punk

At The Drive-In – In•ter a•li•a (2017)

Continuação perfeitamente natural de Relationship of Command

Por Gabriel Sacramento

Imagina se o Zack De La Rocha cantasse num estilo mais melódico? Pois é, o At The Drive-In satisfez nossas imaginações há 17 anos, com Relationship of Command, um disco que lembrava o Rage Against The Machine, mas apontava para uma direção diferente: o punk, sendo reconhecido como um dos grandes lançamentos do que ficou conhecido como post-hardcore, estilo associado com a onda emo da década de 2000. Tudo bem, o estilo é bem diferente, mas a voz do Cedric Bixler-Zavala permite essas divagações delirantes com relação à voz do RATM.

O sucesso do álbum foi contagiante, mas mesmo assim a banda acabou entrando em hiato no ano seguinte (2001). O resultado foi a necessidade de sobrevivência, satisfeita pela criação de duas bandas, The Mars Volta e Sparta, com os membros divididos entre ambas. No entanto, a história se repetiu com as duas bandas acabando ou entrando em hiato. Restou novamente a necessidade de sobrevivência, que causou, felizmente, o retorno do At The Drive-In.

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Aí o roteiro você já conhece: aquele papo alegre de “estamos com saudades um do outro e queremos voltar a fazer música juntos”. Essa vontade de trabalhar junto fica ainda mais questionável quando ficamos sabendo que o baterista original, Jim Ward, recusou deliberadamente a participar da reunião. Para substituí-lo, os caras convocaram o ex-guitarrista do Mars Volta, Keely Davis. A produção e mixagem de In•ter a•li•a ficou por conta de Rich Costey, que produziu discos do Muse na década passada e mixou Foo Fighters e Audioslave.

Diante de toda essa novela envolvendo bandas e hiatos, para nós, ouvintes, restou a esperança de que o novo álbum fosse tão bom ou até melhor que o anterior. A boa notícia é que esses 41 minutos deixam claro que a banda manteve a boa forma depois de todos esses anos, permanecendo saudável e mantendo a boa e velha identidade. Aliás, ponto também para Rich Costey, que soube conduzir bem essa galera e captou um espírito total anos 2000, como se nada tivesse sido perdido. Quem sabe até como uma forma de recompensar os fãs desapontados com tantos anos sem nada da banda, eles trouxeram um álbum com um sabor de nostalgia que não sai da boca.

Assim, quando ouvimos o coro e a bateria quebrada de “No Wolf Like The Present” ou a pegada post-hardcore mais moderna de “Incurably Innocent”, percebemos de cara que não estamos diante de algo necessariamente novo. Esta última, inclusive, lembra bastante aquelas bandas de PHC que invadiram os EUA em meados da década de 2000. “Governed By Contagions” deixa claro a semelhança do timbre vocal de Cedric com o Zack do RATM, aliás o som é bem parecido com os caras de Los Angeles, a diferença é que o At The Drive-In é mais sujo e com bases propositalmente menos bem definidas. Destaco também as ótimas “Holtzclaw” e “Torrentially Cutshaw”, com uma cozinha super afiada e um entrosamento cirúrgico de toda a banda.

O som da banda texana tem uma característica interessante: diferente da versão mais metaleira do hardcore, como as praticadas por bandas como Hatebreed e Suicidal Tendencies, o At The Drive-In possui uma ênfase no som do baixo e as guitarras geralmente são utilizadas para criar peso e ruído ao redor da noção de harmonia provida pelo instrumento mais grave. E como é punk, o ouvinte é conduzido durante a audição pelas rápidas transições de acordes marcadas pelo baixo enquanto as guitarras ficam mais livres para dançar, explorando harmonias e melodias complementares. As guitarras são bem divididas e às vezes podem segurar a harmonia base também, mas percebemos que essa é uma função essencial do baixo e o instrumento brilha na mix para dar essa ideia ao ouvinte.

