resenha

Saturndust – RLC (2017)

Doom metal brasileiro te leva para um planeta inóspito e oxigena a cena nacional

Por Lucas Scaliza

RLC é heavy metal como quase não se faz mais. É psicodelia cinematográfica. A textura é comparável a de um videogame espacial cheio de exploração e tensão. É um álbum longo que deixa as guitarras reverberam com distorções pesadas e delay, sem ansiosidade para emendar um riff atrás do outro. A voz narra e grita, os riffs são pespegantes e há sintetizador de sobra para nos transportar para outra dimensão, tão misteriosa quanto ameaçadora. “Astral Dominion”, por exemplo, vai fazer você lembrar daquele Black Sabbath lá do início, quando peso podia ser lento, dando tempo para você saborear cada nota antes de ser jogado em uma espiral de porradaria.

Saturndust é uma banda brasileira de doom metal composta por Felipe Dalam (guitarra, sintetizador e vocal), Guilherme Cabral (baixo) e Douglas Oliveira (bateria). A gravação de RLC ocorreu no estúdio Costella, em São Paulo, com o produtor Gabriel Zander. Nas palavras de Dalam, o resultado é uma música que transmite “sinais de vida não terrestre codificados em um drone/doom experimental do desconhecido.” Por tanto, tome cuidado com o que pretende ingerir antes de embarcar nessa nave.

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E não haverá faixa mais alienígena que “Rlc” em 2017. Nem mesmo o novo filme de ficção científica e horror da série Alien tem uma trilha tão bem ajustada ao tema. O que esse trio faz é misturar o moderno e o antigo de uma forma que realmente incomoda, mas daquele jeito bom, que te deixa curioso.

Chegar ao fim de Rlc também exige paciência, por isso a melhor forma de apreciar o disco é tratá-lo como uma música ambiente que você deixa rolando e se entrega à atmosfera que ele propõe. A viagem é recompensadora, garanto, pois “Saturn 12.C” é belíssima, como é, afinal, toda a devastação causada pelo trio ao longo de seis faixas – das quais cinco vão da marca dos oito aos 12 minutos de duração.

RLC é um disco raro. Acredito que, além da ideia geral que norteou o trabalho, foi preciso muita coragem dos três músicos e habilidade do produtor para se manterem no caminho até o fim, se nunca, em faixa nenhuma, pensarem em fazer algo mais acessível (em termos metaleiros, é claro). O que o Saturndust faz é prova da liberdade criativa da banda, coisa que grupos melhor consolidados e visados do país não arriscariam fazer. Como diria um jovem metaleiro americano: “RLC isn’t your average metal album”.

Provando evolução pessoal e oxigenando o cenário nacional a uma só tacada, a banda também foi recompensada com a escalação para tocar no festiva Psycho Las Vegas este ano, ao lado de bandas como King Diamond, Carcass, Mastodon e Neurosis. É o único grupo brasileiro da longa lista de participantes.

Assim, RLC deve ser presença obrigatória em qualquer lista de melhores do ano focada em rock e metal. Passará vergonha quem não separar um espaço para enaltecer o Saturndust em 2017.

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Matty Mullins – Unstoppable (2017)

O Matty Mullins se dá muito bem com o pop, afinal

Por Gabriel Sacramento

Antes de ouvir Mr. Marvin Gaye e ter minha vida mudada, tudo o que eu ouvia era basicamente música pesada. E além de ouvir, tinha o costume de acessar fóruns e grupos de discussão sobre as bandas e os álbuns. Um dos comportamentos mais frequentes dos fãs nestes fóruns era a não aceitação de quaisquer tipos de mudança nas fórmulas sonoras. Se a banda, que era pesadona, começasse a inserir melodias, era taxada como vendida. Se começasse a flertar com outros estilos, vendida também. Para eles, nada além da fórmula estática e preestabelecida é válido. Bem, pra esse tipo de fã, o Matty Mullins, vocalista do Memphis May Fire, pode ser considerado um herege.

