rock

Pedro Salvador – Pedro Salvador (2017)

Primeiro disco é diverso e seguro

Por Gabriel Sacramento

O toca-tudo alagoano Pedro Salvador decidiu lançar seu primeiro álbum solo, depois de dois lançamentos com sua banda Necro. Na sua banda principal, Salvador fica encarregado do baixo, da guitarra e vocais, engrossando os riffs, melodias e a atmosfera psicodélica. Em seu debut solo, o músico gravou tudo e assumiu até o papel da produção.

Temos que considerar que a ideia de Pedro não foi fazer algo fácil. Ele quis abordar suas influências que vão além do som do Necro, temperando com funk e rocksteady e ainda assim recheando o álbum de interlúdios e passagens instrumentais. Em sua faceta guitarrística, Pedro nos presenteia com ótimos solos livres, leves e soltos, com timbres bem escolhidos. Ele também apresenta uma verve mais prog, psicodélica e retrô. Além disso, um quê de brasilidade em diversos instantes, tornando a obra ainda mais complexa, completa e mais fácil de se identificar com os diversos tipos de ouvintes.

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Em algumas faixas, como “Desgraça na Praça”, o cantor joga o velho e bom rockão na nossa cara, com uma linha de baixo galopante, guitarras giratórias e vocais agudos cheios de efeitos. Quaisquer semelhanças com a atmosfera sonora do Black Sabbath nos anos 70 não são meras coincidências. O clima obscuro e doom segue em “Quilombo de Cimento”, uma faixa cheia de elementos de stoner rock e que parece de fato ter mais de 40 anos de idade. “Canção da Lua” traz muito peso de guitarra-baixo e frases jeff-beckianas. Em “Gênese de Destruição”, Salvador mostra que é um ótimo instrumentista, abrindo mão dos vocais e preenchendo a faixa com solos, um baixo especialmente competente e overdubs espertos. Há uma variedade interessante de instrumentos percussivos na faixa, cooperando e se relacionando bem com as guitarras.

A longa “Canção do Fim” tem uma guitarra funkeada estilo anos 70, vocais falados, um baixo redondo e minutos de sobra para desenvolvimento de excelentes arranjos marcados por diferentes nuances em uma jam instrumental. Nessa faixa, Salvador deixa claro sua faceta de arranjador, o cara que emoldura a música e deixa ela acabadinha. Além de que, a faixa é a melhor demonstração da visão de Salvador do que vem a ser rock progressivo de todas do álbum: ele segue à risca a ideia e progride de arranjo em arranjo, suavemente e cuidando bem das conexões entre eles. Este disco em uma música? “Canção do Fim”, sem dúvida.

Pedro experimenta um som mais reggae/rocksteady em “Bananeira em Flor”, com órgãos que deixam tudo tão assustador quanto qualquer faixa dos Fuzztones. Aliás, ele adora os órgãos e os coloca em muitos momentos do álbum, principalmente nos interlúdios instrumentais “Suíte Microscópica” e “Nostálgica”. Entenda-os como momentos de alívio que o músico proporciona para fazer nossa cabeça espairecer. O fato de Salvador trazer vários trechos curtos de música cria um certo tipo de ansiedade pelas faixas completas e chama ainda mais a atenção para elas.

O músico tenta ideias diferentes, experimenta variáveis, adiciona elementos e chega um composto musical diversificado e redondo. E a produção que ele mesmo fez é excelente. Conseguiu mesclar bem todos os seus talentos, usar para o bem da proposta, deixando as faixas soarem espontâneas, marcantes e agressivas, além de evidenciar a força da coesão entre elas. Se o músico se encontra fazendo um bom trabalho com o trio Necro, seu projeto solo também é digno de atenção. Um disco despretensioso, divertido, criativo e, sobretudo, brasileiro.

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Ariel Pink – Dedicated To Bobby Jameson (2017)

O pop pós-moderno de Ariel Pink tem charme particular

Por Lucas Scaliza

Não há como fugir do pós-modernismo na música quando você se propõe, como o Escuta Essa Review, a falar sobre a música que se faz hoje. É claro que sempre encontramos alguns puristas e algumas experiências de soar futurista, mas o que mais encontramos é uma música feita para o hoje que vem com aroma, sabor ou nostalgia de algo que já passou. É mais ou menos por aí mesmo: vive-se o hoje podendo usar tudo o que se tem à disposição, não importa se são canções que remetem a 1974 feitas com guitarras Fender 1969, gravadas em estúdios reformulados nos anos 90 e com uma moderna mesa de som de 2011.

Dedicated To Bobby Jameson leva a sério tudo isso e faz um pop espetacularmente vívido e feliz, soando como uma bomba temporal onde o brega e o kitsch dividem espaço com o indie sofisticado e o rock alternativo. Ariel Pink, ao que parece, tenta saturar ainda mais as cores dessa vez do que com pom pom (2014), criando um borrão musical bastante divertido e despretensioso.