O vocal do Cedric varia bem entre o cantado, o “rapeado estilo Zack De La Rocha” e o gritado. A dinâmica do cantor é importante para fazer o disco variar e criar ramificações interessantes dentro da essência e fórmula típica do grupo. Assim, a banda garante a empolgação, o mosh, as cabeças balançando até o último minuto, com um ou outro instante de descanso, para beber água ou algo assim. A volta dos texanos em In•ter a•li•a está imperdível e mostra que eles não perderam nem um pouco do brilho do som de 17 anos atrás. Continua intenso, punk, sujo e ao mesmo tempo melódico. Se você se sente velho por ter percebido que já se passaram quase duas décadas desde o último, não se preocupe: o At The Drive-In vai te fazer se sentir novo, de novo.

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Benjamin Booker – Witness (2017)

Blues + punk. Você precisa conhecer Benjamin Booker

Por Gabriel Sacramento

Benjamin Booker é um sujeito complexo. Um cara que se diz influenciado por Blind Willie Johnson e The Gun Club respectivamente, um bluesman da década de 1920 e uma banda punk que surgiu no final dos anos 70. Mas não é a disparidade das suas influências que o torna enigmático, mas sim sua disposição para fazer músicas que unem os dois universos, indo do blues encharcado de elementos do soul ao punk rock garageiro. Sua produção artística reflete diretamente a complexidade dos seus gostos.

Foi assim no primeiro disco, que levou o seu nome e foi lançado em 2014. Era incrível ouvi-lo e a cada faixa imaginar o que ele tentaria a seguir: se blues ou punk. No seu segundo trabalho, Witness, Booker mantém essa ideia de misturar os extremos, só que predomina a calmaria que foi menos frequente no anterior. Ou seja, o segundo álbum é quase um complemento do primeiro, o que torna sua pequena obra discográfica ainda mais interessante, um poço profundo de boas referências e preciosidades.

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O timbre vocal de Booker é fantástico e ele o usa estrategicamente. Em muitos momentos, o guitarrista da Virginia soa como um Gary Clark Jr., só que com suas particularidades e sem os solos expressivos.

A faixa-título foi lançada como single e foi uma música escrita para o movimento Black Lives Matter, falando portanto sobre racismo. A sonoridade beira o folk, com o coro marcante e a voz rouca do Booker prendendo a atenção. “The Slow Drag Under” é marcada pela estrutura harmônica típica do blues, com direito à um solo e vocais mais suavizados. “Truth is Heavy” possui uma linha melódica inquieta em contraponto com a melodia vocal cantada por Benjamin, com uma voz especialmente suave e arenosa, com uma técnica de drive que lembra a de James Morrison.

“Believe” é total soul anos 60, lembrando a era espectoriana mesmo, com uma ótima linha de baixo melódica que caminha pelo arranjo. Na letra, Booker diz: “Eu só quero acreditar em algo, não me importo se é certo ou errado”. Outra soulful deliciosa é “Carry”, com destaque para a interpretação do vocalista. Também temos momentos mais nervosos em Witness: “Right on You” abre o álbum com alto-astral e a veia roqueira típica do cantor. Temos também “Off The Ground” que começa com um violão dialogando com um piano, até que lá pra depois do primeiro minuto assusta o ouvinte com a urgência punk garageira. Booker consegue acertar a mão nas faixas mais agitadas tanto quanto nas mais calmas.

Witness é tranquilo, mas acelera nos momentos certos. É um disco que envolve o ouvinte em uma tranquilidade incrível, mas fornece a energia necessária para que o conjunto não seja sonolento. Misturando estilos distintos, de uma forma inventiva e original, é como o cantor nos cativa com suas boas canções, nos fazendo apreciar o tempo que passamos com ele. Um talento facilmente identificável. Uma das propostas sonoras mais curiosas do ano. Você precisa conhecer Benjamin Booker.

