa da vertente progressiva dos músicos, mas entrega boas composições, refrãos emocionantes e exploram estilos diferentes, mostrando que o Tabula Rasa não é uma banda de uma nota só ou que pretende se manter em um porto seguro sonoro. Mas a pretensão ainda está presente: o primeiro disco tinha 17 faixas, já Crimson tem apenas sete, sendo que a faixa-título tem mais de 20 minutos de duração. Mas não é preciso se assustar, pois as outras seis músicas do disco são bem acessíveis e tem 4 minutos em média.

Em Crimson, o rock da banda está ainda mais melódico, como anuncia tão carismaticamente a guitarra solo em “Graduation”. E os refrãos na voz de Mica Tenenbaum (que também é a tecladista do grupo) são todos bem construídos e capazes de fazer baixarmos a guarda em cada faixa, mesmo quando desconfiamos da proposta de aliar o pop ao progressivo. Na verdade, faixas como “Unspun” e “Atlas” reforçam a multiplicidade de referências do grupo e enriquecem a amplitude do progressivo. A primeira tem batidas eletrônicas, uma guitarra com delay, o baixo de Edu Zighelboim funciona independentemente do resto faixa e tem até um sample de percussão brasileira. Já “Atlas” tem mudanças de compasso durante os versos, um recurso comum no prog, mas as diferenças estão tão bem encaixadas na melodia que o ouvinte menos matemático nem vai sentir a diferença. “No One Else” também merece destaque, com sua dinâmica que vai subindo utilizando teclados e efeitos eletrônicos ao estilo do Muse.

A princípio, a valsa “Tangen Flights” parece uma das músicas mais fracas do disco, mas surpreende com a inclusão do solo de saxofone de Aldo Savent, um músico convidado, que ilumina toda a canção, como raios de luz que dissipam nuvens carregadas. Em “Until” eles incrementam o som com cordas, corne francês e baixo vertical, instrumentos que aprofundam a experiência emocional da canção. A faixa tem apenas 3 minutos, mas poderíamos viajar em sua melodia por bem mais tempo.

A enorme “Crimson” fecha o álbum entregando doses cavalares de distorção e progressividade, a começar pela intro, que mostra um instrumental intrincado entre baixo, as guitarras de Dylan McCue e Matthew Levin e a bateria precisa e cheia de pegada de Nick Villamizar. Ao longo da faixa percebemos que ela é dividida em diversas seções, como se fossem várias faixas juntas. Há momentos mais leves, outros mais pesados, passagens instrumentais virtuosas. Destaque para a vocalista Mica Tenenbaum que executa solos excelentes com influência de música erudita. O quinteto de Miami demonstra maturidade na construção da canção e não peca nem por excesso e nem por falta. Pelo jeito, continuam sendo muito conscientes da música que criam juntos, podendo ser comparados ao Yes e ao Steven Wilson nesse quesito.

Trazer o pop para o progressivo (ou vice e versa) não é fácil e já rendeu experiências não tão queridas pelos fãs do gênero, especialmente na década de 1980 (Yes é um exemplo clássico, mas também houve incursões do Rush e do Genesis), mas o Tabula Rasa encontra o equilíbrio estilístico. Assim, a diferença de approach entre o primeiro e este segundo disco é, sobretudo, uma declaração de coragem e, mesmo que Crimson não seja perfeito, uma mostra de que a banda segue olhando para frente e propondo coisas novas para si mesma. Isso é, e sempre foi, a alma do prog.