psicodelico

Samsara Blues Experiment – One With The Universe (2017)

Guitarras menos violentas, mas o mesmo vigor do stoner metal viajante de antes

Por Lucas Scaliza

Embora facilmente localizável ali no final da década de 1960, com a alta do movimento hippie, a música psicodélica nunca saiu de moda. Na verdade, saiu sim. Ou nunca esteve “na moda”. Mas sempre foi feita, refeita, recriada, recontextualizada. Sempre esteve presente, digo. E hoje a oferta é muito melhor e maior do que nos anos 80, por exemplo. No Tame Impala, temos sua versão mais pop dope; no Radio Moscow, uma psicodelia que nos leva a Woodstock e Hendrix; e Samsara Blues Experiment traz o delírio em meio à riffs pesados, solos incendiários e longas jams roqueiras.

O que já foi um quarteto hoje é um trio. Christian Peters (guitarra e voz), Hans Eiselt (que era guitarrista, e agora toca baixo) e Thomas Vedder (bateria) são os alemães que compõe o Samsara Blues Experiment e fazem um trabalho primoroso, bem equilibrado e com todos os elementos que o bom stoner rock deve ter em One With The Universe. Como o título sugere, há até um certo ar místico na produção, o que se conecta perfeitamente com os hippies de 50 anos atrás.

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Mais sintetizadores, mas nada que atrapalhe a sonoridade roqueira geral, se é altas doses de distorção e ataques potentes de bateria que você procura. Aliás, os sintetizadores ajudam a ressaltar o aspecto mais viajante do grupo. O lado indiano dos alemães (afinal, a banda chama-se “Samsara”) está preservado. O disco conta até com uma cítara em “Glorious Daze”. E o blues pode ser sentido nas escolhas das notas da maioria dos riffs. O stoner, mesmo em sua vertente metaleira, continua bebendo na fonte primordial do rock. Já era assim com o Black Sabbath, continua a ser com o SBE.

São apenas cinco faixas e quase 50 minutos de som, mas cada faixa tem uma boa dose de exploração sonora e passam longe, bem longe, do tédio. “Vipassana”, que abre o disco, tem tudo o que fãs do estilo curtem. Eiselt mostra que é um baixista de mão cheia e Peters, embora ainda não seja um grande vocalista, está muito melhor como cantor do que nos álbuns anteriores (“Glorious Daze” é a melhor prova disso). Já a instrumental “Sad Guru Returns” vem com uma carga generosa de distorção nas guitarras e um sintetizador bem disfarçado ali no meio que ajuda a dar melodia à faixa. Vedder está um monstrinho atrás do kit da bateria. Com 15 minutos de duração, a faixa títulos mostra todas as armas sonoras da banda, não deixando nada de fora. O feeling desses alemães é impressionante!

Algo que não dá para deixar de notar é que, embora peguem pesado ao longo das faixas, há bem menos seções em que Christian Peters sola feito um louco, com aquelas notas estridentes e rápidas que estimulavam a agressividade em Revelation & Mystery (2011) e Long Distance Trip (2010). No entanto, Peters está mais viajante do que nunca e ambiência de seu instrumento supera com folga em One With The Universe o que fora demonstrado nesse quesito nos discos anteriores.

Após quatro anos de espera por material novo – embora tenham começado a tocar novas músicas em 2016, em uma turnê que inclusive passou pelo Brasil este ano –, o resultado é uma banda que soube não decepcionar fãs e fazer um som que não é cópia do que fizeram no passado. Blues, música indiana, psicodelismo e rock ainda podem tomar muitas formas. O universo, afinal, está em expansão.

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Mastodon – Emperor Of Sand (2017)

É sobre o câncer, mas com a mesma energia de sempre

Por Lucas Scaliza

Como a própria banda fez questão de deixar bem claro durante a campanha de expectativa para o álbum, o “Imperador de Areia” a que se refere o título é o câncer, essa doença que consome o paciente e o faz lutar pela vida, consumindo também as emoções de quem orbita a sua volta. E o tempo, às vezes, parece que escorre como areia de uma ampulheta. O quarteto americano do Mastodon recentemente viu isso ocorrer com amigos e familiares e decidiu abordar o assunto nas letras do temático Emperor Of Sand.