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Thurston Moore – Rock N Roll Counciousness (2017)

Moore contrasta jams repletas de fuzz e euforia garageira com letras hippongas

Por Lucas Scaliza

Leva precisamente 7 minutos e 47 segundos para ouvirmos a voz de Thurston Moore em seu novo álbum solo. Mas antes das palavras saírem de sua boca, o som de sua guitarra – que vamos considerar sua segunda língua – é a primeira coisa que ouvimos ao dar o play em Rock N Roll Consciousness. “Exalted” tem o Thurston Moore dos dedilhados, dos riffs que se criam a partir das levadas da base e o guitarrista solo que adora um fuzz. Tem também o Thurston metaleiro, uma faceta que custou a aparecer em sua carreira solo. Mas cá está ele, arrebentando o instrumento com peso e os ruídos que sobram do fuzz, deixando a bateria de Steve Shelley (também ex-Sonic Youth) contribuir também, claro, mas bem abafada, diferente do que geralmente uma banda faria num momento como esse. É Thurston em primeiro e em segundo plano.

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Acredito que grande parte dos interessados em Thurston Moore, e neste álbum, são fãs do Sonic Youth ou pessoas que já conhecem o guitarrista de outros tempos e outros projetos. Portanto, acredito que, em sua maioria, sejam leitores e ouvintes acostumados com a excentricidade, com a rispidez com que frequentemente trata as seis cordas em uma canção ou pessoas versadas em rock alternativo. Mais do que qualquer outro álbum solo, Rock N Roll Consciousness é o que mais exige do ouvinte.

Diferente de seu ex-parceiro, Lee Ranaldo (que sabe ser diferentão na forma e aprazível no que produz), Moore é abrasivo como nunca no som, se aproveitando da presença de James Sedwards na segunda guitarra para propor jams roqueiras e até mesmo eufóricas. Já as letras – uma contribuição do poeta inglês Radio Radieux – são as mais ternas dentre seus cinco discos de estúdios e evocam um período de sonhos da Califórnia hipponga.

As repetições, como em “Cusp”, causam uma sensação inquietante. Mesmo “Turn On”, que começa muito mais melódica, e “Aphrodite” acabam caindo nos mesmos maneirismos guitarrísticos apresentado em faixas anteriores – mão direita insana, flertes metaleiros, passagens harmônicas com complemento do baixo de Debbie Googe (My Bloody Valentine) e solo com cara de espontâneo. E se o ex-Sonic Youth parece-se muito com ele mesmo, “Smoke of Dreams” soa como uma faixa de Demolished Thoughts retrabalhada para a estética mais rock’n’roll de garagem do novo disco.

A produção é sempre bem crua, deixando claro que se trata de uma banda bem compacta e bem resolvida no comando de tudo. Sob o comando de Paul Epworth (que já trabalhou com Adele e Paul McCartney), nada de teclados, orquestrações ou truques de produção para preencher os vazios.

Embora possa ser um pouco desconcertante, é o tipo certo de desconcertamento. Moore chega à “consciência rock’n’roll” que almeja e é capaz de colocar o ouvinte mais entregue em êxtase também. Mas é menos prazer ou satisfação e mais um estado de nervosismo. Isso é o que o rock também causa na gente.

Frank Carter and The Rattlesnakes – Modern Ruin (2017)

A biografia sonora de Frank Carter

Por Gabriel Sacramento

O ex-vocalista do Gallows, Frank Carter, surgiu com mais um novo projeto, tentando se afastar um pouco mais do som de sua banda. Como membro do Gallows, Carter era uma especie de “porta-voz da insatisfação”, com críticas pesadas e contundentes, embasadas por um som nervoso e punk. Em 2011, ele surgiu com um grupo diferente, chamado Pure Love e se dizia “cansado de cantar o ódio”.

A mudança de visão e amadurecimento do artista permitiu a ele dar passos ainda maiores: o novo grupo leva o seu nome – Frank Carter & The Rattlesnakes -, como um projeto solo mesmo, e é bem mais leve que o Gallows e um tanto mais urgente que o Pure Love. Carter uniu com inteligência a experiência com os dois grupos, chegando a um meio termo sadio e consistente. O novo álbum chama-se Modern Ruin.