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“Feels Like Heaven” talvez seja a faixa mais tradicionalmente pop do disco e não à toa é o single. Mas “Another Weekend”, que carrega um pouquinho mais na experimentação (inclusive mudando de 4/4 para ¾, além de acrescentar uma série de psicodelias), também é single do disco. “Kitchen Witch” é um desses momentos que parece que a qualquer momento descambará para um experimentalismo surreal arieliano, mas segue até o fim bastante acessível. Já “Acting” traz batidas e baixo que se adaptaria muito bem no repertório de Thundercat. Há ainda o poder anarcorroqueiro de Pink em “Time To Live” e uma série de canções psicodélicas e animadinhas, como “Dreamdate Narcissist”, “I Wanna Be Young” e a faixa-título. Mas nada se compara a abertura com “Time To Meet Your God”, faixa que parece uma releitura de algum progressivo de 1977, mas com os sons consagrados da década seguinte.

Já o Bobby Jameson a que o título se refere foi um músico real de Los Angeles que passou 35 anos recluso e, por isso, dado como morto, mas que ressurgiu na internet em 2007 após abrir um blog e um canal no YouTube para contar as tragédias de sua vida. Jameson morreu em 2015, tornando-se mais um personagem da cidade e uma lenda urbana musical. Ariel Pink ficou tão comovido com a vida e a situação do conterrâneo que sentiu a necessidade de dedicar seu próximo disco a ele.

Esse é o estilo do californiano Ariel Marcus Rosenberg desde sua estreia, juntando o que foi o pop, o que é o indie, o que pode ser o rock em uma coleção de músicas que fazem parte da cultura hipster. Pink é hipster e totalmente consciente disso. Dedicated To Bobby Jameson é uma realização não maior ou melhor do que pom pom, mas mantém o cantor e compositor na dianteira dessa intersecção do pop com o rock que é tão peculiar ao ser esquisito e comercial ao mesmo tempo. Pós-moderno, afinal.

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Capitão Nemo – Bon Voyage (2017)

Quinteto de Piracicaba (SP) aborda questões sociais atuais sem perder a fluidez do rock vintage

Por Lucas Scaliza

Em Piracicaba, cidade do interior de São Paulo onde a música sertaneja é rainha, o rock ainda é crítico. E lírico. Bruno Razera (vocal), Denis Floriano e Matheus Fagionato (guitarras), Caio Mendes (baixo) e Otavio Bacchin (batera) são a atual formação da banda Capitão Nemo. Bon Voyage, produzido por Claudio Sanchez Vicente, aposta em canções de rock que visitam décadas passadas enquanto as ideias e mensagens são reflexo atualíssimo de nossa realidade.

Embora “Palavra de Ilusão” e “Mais Valia” tenham cara de single, pois são músicas facilmente alinháveis à tradição do rock/pop brasileiro (inclua aí de Titãs a Skank), a banda Capitão Nemo mostra do que é capaz tecnicamente e criativamente a partir da terceira faixa: “Quero Sim” tem riffs à Jimmy Page, um refrão infalível e mudanças de ritmo fluidas que lembram os melhores momentos do Tianastácia. Em seguida, “Otário ou Visionário” é um passeio por tantas referências que deixo para os ouvintes pescarem o que quiserem de lá. Dá pra adiantar que a banda faz bem uma mistura de violão MPB, com acordes com crunch, ponte com acordes que dão um efeito de suspensão da gravidade e participação bem encaixada do teclado.

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Enquanto álbum de rock, Bon Voyage aposta em um meio termo sonoro: não é acelerado como o Rebel Machine (falamos dessa banda gaúcha neste podcast) e nem aposta em um som encorpadíssimo como o do Ego Kill Talent (resenhado neste podcast). A distorção existe que no disco todo, mas bastante comedida, com o knob do pedal regulado conscientemente em um grau suficiente para tocar em rádios sem assustar ninguém. Ou seja, Bon Voyage é um disco que tem sim qualidades comerciais sem precisar abrir mão da identidade roqueira.

Se a julgar pelas duas primeiras músicas do disco parecia que o quinteto piracicabano tendia para canções mais protocolares, as oito seguintes mostram que não: misturas, referências acertadas (que vão de Led Zeppelin à The Doors), técnica a serviço da musicalidade e não da exibição. Se me dissessem que “Pseudolgum Lugar” é uma composição feita entre 1967 e 1969 eu acreditaria. E a riqueza de arranjos dessas oito músicas e uma boa quantidade de solos destoam do que é feito no rock/pop atualmente, já que a maior parte das bandas de rock – ou o que sobrou delas que ainda tocam em rádios – preferem dar ênfase em suas músicas mais padrão. E o padrão já faz alguns ano é não ter solo de guitarra e nem variar muito no ritmo ou dinâmica, duas coisas que Capitão Nemo faz e eu os saúdo por isso!