Como já de se esperar, o novo disco é um baile de bons riffs e aquela energia às vezes mais hard rock, como em “Show Yourself”, e que pode chegar ao metalcore com grande facilidade, sempre sabendo para onde voltar e sem nunca deixar o entusiasmo cair. A ênfase no ritmo, ditada pela bateria de Brann Dailor – um daqueles músicos que sabe se manter pontualmente no beat, fazer uma longa virada e voltar com perfeição ao ritmo regular – é chave para fazer dele uma experiências intensa.

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Da primeira (“Sultan’s Curse”) à quarta música (“Steambreather”), ouvimos um Mastodon fazendo a lição de casa, colocando para fora o que já sabemos de que são capazes. Por melhor que Once More ‘Round The Sun (2014) seja (e foi até considerado um dos melhores do ano pelo Escuta Essa Review), já era um disco em que se discutia como a fórmula da banda ainda dava certo, mas sem apostar em inovações. O caso é que Emperor Of Sand também pode ser visto dessa forma, e as três primeiras faixas só mantêm o que já sabemos sobre os músicos. “Steambreather” dá um vislumbre de como podem melhorar, e a partir da faixa seguinte vemos o Mastodon destilar toda a sua dor, peso e criatividade. Se o início foi mais do mesmo, da metade pra frente faz valer a posição no metal que ocupa atualmente.

“Root Remains” é o primeiro clássico de Emperor Of Sand. Início climático que desemboca em um ritmo intenso e arrastado com o vozeirão do baixista Troy Sanders mandando ver nos drives. Com um bom gosto incrível, conduzem a música para um desfecho mais emocional que é concluído com um maravilhoso solo de Brent Hinds. Sem brincadeira, é uma das melhores composições que o Mastodon já gravou. “Ancient Kingdom” é mais uma faixa em que Troy e Brann seguram a onda e deixam para Brent e Bill Kelliher variarem acordes, riffs e arpejos.

O que faz do Mastodon a banda de que todo mundo fala é a capacidade de fazer metal sem esconder as influências do hard rock, colocando as partes mais progressivas em comunhão com tudo isso, e não criando seções onde isso é jogado na cara do ouvinte. Talvez apenas “Andromeda” seja flagrantemente progressiva no disco, mas nada extremamente intrincado e ainda colocando um excelente aceno para o black metal no final. Ainda por cima conseguem temperar tudo com um clima meio psicodélico (“Clandestiny”), que é de onde vem toda a irreverência da banda, mesmo quando o som fala de algo tão grave e sério como o câncer.

E é claro que conseguem ser mais sombrios. “Scorpion Breath”, outra pérola do álbum, é o momento em que a banda se deixa chegar ao thrash metal para mostrar toda a perturbação da doença de que trata. E progressivamente, a excelente “Jaguar God” vai ficando mais pesada, mais emocional, indo da balada em 3/4 ao metal sombrio, passando por um solo totalmente técnico e voltando à valsa inicial para Hinds ter a oportunidade de celebrar a salvação na morte com mais um belo solo. Talvez não belo quanto o de “Root Remains”, mas ainda assim um que vale a pena parar para prestar atenção.

Emperor Of Sand é uma grande metáfora para a situação de um paciente de câncer, utilizando imagens e símbolos mitológicos e astrais para dar conta do assunto de forma narrativa. De forma alguma deixam a melancolia da situação tomar o som da banda. Pelo contrário: encontraram uma forma interessante de imaginar a situação, tomando uma postura realista mesmo dentro da fantasia, usando o problema como combustível para o peso e para os riffs. Não vai ser recebido como o melhor material do Mastodon, mas tem momentos que conseguem voar tão alto quanto os melhores da discografia.

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Roadkill Ghost Choir – False Youth Etcetera, Vol. 1 (2017)

Mais viajante e cativante, banda americana mantém vivo o southern rock

Por Lucas Scaliza

Se você for pegar a estrada e só puder levar dois discos – ou tiver apenas tempo para ouvir dois álbuns em seu trajeto – recomendo fortemente que o primeiro seja Prisoner, o novo do Ryan Adams. O segundo, que seja este EP False Youth Etcetera, Vol. 1 do Roadkill Ghost Choir. Ambos são um par, não intencional, mas ainda assim, complementam-se e te manterão no mesmo contexto musical e de olho na estrada, deixando que ambos sejam a trilha sonora de suas curvas, ultrapassagens e paradas para tirar fotos do pôr-do-sol.

O que os dois álbuns tem de parecido? O rock, com um pezinho no folk e outro nos anos 80, a boa utilização do teclado e dos pedais de expressão para criar uma atmosfera e os vocais macios de Andrew Shepard. São como irmãos gêmeos, mas não univitelinos, saca?