Isso porque além de ter feito seu nome como vocal de uma banda super pesada, egressa do cenário americano do metalcore cristão, Mullins tem também uma carreira solo explorando outra sonoridade, mais calcada no pop, sendo um refúgio criativo para suas ideias que não entram no MMF. Não é a primeira vez que fazem isso e, no entanto, cada vez que ouvimos falar disso, ficamos curiosos para ver no que vai dar. E, claro, as eventuais comparações com as bandas principais são inevitáveis.

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Ok, o MMF não é mais tão pesado assim. No último disco, por exemplo – This Light I Hold (2016) -, já haviam músicas mais maleáveis, músicas cantadas inteirinhas com vocal limpo (o que é quase uma heresia para os fãs hardcore), nas quais Mullins pôs um pouco mais de si e mostrou um pouco do seu belo timbre de voz. Mesmo assim, a experiência de colocar o trabalho solo dele na sequência da audição da banda pode ser assustadora e frustrante para muitos, principalmente para os órfãos da dinâmica de discos como Challenger (2012).

Portanto, Mullins está mais para um Casting Crowns do que para um For Today em sua empreitada solo. Aqui há um esforço em terminar o álbum com a mesma empolgação do início, melhor do que no trabalho anterior. Temos por exemplo “Say it All” abrindo o trabalho com um refrão convidativo que te faz cantar alto junto com a música. Mullins me lembrou um pouco de Jeremy Camp, outro grande nome do pop rock gospel americano. Lá pelo final do tracklist temos “You Can”, canção construída sobre um clima mais melancólico no início, mas logo cai na popzera tradicional. Ainda assim, o refrão tem potencial de invadir rádios com muita empolgação. No meio, temos melodias grudentas em canções como “Go To Distance” e “The Great Unknown”, que mostram acima de tudo que o vocalista está bem confortável com a proposta que tenta explorar.

Como um bom ouvinte do Memphis May Fire antigo, e de bandas brutas como For Today, War of Ages e August Burns Red, eu mesmo fiquei relutante antes de encarar o novo disco de Matty Mullins. No entanto, preciso admitir que o cara se encontra em boa forma fazendo esse pop elegantemente simples, grudento e radiofônico, um som que é pop sem medo e não tem vergonha de abordar os clichês do gênero e se apresentar um tanto formulaico. A fórmula foi bem aplicadinha, cada aresta foi aparada como receitado, mas o resultado foi ainda assim surpreendente, tamanha é a desenvoltura que o cantor possui.

A partir dos discos da sua banda, já sabíamos do seu potencial com melodias mais, digamos, fofas. Unstoppable é Mullins mergulhando de cabeça nessas ideias, buscando redirecionar sua mensagem de fé para uma galera diferente mesmo, uma galera menos exigente até. O disco acerta nesse sentido, tem boas melodias, bons ganchos e pode entrar na sua cabeça e vir à tona quando você estiver prestes a assoviar alguma coisa.

No entanto, precisamos pontuar os fatores negativos. Um deles é o tratamento dos instrumentos específicos aqui, tanto na mix quanto nos arranjos em si. A impressão que se tem é que aparecem somente para marcar mudanças de acordes e guiar o cantor e mesmo que alguns detalhes de instrumentos surjam, não são bem valorizados ou não chegam ao primeiro plano. Aí fica a sensação de que você ouviu uma linha melódica ou um fill interessante de algum instrumento, mas bem baixinho e quase imperceptível. Em muitos momentos também, é difícil distinguir os instrumentos de base e temos a impressão de que eles não estão cooperando definitivamente como deveriam.

Unstoppable, o seu segundo trabalho solo, funciona melhor como um álbum pop do que o primeiro. O álbum é um dos melhores de pop gospel que entraram nos meus ouvidos ultimamente, bem melhor que muita coisa de gente já bem estabelecida por aí. O amadurecimento de Mullins joga a seu favor e pode levá-lo para um ainda melhor terceiro álbum, caso continue investindo nas boas ideias. Agora, caso queira ouvi-lo gritando a plenos pulmões como antes, procure os álbuns antigos do MMF e contente-se: essa é a nova diversão do cantor.