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O disco é todo coeso e funciona bem ao tentar nos apresentar esse híbrido das bandas de que Carter já fez parte. Mesmo que você não conheça nenhuma, sua experiência ouvindo Modern Ruin não será comprometida, visto que todas as faixas foram bem arrumadas para convencer os ouvintes de primeira viagem.

Tirando a faixa-título – com uma harmonia dissonante, tensa, obscura, que fornece a base para os vocais angustiados e raivosos, que alternam entre guturais e melodias -, as faixas de Modern Ruin são mais melódicas e acessíveis do que inclusive o primeiro álbum do grupo, Blossom (2015), e mesclam fúria e ternura com muita competência. As guitarras são sempre diretas, poucos riffs por faixa e riffs bem simples, que soam muito bem. (Fica claro também o ótimo trabalho na timbragem das seis cordas, ponto para a produção do Thomas Mitchener). Os vocais de Carter passeiam pelas bases pesadas com facilidade, obtendo espaço para escolhas melódicas grudentas e marcantes, mas que não sacrificam a atitude roqueira do som.

É um álbum tão alternativo e tão jeitoso com melodias envoltas em um peso semipunk, que me lembra o mais recente disco do Emarosa, que foi um destaque desse tipo de som no ano passado. O trabalho do Emarosa foi marcado pelo tom angustiado e quase depressivo, que se servia das melodias e da ótima interpretação de seu vocalista. Modern Ruin não é depressivo, mas também não é alto-astral. E assim como o Emarosa, os Rattlesnakes estão bem servidos com um ótimo vocalista que sabe se expressar, dar vida às letras e possui uma flexibilidade vocal admirável, perfeita para adaptar sua voz a situações e climas distintos.

A produção do álbum é do já citado Thomas Mitchener, que foi produtor, engenheiro, mixer e ainda tocou baixo no disco anterior do grupo. Thomas soube captar o desejo da banda e explorar o melhor de cada um para tornar a proposta algo convincente e crível. Ele também cooperou bem para que a banda soasse bem equilibrada, sem forçar nada demais, mantendo-os no limite do confortável enquanto navega pelas nuances, sem deixar isso prejudicar a fiabilidade do trabalho. Sem uma atitude revolucionária, nem um apelo exagerado à acessibilidade, Modern Ruin encontra-se em uma posição que deve agradar tanto os ouvintes mais comuns de rock alternativo, quanto os mais extremos.

O novo disco funciona bem como uma biografia sonora de Frank Carter. Podemos ouvir a energia punk dos seus primeiros lançamentos, bem como o domínio das melodias que ele vem desenvolvendo nos últimos anos. Mas o cantor se preocupou em unir apenas o melhor das fases da carreira em um álbum evolvente e cheio de identidade. Definitivamente, um dos melhores álbuns do semestre, sendo uma boa prova de como a galera do punk pode vir a apreciar e a explorar o poder de boas melodias.

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W4 – Estado de Guerra (2017)

Banda paulista se expressa muito bem com sinceridade e agressividade

Por Gabriel Sacramento

Não, o rock não morreu. Seja no Brasil ou fora dele, o estilo ainda pulsa e inspira pessoas a usar a atitude agressiva para dar vazão a críticas e manifestações por meio da música. Por exemplo, em 2008, um grupo de amigos formou o W4 com o desejo de reverberar suas opiniões e gritá-las usando um tipo de som pesado e agressivo. O grupo lançou um EP em 2012, chamado Os Segredos do Coração, e finalmente chegaram ao segundo EP, intitulado Estado de Guerra.

O título é forte. A descrição também. Os três músicos buscaram refletir sobre as batalhas do cotidiano, as guerras internas e os obstáculos que cada um tem de enfrentar.