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“Vision on Vision . Undo”, que abre o disco, tem 10 minutos muito bem aproveitados. Não só a banda consegue mostrar seu lado mais cativante, como também lança mão de uma série de técnicas que vão do arpejo de guitarra às passagens levemente psicodélicas, que te convencem a ficar e aproveitar o resto do álbum.

Canção após canção, nota-se que o disco é uma pequena pérola. Apenas 30 minutos – e um terço dele já disparado na primeira faixa – e um potencial enorme. Não paramos de apreciar os versos de Shepard em momento algum, assim como não paramos de viajar nas teclas de Kiffy Myers e nos acordes sujos de Stephen Garza em “Classics (Die Young)” ou na balada high school “Cassette Memory” ou no indie pop de “Dream Shiver”.

“Beggar’s Guild”, do EP Quiet Light de 2012, é, de longe, a música mais conhecida desse quinteto que surgiu em DeLand, Florida – mas que agora mora em Athens, Georgia. A faixa chamou a atenção por misturar banjo com o southern rock. Bem, não há banjo neste primeiro volume de False Youth Etcetera, assim como também não havia no primeiro álbum, In Tongues (2014). Como se tivessem passado um tempo andando com o War On Drugs, o Roadkill Ghost Choir soa menos moderninho do que no trabalho anterior e muito mais oitentista em todos os seus timbres. E se Myers não usa mais o banjo, faz um incrível trabalho com sintetizadores e outros instrumentos atmosféricos, dando-se inclusive espaço para o experimentalismo em “KLP#1”.

Curto, não dão margem para o erro. E talvez o maior acerto seja “Severed Hand of God”, uma balada meio onírica e meio freak. Para um EP que começou seguindo as regras do estilo que se propõem a fazer, chegam ao final mostrando que dá para ser noiser e pesar um pouquinho mais a mão na imprevisibilidade. E nada disso atrapalha sua experiência na condução do veículo.

A produção do EP foi uma roadtrip por si só. Gravações na Georgia e na Florida, mixagem no Brooklyn e masterização em Nova Jérsei, tudo supervisionado pelo produtor David Plakon.

Quando a banda chegar à primavera, o Vol 2. será lançado. Mal posso esperar.

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The Flaming Lips – Oczy Mlody (2017)

Disco deixa espaços demais entre boas canções

Por Lucas Scaliza

Claramente, Oczy Mlody, é um todo coeso e belo. Para quem esperava um álbum mais amigável para o público, como eu, acabou se deparando com um misto de canções – como aquelas que Wayne Coyne compôs em discos dos anos 90 e início dos 2000 – e pirações psicodélicas instrumentais que não são pesadas como em The Terror (2013), o disco mais difícil do The Flaming Lips, mas também não deixam de representar um desafio para o ouvinte menos acostumado a longas músicas ambiente.

Assim, embora a ideia sonora que perpassa o trabalho seja um primor, nem sempre as canções funcionam bem, podendo causar tédio em alguns momentos, principalmente se o ouvinte não estiver no momento mais viajante de seu dia.

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“Oczy Mlody”, a linda introdução, dá o tom para músicas como “How??”, “Sunrise (Eyes Of The Young)”, “The Castle”, “We a Family” (esta com participação de Miley Cyrus) e a primeira parte de “There Should Be Unicorns”, todas com potencial para embalar o ouvinte e, de fato, representam o melhor do Flaming Lips neste novo disco. Mesmo que existam algumas interferências mais psicodélicas, que servem justamente para tirar um pouco da segurança do ouvinte, elas não são nenhum desafio.

O restante das faixas serve muito mais como exploração de texturas e experimentação do grupo, uma lembrança de um lado musical de Coyne e Cia que realmente é capaz de afundar na psicodelia enevoada. “Nigdy Nie (Never No)”, “Galaxy I Sink”, “Do Glowy” e a longa “One Night While Hunting For Faeries And Witches And Wizards To Kill” se desenvolvem ao longo de diversos tipos de sons de teclado e sintetizador e um baixo que ora soa orgânico, ora eletrônico, ora distorcido. Aliás, a mistura dos timbres de baixo e sintetizador é o que move a estética de Oczy Mlody até o fim da audição.

Todas as faixas são tristes, noturnas e cósmicas, como se a viagem de ácido nos tivesse levado para um espaço repleto de estrelas néon. Há conforto nessa vista, mas estamos em gravidade zero, à deriva.