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Blondie – Pollinator (2017)

O Blondie não é só a banda mais charmosa do planeta

Por Eder Albergoni

Vamos direto ao ponto: Pollinator nasce absolutamente clássico! O 11º disco de estúdio do Blondie é uma pérola do rock, sensual e divertida. Já não bastasse o charme de Debbie Harry, a banda se cerca de vários nomes de peso, seja na composição, produção ou participações nas faixas.

Tudo começa com Joan Jett nos vocais de “Doom or Destiny”. A música tem todo o poder e a energia que só poderíamos associar à runaway preferida. E o pé na porta se enfatiza nos solos de guitarra de Chris Stein e Nick Valensi. “Long Time” remete diretamente à “Heart Glass” e ao glam rock como um todo. Debbie conta com a ajuda de Dev Hynes, conhecido como Blood Orange e que já contribuiu com Solange, Sky Ferreira, Florence + The Machine, na composição. A maravilhosa trinca de abertura se completa com “Already Naked”. A música tem contornos espaciais e uma montagem atraente pra dançar.

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“Fun” tem composição de Dave Sitek do TV on the Radio e é perfeita para a pista. Leva um swinguinho gostoso e um certo erotismo que atinge especialmente o quadril. Já “My Monster” foi escrita por Johnny Marr, que não necessita de apresentações, e traz um ótimo arranjo de teclados e sintetizadores. É outra que cai muito bem no tapete da sala. Johnny também aparece com sua guitarra em vários momentos do disco, dando peso, base ou linhas harmônicas nas quais ele é fera.

“Best Day Ever” é a contribuição da Sia e, outra vez, do strokeano Nick Valensi. Talvez seja a faixa mais normalzinha do álbum. “Gravity”, composta por Charli XCX, também não traz nada de especial, mas firma o disco como um trabalho dançante, vivo e capaz de provocar sensações quase íntimas, se tratando de música e da voz de Debbie.

Como prova “When I Gave Up on You”, uma baladinha bem mais contida, explorar a sutileza rasgante da voz de Debbie é sucesso certo. É uma passagem perfeita pra “Love Level”, com participação do ator e comediante John Roberts e da street band What Cheer Brigade numa ótima construção no arranjo dos metais. Outra prova de como Pollinator é um disco vibrante e divertido.

“Too Much” é uma clássica canção do Blondie e funciona muito bem em todos os aspectos. É um resumo de todo o disco e parece confirmar a imponência e a relevância da banda, que não satisfeita encerra o baile com uma das melhores músicas da discografia inteira. “Fragments” tem ares colossais. É um rock de 7 minutos e uma perfeita obra sonora que, apesar de não refletir o rumo tomado no disco, guia como um farol o horizonte do grupo.

A culpa disso tudo é de um cara chamado John Congleton. O produtor acertou em cheio ao usar a experiência da banda a favor de um trabalho inteligente ao extremo. Além do mais, conseguiu capitanear uma extensa lista de nomes com coerência e eficiência. E a gente pode, sem exagero, classificar Pollinator como o melhor álbum do Blondie.

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Snoop Dogg – Neva Left (2017)

O grande Snoop ressalta que nunca deixou de fazer hip hop

Por Gabriel Sacramento

Em seu terceiro disco em três anos, Snoop Dogg trouxe uma proposta diferente, de novo. Mas calma, não é como o John Mayer, que não sabe o que quer. Dogg sabe bem o que faz e o que põe em sua música, tudo se conecta com precisão. Se no Bush ele experimentou com funk e disco e no Coolaid reafirmou o quão lendária é e sua importância para a indústria, indo fundo no hip hop mais tradicional, em Neva Left Dogg mistura os delírios dos anos 90 com outros momentos da sua carreira. Como ele mesmo afirmou em uma entrevista, o objetivo do novo disco é unir tudo que ele já fez.