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Ao dar o play, percebemos uma grande diferença com relação ao EP anterior do grupo. Uma produção mais esmerada permitiu que cada um explorasse mais de si para entregar algo mais ousado. “Taciturno” abre o álbum. Um tema quase cinematográfico que nos prepara para a porradaria que vem a seguir. Sem deixar cair a empolgação, um riff arrastado, que lembra algo do Dark Tranquillity, dá início à “Ordos”. A idéia da faixa é evocar a imagem de uma cidade em ruínas e a letra dá suporte à isso, transmitindo a desesperança e confusão desse tipo de cenário. O forte da faixa é o refrão, com um vocal forte e rasgado ,que desemboca no ótimo riff principal, fazendo uma conexão muito boa entre as diferentes seções da música. “Tempo de Acreditar” traz uma mensagem motivacional do tipo “acredite em si mesmo”. O refrão remete aos refrãos do Disturbed. “Engravatados” possui um ótimo riff inicial e traz uma crítica pungente às guerras e aos governantes que não se importam com seus governados. As orquestrações executando o riff em harmonia com a guitarra distorcida lembram um pouco o Symphony X. O ponto forte da faixa é a parte falada/gritada em que o vocalista externa com competência toda a fúria e agressividade que a intenção da letra pede.

“Acabou” já tinha aparecido no EP anterior, mas foi regravada com uma nova roupagem. Fala sobre desilusões amorosas e a necessidade de deixar para lá o que passou. A faixa tem um acento punk fantástico que acabou sendo mais bem enfatizado na primeira gravação. Não é um ponto fraco, mas poderia ser melhor se fosse um pouco mais enxuta e mais calcada na guitarra, reforçando a crueza punk. “Vida” é o mais próximo de balada que temos aqui, com um início mais calmo e um final arrastado, pesado e doloroso.

Com ótimas referências, um som difícil de rotular e uma mensagem forte e expressiva, o trio paulista consegue dar um passo à frente na carreira. Estado de Guerra impressiona pela atitude agressiva, junto com as ótimas conexões entre música e letra. O conceito está fica muito claro, seja pelas referências no conteúdo lírico ou pelas escolhas musicais. Mesmo com alguns detalhes técnicos que necessitariam de mais cuidado, o grupo conseguiu se sair bem diante das limitações.

Em um contexto musical em que é mais fácil – e comercialmente conveniente – cantar letras fofas e agradáveis (vemos até bandas de rock fazendo isso), o W4 se destaca pela sinceridade. A mensagem do trio é parte deles, das suas intenções, das dificuldades do cotidiano e de suas próprias guerras internas. Encontra o ouvinte chocando-o e intrigando-o. Ainda há o que melhorar para o futuro, mas as bases estão lançadas.

Dinosaur Jr. – Give a Glimpse Of What Yer Not (2016)

Não soa rebelde como há 20 anos, mas soa forte e visceral

Por Lucas Scaliza

Com 30 anos de carreira, o Dinosaur Jr. pode se gabar de fazer o rock alternativo que influenciaria uma gama gigantesca de bandas vindouras. Pixies, todo o movimento grunge – que também acabou influenciado o grupo – e tudo o que se fez de noise rock nos EUA e na Inglaterra.

O tempo não diminuiu a qualidade composicional do trio ainda formado pelos integrantes originais. J Mascis (guitarra, teclado e voz), Lou Barlow (baixo e vocal) e Murph (bateria) ainda entregam rock do bom e descomplicado. Se nos primeiros registros a banda soa mais crua e saturada por falta de qualidade técnica em estúdio, todos os seus últimos discos soam saturados porque eles querem manter o som característico, com a guitarra de Mascis ainda exalando distorção e um timbre bem sujo. A música do Dinosaur Jr. ainda empolga, mas está mais amaciada e menos anárquica do que aparecia em, por exemplo, Whatever’s Cool With Me (1991).