Levando em conta diversos fatores, dá para dizer que o álbum começa bem, termina bem (Miley Cyrus se beneficiou muito da parceria com a banda e vice-versa) e em seu miolo tem várias ótimas ideias, mas as explorações instrumentais tomam tempo demais e tornam a paisagem sonora turbulenta. É claro que isso tem um lado positivo, que é a recusa do Flaming Lips de se tornar mais pop e menos exigente, contudo Oczy Mlody parece dividido entre dois universos e não decide em qual deles quer ficar.

Os singles se salvam todos, mas teremos que esperar mais alguns anos se quisermos ver o palco de Wayne Coyne transformado em uma festa surreal novamente, com papel picado, serpentina e bolas coloridas. Por enquanto, reflete apenas a nossa tristeza interior.

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Goat – Requiem (2016)

Disco folk e psicodélico para a turma de Humanas

Por Lucas Scaliza

Hippies, neohippies, veganos, usuários de drogas recreativas, yogues, pessoas que sentem falta dos anos 70, usuários de drogas viajantes, hippies de shopping, pessoas que meditam, indie rockers, interessados em magia e egressos dos anos 60: essa indicação é para vocês. 😉

O grupo sueco Goat chega ao terceiro disco de estúdio demonstrando que o encanto continua. Qual encanto? O da psicodelia folclórica, pois é disso que se trata a maior parte de Requiem. São tantas vozes e tantos instrumentos, todos gravados de forma crua, visceral e orgânica, que a banda mais parece uma comuna hippie sessentista em poder de uma mesa de gravação de 16 canais. O encanto aumenta ao vivo, já que a banda se apresenta sempre usando máscaras e fantasias e entrega uma performance animada e carregada de mística.

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Requiem, assim como grande parte da produção do Goat, não se trata de esmero técnico ou de proporcionar uma música que seja comercialmente valiosa. Ela fala aos sentidos mais do que a qualquer outro traço racional. Por isso, é complicado fazer uma resenha mais tradicional do álbum. Uma música como “Psychedelic Lover” é apenas um loop de acordes na guitarra, uma percussão que se aproxima do afrobeat, e um instrumento de corda (violão de aço? Guitarra?) no segundo plano executando uma escala indiana. Embora simples, é fácil conseguir uma ligação emocional com os ouvintes, mas você terá que testar e ver se é algo que se adequa a sua personalidade.

Às vezes mais folk (“I Sing in Silence”, “Alarms”, “It’s Not Me”) e às vezes mais rock (“Goatband”, “Goatfuzz”, “All-seeing Eye”), ainda encontra espaço para fazer música étnica que pode falar diretamente com brasileiros versados em ritmos regionais, como é o caso de “Temple Of Rythms”, em que a percussão afro acompanha um sopro que poderia muito bem tirar sua inspiração da música nordestina. Ou “Trouble In the Streets”, que parece utilizar uma viola caipira como um de seus instrumentos centrais. “Try My Robe” é quase uma trilha sonora, assim como a animada e new age “Goodbye”.

Não há um vocal que se destaque. As canções são todas cantadas em coro, o que reforça o lado psicodélico sessentista e setentista do grupo. Além disso, várias músicas do álbum são instrumentais, criando um grande clima de ritual, bacanal ou luau da turma de Humanas – depende da sensibilidade de cada ouvinte.

Ninguém sabe muito bem quem são as pessoas do grupo Goat. Três de seus membros são o centro da banda, todos egressos de Korpolombo, no interior da Suécia, e o restante dos músicos no palco são colaboradores. Esse anonimato ao fato de ser uma música com estilo de gravação e de expressão bem retrô fazem de Requiem um disco sem pretensão nenhuma. Não almeja entrar no top 10 de nenhum ranking e nem de reinventar a música. O mais interessante é que música dessa forma seja feita em 2016 e encontre seu nicho de público. E é feita com muito carinho, já que, por mais trippy ou experimental que algumas faixas sejam, não perdem o jeito convidativo de fazer o público dançar, cantar e querer sentar junto deles ao redor da fogueira, acender um incenso, dar um trago e olhar as constelações. Todos em comunhão, como os hippies lá em 1967.