Podemos dizer que Bush mostrou que Dogg não permaneceu totalmente indiferente à veia mais diferenciada do hip hop que está bombando por aí (essa que mixa o estilo com funk, disco, jazz e tudo mais). Mas o do ano passado e esse, mostram que o rapper sabe bem de onde veio e curte valorizar isso também. Especialmente em Neva Left, no qual o lance é resgatar mesmo a vibe dos subúrbios americanos dos anos 90. Tudo isso mostra que o hip hop atual pode sim ser multivalorado e se adequar à diversas situações, sempre funcionando como uma boa válvula de escape diante da, eventualmente opressora, vida cotidiana.

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Como não lembrar do icônico Notorious Big ouvindo “Mount Kushmore”? A faixa traz três rappers, o que lembra também os velhos tempos em que os MCs faziam aquelas batalhas nos shows. A faixa-título possui aquela linha melódica quase hipnótica que fica se repetindo ao fundo, lembrando tempos antigos também. O sintetizador de “Moment I Feared” – uma das melhores do álbum – remete ao também forte sintetizador de “Who Am I (What’s My Name)?” do primeiro álbum. Mas não é só essa. Em várias faixas predomina a ideia de misturar uma linha de baixo forte ao fundo e o rap na frente, como nos primórdios, quando os raps nasciam de samples com linhas de baixo expressivas.

Mas como eu disse antes, não é só de nostalgia que vive Snoop Dogg. Então temos também trap (“Trash Bags”), canções que possuem uma abordagem mais orgânica e modernosa (“420 (Blaze Up” e “Love Around The World”), outras com toques de R&B e funk (“Go On”). Temos ainda um remix da faixa “Lavender” do BadBadNotGood, com a voz do Snoop sobreposta. Colocar a música foi uma decisão bem acertada, principalmente porque Dogg queria justamente captar o espírito do hip hop moderno e o BadBadNotGood representa bem isso.

Fugindo da nostalgia mais ingênua, que visa escapar da realidade atual e refugiar-se no passado, Dogg trouxe um produto inteligente articulado e elaborado, que visa e alcança o objetivo de nos fazer pensar toda a sua carreira e as nuances que explorou ao longo dela em 1 hora de audição. Ou seja, ele usa a nostalgia como um meio e não como um fim. Algumas coisas podem soar realmente datadas, mas no conjunto temos a impressão de ouvir algo que transcende a noção temporal.

Percebemos também que as letras de Dogg representam um manifesto. O rapper quis responder aos que o criticam, deixando claro que nunca deixou o rap e que ainda está no jogo. A faixa título, por exemplo, começa com uma frase dizendo “E aí, Snoop, as ruas estão dizendo que você não é mais o mesmo”. Já “Still Here” começa com um diálogo entre um garotinho e Kendrick Lamar, no qual o garoto pergunta se ele conferiu o novo disco do Dogg e diz “Snoop está de volta”. Kendrick, por sua vez, responde: “Aí é que você está errado, pois o grande Snoop nunca saiu”.

Nos aspectos modernosos, Snoop não teve nenhuma pretensão de soar como um Kendrick Lamar ou como um Oddisee. Mas o rapper consegue, como poucos, pegar um pouco do que está rolando e incorporar em seu trabalho old school, reforçando os aspectos do hip hop de antigamente, nos fazendo perceber como o gênero evoluiu. Além de divertido, Neva Left pode ser uma boa aula, afinal.

Segundo uma entrevista recente, Dogg afirma que teve total liberdade criativa e trabalhou sem pressão para lançar Neva Left. Foi um trabalho direto do seu coração. Um grande presente para os seus fãs e admiradores que o acompanham, para provar que acima de tudo, ele continua prolífico e mantendo a qualidade em seus lançamentos. Pegue a sua jaqueta, ponha uma corrente e um boné e se divirta.