Bruno Razera, cantor e principal compositor do grupo, mostra que Capitão Nemo não é uma banda apenas de entretenimento. Os temas de suas letras passam longe do amor juvenil ou da angústia mais dramática de um millennial. Vamos percebendo essa qualidade no jeito de abordar assuntos faixa após faixa, mas quando chega a balada “Joe”, rica em violões e com uma das melhores performances vocais de Bon Voyage, vemos que Razera segue uma linha de autor como a de Nando Reis, do tipo que te fisga com versos certeiros e desenvolve uma história com a qual fica difícil não se envolver caso você preste atenção no que está sendo dito. Dá até para descer até o Rio Grande do Sul e encontrar uma intenção parecida com a de Humberto Gessinger em músicas que refletem sobre nossa injusta sociedade.

O teclado não é onipresente, porém é notável quando aparece. Em “Minha Pequena” ele não só consegue algum protagonismo como também exibe um timbre vintage oitentista que remete mais à MPB do período do que propriamente ao rock. Já “Dama de Vermelho” é a composição mais suja do disco, com riffs carregados de fuzz e pegada roqueira clássica.

Bon Voyage é um ótimo primeiro álbum. Preocupado com as letras e com os arranjos, não deixa de ser rock ao mesmo tempo em que deixa claro que tem mais que rock no seu mix de referências. Numa época de golpes políticos e notícias reais que parecem fictícias, Capitão Nemo faz uma viagem pra psedolgum lugar e espera que você enxergue o que está a sua volta de forma mais crítica, que tenha empatia pelos Joe que encontrar no caminho e que, acima de tudo, não perca a esperança e nem a vontade de viver.

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Mr. Big – Defying Gravity (2017)

Eles desafiam a gravidade com hard rock à moda antiga

Por Gabriel Sacramento

Existe entre os ouvintes de música algo que chamo de conservadorismo musical, que vem da ideia de conservar no sentido de colocar toda a confiança no que já está estabelecido e se opor a mudanças bruscas. Isso acontece basicamente quando um fã se apega ao que já foi feito na música e não é muito receptivo novas ideias e o que foge à regra. Não dá pra dizer que isso é algo típico da nossa era, pois sempre tivemos ouvintes com esse tipo de percepção por aí – prova disso você encontra aos montes com relatos sobre estilos musicais hoje aceitos, mas que quando nasceram sofreram forte repressão.

Muitos desses fãs também costumam endeusar os artistas/bandas que gostam – afinal são o sustentáculo ao qual eles se apegam firmemente – e parecem acreditar que eles não envelhecem e que tudo que eles lançarem, é, por via de regra, bom por benefício do retrospecto. Por exemplo, o AC/DC merece aplausos a cada novo lançamento, pois já fizeram um Back In Black uma vez na vida. Claro, isso é muito bom para as bandas e gravadoras, que continuam ganhando dinheiro, mesmo quando enfrentam fases ruins na carreira. Mas é uma forma um tanto acomodada de pensar: afinal, os novos álbuns não precisam nem ser analisados, já são tidos como bons se foram lançados pela banda (ou seria marca?) X ou Y.

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Pois é, mas as bandas envelhecem sim e às vezes perdem qualidade com o tempo. É natural e até humano que os grupos passem por momentos menos interessantes em termos artísticos, principalmente se já atingiram um auge algum dia. No campo do rock, onde a energia é fundamental, a idade e o peso da vida pode tirar um pouco da força do artista – e isso é normal. Acostume-se.

Quando o Mr. Big surgiu no final dos anos 80, a banda com certeza incomodava o pessoal que cresceu ouvindo The Who e Rolling Stones duas décadas antes, com sua fórmula precisamente fechada e bem específica de hard rock farofão versus baladas fofinhas – afinal, em tempos de MTV, quem tinha uma balada e um clipe era rei. Mas eles tinham um diferencial: todos os quatro músicos eram excelentes em seus postos. Eric Martin tinha um vocal agudo, potente e cheio de swing que servia bem para o rock e soava bem tanto no estúdio quanto ao vivo, tendo quase sido o vocalista do Van Halen no lugar de Sammy Hagar; Billy Sheehan era sensacional com seu baixo absurdamente agudo, distorcido e suas técnicas não convencionais no instrumento; Paul Gilbert também, com um domínio assombroso das seis cordas; e Pat Torpey, com a pegada e o groove necessário para sustentar o dinamismo das faixas provido pelos duelos baixo-guitarra. A interação das cordas era algo de outro mundo e a banda tinha uma irreverência jovial que ia das letras à atitude rock’n’roll.