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Orbs – Past Life Regression (2016)

Superbanda manda ver no rock visceral e progressivo para contar histórias estranhas de vidas passadas

Por Lucas Scaliza

Não chore mais o fim do The Mars Volta. A banda Orbs é uma prima mais jovem, mais ansiosa e igualmente maluquinha em seu rock’n’roll criativo e nervoso. Do começo ao fim, Past Life Regression é uma rajada de músicas interpretadas com urgência pelo vocalista e guitarrista Adam Fisher, lembrando diversas vezes a banda punk Titus Andronicus. Existe certa ênfase na técnica, o que dá uma cara progressiva ao rock do quinteto e uma dinâmica de banda que alterna entre o rock de riffs poderosos do Muse e o psicodelismo do Of Montreal e do MGMT.

Não quero fazer parecer que o Orbs necessita dessas aproximações com essas bandas mais famosas para se definir. No entanto, eu, como um resenhista tentando pôr em palavras o som dessa banda, achei pertinente citar as bandas com elementos e estilos que parecem confluir para formar o som do Orbs. Definir sem referências fica ainda mais difícil no caso deste disco em que as faixas são camaleônicas. “Jaws On Repeat (Life On Hold)”, por exemplo, começa com uma levada psicodélica do teclado e da guitarra (o som do MGMT, a voz do Titus Andronicus) e vai ficando mais intensa, como acontecia no Mars Volta, uma dinâmica de guitarra, baixo e bateria que lembra o Muse ao vivo e um encerramento digno do Of Montreal. Mas e se eu disse que, apesar dessas comparações todas, a Orbs soa autêntica? E que Past Life Regression, em sua explosão roqueira e diversa, tem uma assinatura sonora própria?

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É exatamente isso o que ocorre com esse supergrupo e com este álbum. Mesmo que você curta uma das bandas mencionadas, não é certeza que você vai gostar da mistura sonora, mas vale a pena tentar, porque há qualidade no trabalho e nos músicos envolvidos. Dan Briggs, guitarrista, vem da pesadona e prog Between The Buried And Me; a tecladista Ashley Ellyllon é egressa das bandas de black metal Cradle Of Filth e Abigail Williams; o cantor Adam Fisher era da banda experimental Fear Before The Marcho of Flames.

Completam o time o baixista Chuck Johnson e o baterista Matt Lynch (substituindo Clayton “Goose” Holyoak) que, apesar de não terem feito parte de bandas conhecidas, fazem um trabalho primoroso em Past Life Regression. Afinal, quando há um repertório lotado de canções que mudam de dinâmica constantemente, você PRECISA de uma cozinha que acompanhe com precisão e a força necessária. A nervosa “These People Are Animals” mostra justamente como Lynch moi o kit de bateria e Johnson propõe ótimas linhas de baixo o tempo todo.

Embora soe mais jovial que o The Mars Volta e o At The Drive-In, a Orbs faz parte da mesma estirpe: uma banda que presa pela criatividade e procura meios de perverter as composições, transformando-as em coisas que ouvintes possam exclamar: “Nossa, que louca essa parte!” A recusa de fazer uma música linear e fácil de digerir é o que garante a originalidade da proposta. Nem mesmo os vocais facilitam para o ouvinte, alternando entre o intenso, o raivoso, o infantil, o arrastado e o limpo (como na faixa “Exploded Birds”), interpretando diversos personagens na mesma faixa. Afinal, trata-se de um disco conceitual com “histórias de reencarnação e suas mais estranhas formas”.

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Goste ou não do resultado final, tenha ou não você paciência para chegar à metade do álbum, saiba que não deve desconfiar da qualidade musical dos envolvidos. Nenhum músico mostra preguiça, não há uma levada que não valha a pena prestar atenção e os climas criados por Ashley Ellyllon são certeiros para o som do Orbs ter uma qualidade viajante e etérea que sabe a hora de aparecer e a hora de dar lugar ao rock’n’roll ágil. É uma banda plural que usa a sua pluralidade com muita inteligência – mas não tenta, nem por um minuto, sacrificar essa pluralidade para agradar quem prefere uma música mais linear. Past Life Regression exige do ouvinte a mesma pluralidade.

A descrição da banda para seu som era, há algum um tempo, era uma tentativa de representar o espaço e a natureza. Embora isso ainda possa ser encontrado em faixas como na melancólica “Giving Tree Hanging Me”, parece ser uma declaração mais restrita ao primeiro álbum, Asleep Next To Science (2010). O novo trabalho tem cara de ópera rock, com variações de dinâmica e intensidade coordenados para combinar com o desenvolvimento da narrativa e dos atos do personagem.