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Linkin Park – One More Light (2017)

Disco suave e pop, com produção pouco criativa e um cantor que deixa clara suas limitações

Por Lucas Scaliza

O segredo para curtir One More Light é ouvi-lo como um disco de pop eletrônico comum, como se fosse o primeiro de uma nova banda. Caso você se lembre que quem assina o disco é o Linkin Park, e que já é o sétimo álbum da carreira deles e o mais diferente de todos, a chance de embrulhar o estômago é grande.

Não é que as músicas sejam ruins. Quer dizer, “Heavy”, “Invisible” e “Halfway Right” estão entre as piores canções que a banda já fez, mas “Nobody Can Save Me”, “One More Light” e “Good Goodbye” (que tem participação de Pusha T e Stormzy, mas parece música pop do Jay-Z) têm alguma dignidade. Outras caem na grande vala do lugar comum.

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O principal crime de One More Light não é ter trocado o rock ou eletro-rock pelo pop radiofônico, mas constituir-se de sonzinhos e texturas da moda que outros artistas já utilizaram muito tempo antes. “Sorry For Now” parece uma faixa não utilizada por Justin Bieber e “Talking To Myself” coloca uma guitarra para disfarçar que a faixa tem todo o jeitão de eletrônico topzera do David Guetta. “Sharp Edges”, com violões, é a coisa mais fofuxa do disco. Só faltou o ukelele. “Battle Symphony” não tem pressão suficiente e acaba soando açucarada demais no refrão.

Chester Bennington nunca foi um incrível vocalista, mas fazia um trabalho bastante competente ao interpretar as músicas da banda com agressividade, suavidade e emoção, de acordo com o que cada parte das faixas pedia. Neste sétimo álbum, tudo precisa soar mais frágil e mais limpo, e sua voz simplesmente perde o brilho em 80% do trabalho. Caso ouça sem lembrar que se trata do Linkin Park, vai perceber como o vocalista é limitado, mas OK para um primeiro álbum. Mas se se recordar de “Breaking The Habit”, “Faint”, “Numb” e “Crawling” quase tudo em One More Light vai parecer trilha de série adolescente de 24 episódios por temporada que evita qualquer contradição a todo custo.

Há guitarras no trabalho? Há, mas pouco usadas para manter o som característico dos outros álbuns. É importante considerar que a banda foi muito pesada em seu início nu metal, depois entrou em uma fase com maior proeminência dos elementos eletrônicos, e voltou com tudo ao rock pesado e punk no ótimo The Hunting Party (2014). Ou seja, não é como se a banda não tivesse mudado nunca. Porém, a falta das guitarras de Brad Delson farão qualquer fã de verdade do Linkin Park olhar desconfiado para One More Light – enquanto fãs de eletropop radiofônico e redondinho nem vão se dar conta de que esta é uma banda cujo primeiro single, antes ainda de “In The End” estourar, tinha um refrão hiperpesado e intenso, de fazer a molecada sentir a angústia e querer cortar os pulsos 17 anos atrás.

Delson e Mike Shinoda assinam a produção do disco mais uma vez. Shinoda deixa claro que ouviu de Martin Garrix a Skrillex, de Justin Bieber a Halsey, e copiou todos os sonzinhos que são parte da tendência, sem nem mesmo tentar transformar essas ideias em algo que tivesse a cara do Linkin Park. Como cantor mais melódico, Bennington segura as pontas, mas chega uma hora em que fica muito evidente sua limitada capacidade de entregar algo mais ao público. Sorte dele que as músicas são todas bem básicas.

One More Light também é lugar comum como obra em que a banda tenta trabalhar com mais contribuições e participações. Nenhum dos convidados é desafiado a apresentar algo diferente e que acrescente algo a suas discografias, carreiras ou a experiência do ouvinte. O que vemos de Kiiara, Pusha T, Stormzy e todos os outros backing vocals e instrumentistas convidados são apenas mais um “feat.” preguiçoso como 90% dos outros que já pululam por aí todas as semanas.