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Com bons shows até hoje, refrãos que empolgam e ótimos solos de Mascis que passam longe do show off e demonstram a essência do noise rock, o Dinosaur Jr. é uma banda que lança discos sem muita enrolação e sem procurar mudar de estilo ou enriquecê-lo com novas influências, mantendo uma regularidade estética. Poucas bandas conseguem ser tão regulares e pouco inovadoras e ainda assim continuar sempre tão boas. Motörhead e The Cribs são duas que vêm à mente agora.

Ainda que Give a Glimpse Of What Yer Not tenha músicas mais raivosinhas como “Going Down”, “Tiny”, “Good To Know” e uma faixa ótima e de som familiar cheio de groove (“I Walk For Miles”), o grupo também sabe preservar a vibe pop de seus versos e refrãos, como o REM. Esse lado mais soft do grupo fica evidente em faixas como “Be a Part”, “Love Is…” e “Lost All Day”. A porção noiser do grupo dá pouco as caras ao longo do álbum, sendo mais evidente em alguns momentos durante “Left/Right” e no final de “Mirror” e “Knocked Around”. É um disco de rock cru e cozido, afinal, reverberando 30 anos de punk, grunge e sons alternativos.

Barlow e Murph mantêm as faixas encorpadas e pulsantes, mas não muitos grandes momentos dignos de nota. Nenhuma linha de baixo mais criativa e nenhuma virada de bateria mais animal. Ainda possuem garra, no entanto. Sobra para Mascis mais uma vez os holofotes. Suas distorções e especialmente seu característico fuzz ainda são incríveis. Não soa rebelde como há 20 anos, mas soa bem, forte e visceral. Seu jeito de cantar também acabou sendo suavizado e dá um ótimo contraste à agressividade dos overdrives. E seus solos continuam sendo únicos, com aquele feeling de espontaneidade, de improviso, encaixando as notas no calor do momento, sem deixa-los cerebrais demais e ainda bastante expressivos.

Give a Glimpse Of What Yer Not é o quarto disco do Dinosaur Jr. após a volta do grupo. Embora Hand It Over (2007), Farm (2009) e I Bet On Sky (2012) sejam ótimos também, o novo trabalho é o mais bem acabado dentre eles. Se não há nada de excepcional, também não há muito do que reclamar. It’s just rock’n’roll and we like it, afinal.

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Ramones – Ramones (1976) faz 40 anos

29 minutos de música agressiva, corrosiva e punk

Por Gabriel Sacramento

O que é?

Com o advento do punk, a música passou a ser mais simples, mais despreocupada. Sem tanta ênfase na técnica, mas no poder revolucionário que alguns acordes poderiam transmitir. O punk deu voz a críticas, manifestações e rebeliões. Sem se concentrarem no “saber tocar”, mas no “saber passar uma mensagem”, o estilo mudou o mundo. E começou com este álbum. Ramones, lançado em 23 de abril de 1976, é o primeiro álbum da banda de mesmo nome.

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Histórias e curiosidades

O grupo que reunia quatro garotos pobres do Queens em Nova York surgiu em 1974. Depois de algumas apresentações, eles conseguiram chamar a atenção da gravadora Sire Records, que decidiu pagar para gravar o primeiro disco já em 76. Na primeira gravação, foram usadas técnicas impressivas, como as usadas pelos Beatles: overdubbing (para adicionar sons extras à uma gravação), divisão dos instrumentos em canais separados e duplicação de vocais. Outra curiosidade interessante: o disco foi gravado em apenas sete dias e com pouco dinheiro. Cerca de 6.400 dólares apenas (só para se ter uma ideia, um disco de uma grande banda hoje custa milhões, mas é sempre bom lembrar que Bleach, a estreia do Nirvana, custou somente 600 dólares).