Com as bandas At The Drive-In e The Mars Volta fora dos estúdios, o Orbs acaba sendo a banda de rock experimental e progressivo que preenche a falta de um som tresloucado, visceral e bem calculado. E eles entregam o que prometeram e vão além. Não é preciso ter ouvido todas as bandas citadas para entender o que se passa com esse supergrupo, mas só mesmo ouvindo “Death Is Imminent (However, Relative)”, “Dreamland II”, “El Burro” e “Peculiar, Isn’t It?” para ter noção de verdade do que eles propõem e de como são originais.

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Of Montreal – Innocence Reaches (2016)

Kevin Barnes se esforça, mas não soa interessante

Por Lucas Scaliza

Faz só quatro anos, mas parece muito mais distante o tempo em que a banda Of Montreal parecia nos mostrar uma quebra de paradigma a cada novo disco. Depois do leve e calmo Lousy With Sylvianbriar (2013) e do morno Aureate Gloom (2015), o 14º álbum do grupo norte-americano parece confirmar uma fase estacionária da banda, destacando um Kevin Barnes, guitarrista, vocalista e compositor, correndo muito menos riscos e menos surtado do que sempre foi.

Não há nada nos últimos três discos do grupo – incluindo este novo – que passem perto do caos dinâmico e esquizofrênico que abriu Paralytic Stalks (2012) tão bem. A faixa “Gelid Ascent” era espacial e psicodélica, cheia de camadas com vozes, reverberações da guitarra, uma confusão linda de se ouvir. E confusão linda é o que parece sempre ter dado o tom nos discos e nos shows do Of Montreal.

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Innocence Reaches não é ruim, mas chega em um momento avançado demais de uma discografia que já nos apresentou ideias musicais muito mais arrojadas muitos anos antes. Flerta com o eletrodance na simpática “Let’s Relate”, com o eletrônico em “A Sport And a Pastime”, fica mais roqueira e orgânica em “Gratuitous Abysses” e “Les Chants de Maldoror”, e ainda usa escolhas estranhas de harmonia para não deixar de soar estranho também, como em “Chaos Arpeggiating”, mas sempre mantendo o colorido característico da banda e uma felicidade débil (do tipo que pessoas maluquinhas teriam). Falando assim, parece que está tudo no lugar. O problema é que tudo soa um pouco conservador (para os padrões que o próprio Of Montreal estabeleceu para si mesmo, é claro) e não tão interessante assim.

“My Fair Lady” é um dos destaques do álbum, um tipo de composição excêntrica em que a linha de baixo e as batidas regulares fazem o ouvinte parar por um momento para perceber que não se trata de música eletrônica, na verdade. Cai em um refrão mais próximo do dance, com uma ponta de melancolia, e termina com um saxofone solando na periferia da mixagem, deixando o centro para os longos acordes do teclado. “Def Pacts” é outra que merece menção como uma conquista de Innocence Reaches. Mais instigante sozinha do que metade do disco, espacial como o Pink Floyd e alterna a dinâmica de forma brusca.

A voz de Barnes e sua procura por ampliar a sonoridade cada vez mais estão presentes, conferindo mais uma vez aquela assinatura quase sem paralelos que o Of Montreal possui na música indie americana e mundial. O compositor afirmou que havia se desligado um pouco do passado, do som dos Beatles e dos Beach Boys (que sempre nortearam sua percepção de ousadia musical), para ouvir produções mais recentes, de gente como Arca, Chairlift e Jack Ü. Uma faixa como “Trashed Exes” mais sofre com essa influência da música atual do que se beneficia dela, pois ao mesmo tempo em que parece algo arrastado e difícil de ouvir, pois vezes sem conta as músicas da banda assim nos pareceram no passado, soa também como uma faixa aborrecida, que não sabe para onde vai com suas quebras no ritmo e arranjos de sintetizador. “Chap Pilot”, com ritmo constante e efeitos sonoros mil lembra a fase mais recente do Flaming Lips, mas sem o mesmo brilho e sem o mesmo senso de propósito.

Por melhor compositor que Kevin Barnes seja, parece atravessar uma fase em que a criatividade a forma de expressão não estão andando sempre juntas. A própria questão de gênero, que sempre foi notável na forma como Barnes se apresenta ao vivo – com roupas extravagantes, divertidas, malucas ou mesmo vestido de mulher (ou mesmo até pelado!) –, era um dos elementos que complementava o propósito excêntrico de seu indie rock. Isso está presente em “Different For Girls”, música em que discute a questão de gênero e acusa a forma como a sexualidade é pensada de uma forma bem irônica. A letra e o assunto são ótimos, uma pena a música e o resto do álbum não serem interessantes na mesma medida.

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