Das 10 faixas, talvez apenas as duas últimas não sejam boas para o rádio. Se era isso que queriam – como se precisassem sacrificar a identidade por mais popularidade – conseguiram. Contudo, o problema não é o Linkin Park fazer um disco pop. O problema é fazer pop de qualidade e originalidade muito discutíveis.

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Sheryl Crow – Be Myself (2017)

Fofo e semirebelde em boas proporções

Por Gabriel Sacramento

“If It Makes You Happy, it Can’t Be That Bad”

Comecemos esta resenha com uma citação da letra de “If It Makes You Happy”, clássico da Sheryl Crow dos anos 90. A americana do Missouri, formada em composição, com um histórico de participação em bandas de gente famosa como Stevie Wonder e Rod Stewart, é também atriz, mãe, feminista e uma das grandes representantes do rock country americano na década de 90. Guardadas as devidas proporções, Crow é quase uma Bruce Springsteen versão feminina – e as semelhanças vão do som ao jeito como ela empunha a guitarra nos shows, que lembra muito o The Boss.

O country sempre esteve na veia da americana. Mas no último álbum, Feels Like Home (2013), ouvimos uma vertente mais soft do estilo e menos de rock. Diante da recepção pior do que o esperado, Crow resolveu fazer um back to basics – que retoma a simplicidade e inocência dos primeiros discos, mas também ressalta a veia roqueira da garota que cresceu ouvindo Rolling Stones. Por isso, Be Myself está sendo vendido como um álbum de rock, o que foi reforçado pela volta da parceria entre a loira e Jeff Trott, produtor dos ótimos Sheryl Crow (1996) e The Globe Sessions (1998) – disco que possui aquela bela versão country de “Sweet Child O’ Mine”.

A diferença do anterior para Be Myself vai do som até a capa: No de 2013, vemos a cantora com uma expressão feliz com flores ao fundo. Já nesse novo, temos Crow sentada em uma cadeira em uma expressão séria e vestindo preto. O ensolarado pelo obscuro, afinal. A faixa título soa bastante como os Stones nos velhos tempos. A canção possui esse acento roqueiro misturado com country e uma letra que traz um questionamento interessante: “Se eu posso ser outra pessoa, por que não posso ser eu mesmo?”. A ótima “Heartbeat Away” é marcada por um lirismo misterioso e sofisticado e por uma sonoridade rock alternativo, com vocais distantes nos versos e uma explosão com mais distorção no refrão. Aqui, Crow deixa até o country de lado e se permite enveredar por algo diferente.

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Em “Grow Up”, Crown soa como uma adolescente, dizendo claramente que não quer crescer. Claro, tudo é circundado por guitarras levemente distorcidas e uma vibe roqueira anos 90. “Alone In The Dark” tem aqueles versos que são difíceis de desgrudar da cabeça, com as guitarras executando as melodias, o que deixa tudo mais memorável ainda. Já “Halfway There” tem um refrão que lembra as cantoras de pop da década passada.

A impressão que temos ao ouvir Be Myself é a de que Sheryl Crow decidiu trabalhar em paralelo seu lado mais inocente e ingênuo (que resgata a jovem semi rebelde do início da carreira) com um lado mais pop polido, submetendo as faixas a estruturações bem definidas e a um feeling de tudo arrumadinho, no seu devido lugar. Trott cooperou positivamente com a cantora e ambos conseguiram um resultado que acentua ambas as características muito bem. O desejo por um som polido não sufoca a faceta mais insurgente e ambas dialogam muito bem enquanto convencem o ouvinte de que vale a pena seguir para a próxima faixa.