Mesmo com algumas técnicas sofisticadas, o disco é cru e sem acabamento. Esse era o objetivo dos caras que se uniram ao produtor Craig Leon, para gravar agressividade e atitude em apenas 29 minutos de som. O disco possui 14 faixas, sete no lado A, sete no lado B. Traz letras simples que tratam de diversos temas e uma instrumentação simples, curta e direta, focado na velocidade e crueza dos arranjos. A música mais longa tem 2 minutos e 33 segundos. Somente baixo, guitarra e bateria acompanhando os vocais. As melodias são cativantes, mas não tão bem elaboradas. Johnny Ramone não era um excelente cantor, mas criou uma forma de colocar sua voz que se tornou referência e influenciou muita gente. Coros também eram comuns.

As letras incluem temas polêmicos como nazismo, uso de drogas, prostituição e violência. Eles costumavam tentar escrever sobre jovens e as experiências da juventude sob uma ótica diferente. As letras são simples, toscas e fáceis de cantar. “Blitzkrieg Bop” tem uma letra relacionada ao nazismo, embora não seja claro o seu significado. Blitzkrieg é uma tática usada pelo exército alemão na Segunda Guerra. “Beat on the Brat” é sobre uma mãe que corre atrás de um garoto desobediente com um bastão. “Now I Wanna Sniff Some Glue” é sobre um adolescente querendo cheirar cola. “53rd & 3rd” é sobre prostituição, refere-se a um lugar em Nova York no qual homens costumavam se prostituir.

A capa é única: quatro jovens com calças rasgadas, camisas apertadas e jaquetas de couro. O visual, um dos conceitos fortes do punk, está bem representado no disco.

Ramones recebeu críticas que prejudicaram suas vendas no início. Mas depois, com o aumento do sucesso do grupo, o disco passou a ser mais procurado e reconhecido.

Passa no teste do tempo?

O primeiro disco do Ramones representou um grande passo para a popularização do punk, que influenciou o restante do rock – e o pop – em muitos aspectos. Estilos como o heavy metal, grunge e o post punk estão associados com a música que os nova-iorquinos faziam. Ao trazer músicas de 1 e 2 minutos de duração, eles ensinaram que era possível fazer música sem ser prolixo, com simplicidade e direto ao ponto. Isso abriu as portas para muita gente que se sentiu capaz de fazer música sem precisar ser muito técnico ou virtuoso. A ideia é escolher alguns acordes, cantar do jeito que dá, mesmo que tosco. Com as letras diferentes, que tratavam de temas marginalizados, eles se contrapuseram à ideia de letras superelaboradas, cheias de referências literárias e/ou canções de cunho romântico – embora tenhamos “I Wanna Be Your Boyfriend”, que é uma música essencialmente romântica, mas no geral eles não eram românticos e fugiam do excesso de sacarose que imperava na música pop da época.

Com canções cativantes, embora cruas, que soaram inovadoras para os padrões da época, esse disco do Ramones é considerado por muitos como um marco para o punk rock. Outras bandas como Sex Pistols e The Clash já declararam abertamente a importância e influência que Ramones teve em suas formações musicais. Embora muitos argumentem que a agressividade e a atitude punk dos garotos era comedida (principalmente se comparada a dos ingleses supracitados), não dá para negar que o que eles fizeram foi de extrema importância para o desenvolvimento do estilo.

Diversas bandas pelo mundo já fizeram tributos ao Ramones: Rob Zombie, Red Hot Chili Peppers, Metallica e Sonic Youth, por exemplo. Isso mostra a larga influência que os garotos exerceram em muita gente dentro do universo roqueiro. No Brasil, a influência do punk foi altamente notável com bandas muito importantes que se tornaram vozes da sociedade para vociferar contra os problemas do país. Bandas como Garotos Podres, Ultraje a Rigor e Aborto Elétrico.

Infelizmente, nenhum dos Ramones que gravaram este disco está vivo hoje. Mas o legado deles é incomparável. Toda uma cultura ocidental foi moldada pela música dos caras. O tempo provou que o grupo foi sim, um dos mais importantes da história da música, pois sua música permanece surpreendentemente corrosiva e agressiva depois de tantos anos.

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