Mesmo com seus momentos menos fortes – afinal, o disco não é uma obra prima -, o novo trabalho da cantora americana consegue agradar os ouvintes, enquanto os intriga. Afinal, não é todo dia que ouvimos um conjunto de faixas com potencial pop, comercial, grudento e radiofônico revestido com uma capa roqueira e abafada. Crow consegue soar como uma jovem garota iniciando na música, como aquela que ouvia os Stones, mas que sabe a direção a seguir, não se deixa levar por leves distrações e também não se deixa levar pela ansiedade jovial.

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Crow não precisa provar nada a ninguém, atingiu um nível absurdo de segurança em sua carreira e é essa segurança que a permite buscar referências diferentes e trazer um produto distinto e que não segue a mesma linha do anterior. Essa segurança também permite que a cantora mantenha sua personalidade intocável, enquanto tenta se renovar. Be Myself não é nenhuma inovação surpreendente, mas é um presente nostálgico para fãs de longa data. Um oi para aqueles amigos de infância que há muito tempo não se vê.

Se algo deixa a cantora feliz é referenciar seus ídolos com sua música. Be Myself permite que ela o faça, sem abrir mão da ambição comercial. Aqui, se deixar levar em busca da felicidade e realização profissional é sinônimo de resultados redondos. Afinal, se te faz feliz, não deve ser tão ruim. E não é.

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Fastball – Step Into Light (2017)

Disco resgata os anos 90 como se fosse um seriado daquela década

Por Eder Albergoni

Você pensava que os anos 90 estavam enterrados e que algumas de suas bandas também? Pois bem, não é bem assim. Depois de oito anos, o Fastball lança um novo disco e, com ele, traz um bocado do gostinho noventista. Muito embora soe apenas como mais uma banda limitada, encrustada na reviravolta indie nos anos 2000, Step Into Light revive uma década rica em descobrimentos e potenciais épicos que nunca se comprovaram e menos ainda se adaptaram aos novos dias.

O disco começa com “We’re On Our Way” instigando com um riff mais stoner, logo desmentido pelo tom noventista já citado. O pop de guitarras comanda, ouvimos palminhas nos solos, o refrão é chicletinho e um sintetizador anuncia a festa em que o disco se meteu.

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“Best Friend” é o ponche batizado enquanto na piscina a paquerinha dá seus mergulhos provocantes, o sol ilumina o cenário como uma série adolescente, a trilha sonora nos arranca da perspectiva e servimos de argumento pro roteiro. Se você esteve lá nos 90’s de alguma forma, vai perceber. Se não, resta imaginar.

“Behind the Sun” parece deslocada, fora da ordem natural que a banda já estabeleceu. Mas apesar disso, é só angústia, como seria tristeza se fosse a Legião Urbana. A baladinha no violão, emulando momentos mais tensos e até experimentais de bandas contemporâneas, simplesmente baixa a pulsação do disco, que depois segue o caminho original com “I Will Never Let You Down” e “Love Comes in Waves”.

“Step Into Light” é mais séria e mais folk. A harmonia das vozes é um destaque bastante positivo. “Just Another Dream” é o sonho pop do sucesso e do single que explode na rádio. É a que mais se aproxima da grande música feita pela banda. É possível visualizá-la como parte da coletânea As Mais Mais da Pan lançada junto com a revista mensal da rádio. “Tanzania” é instrumental e ressuscita a vertente surfer dos anos 90, muito característica de Tom Scalzo, nascido em Honolulu no Havaí.

A parte final de Step Into Light fica enfraquecida igual uma festa que acaba cedo. Ainda que caiba destaque pra “Lilian Gish” e “Frenchy and the Punk”, que encerram o episódio da tal série adolescente com um cliffhanger sobre um futuro não muito distante, onde as coisas mais legais daquela época vão ficando ultrapassadas e bregas.

É possível reconhecer a influência de outras bandas conforme o disco toca, quase como um pedaço arrancado de lá e refeito aqui pra ganhar uma cara mais atual. No fim, esse é o tchan do Fastball. Os anos 90 é um traço marcante demais pra ser deixado pra trás e, na falta de coragem de outros, o Fastball mantém o espírito vivo.

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