Mas a banda envelheceu e hoje naturalmente não soa a mesma, embora eles tentem resgatar a vibe de outros verões. O novo disco, Defying Gravity, traz a banda depois do bom …The Stories Could Tell (2014), com o produtor Kevin Elson, que produziu os três primeiros álbuns do grupo. O disco foi gravado basicamente ao vivo. O objetivo foi retornar ao som dos primeiros registros e garantir a pegada do ao vivo. O disco abre com a ótima “Open Your Eyes”, com um som realmente mais cru e bem hard rock. Os versos intercalados com o riff principal farão os fãs lembrarem dos velhos tempos de Mr. Big (1989). Já o refrão é muito Actual Size (2001). Como sempre, é muito bom ouvir os riffs e fills de baixo-guitarra, em um entrosamento fantástico da dupla Billy e Paul. A intro da faixa título apresenta uma abordagem diferente da guitarra de Paul, duplicada e tocando uma melodia bem lúdica. É uma faixa admirável, que mostra a banda fugindo um pouco da mera repetição com ideias menos comuns.

Temos mais faixas boas, como “Mean To Me”, que foi inspirada em uma música da – pasmem! – Christina Aguilera. Gilbert gostou do groove de “What a Girl Wants” da loira e resolveu criar um riff parecido, que virou o principal da faixa e o que dá consistência à mesma. O monstro Billy Sheehan tocou seu baixo com incríveis quatro dedos nesta música para poder executar as notas rápidas com perfeição. Temos ainda um duelo entre ele e Gilbert, lembrando os velhos e bons tempos em que eram uma pequena banda surgindo das profundezas de Los Angeles. Em “1992” eles abraçam a nostalgia, relembrando o ano que eram os primeiros nas paradas com a faixa “To Be With You”. A faixa é um hard rock mais cadenciado com um refrão que parece ter sido escrito nos anos 80. “Be Kind” é blueseira até o osso, com sete minutos, que tem seus momentos mais açucarados e um final totalmente inesperado com a banda tocando um riff rápido e pesado, daqueles perfeitos para fechar um álbum – e um show.

O problema do álbum novo, no entanto, são as baladas e faixas mais românticas. “Damn I’m in Love Again”, “Nothin’ Bad (‘bout Feeling Good)” – que tem um refrão até legal – e “Forever And Back” são faixas nas quais a banda troca os riffs e fills rápidos por “aaaas”, “doooos” e coisas do tipo. Além de soarem como fillers, são nestas que percebemos o maior grau de fofurice e sacarose no disco, cumprindo a fórmula à risca. É uma pena estas faixas façam tantos gols contra Defying Gravity.

O disco todo foi gravado em seis dias e isso diz bastante acerca da pedra de sustentação do grupo – a dupla Billy e Paul. Junto com Matt Starr, que toca no lugar de Pat Torpey, que está impossibilitado de tocar em decorrência do mal de Parkinson, os caras gravaram arranjos cheios de vigor e fibra, mantendo a atenção enquanto joga em nossa cara doses de ânimo e energia. Um destaque especial merece ser feito à guitarra de Gilbert, que soa muito bem em termos de timbres e compõe riffs excelentes. Além disso, ele oferece novas ideias, inclusive experimentando com sua boa técnica de palhetada. O cara é sensacional, um dos melhores guitarristas da atualidade e só por estar em um disco, já vale a pena ouvir, na certeza de que pelo menos o som do instrumento irá compensar.

Depois de tantos anos, o Mr. Big mostra que ainda tem lenha pra queimar e rock’n’roll na veia. Mesmo com os momentos mais fraquinhos e diluídos, a banda ainda é boa e sabe aplicar bem as ideias e conceitos sonoros que marcam sua identidade. Podem ser considerados conservadores, se você preferir, o que mostra que guardaram a sete chaves as características idiossincráticas do início, para não perdê-las. Como já disse, estão mais velhos, não soam exatamente como antes, mas ainda soam cheios de vida e tentando ao máximo alcançar um nível de intensidade convincente. Defying Gravity é um disco de senhores dando conselhos aos jovens e celebrando os dias de antigamente quando tudo parecia melhor – pelo menos pra eles.

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Lindsey Buckingham & Christine McVie -Lindsey Buckingham Christine McVie (2017)

Gravado pelo Fleetwood Mac, mas não é Fleetwood Mac

Por Gabriel Sacramento

Poucas bandas conseguiram uma proeza tão notável quanto o Fleetwood Mac em seus dias mais gloriosos: explorar a fronteira – se é que realmente existe – entre o pop e o rock, em uma época que a referência de pop era o ABBA e a referência de rock, o Led Zeppelin. O grupo parece ter a fórmula para canções irresistíveis e enxutas no seu esqueleto, sendo merecidamente uma das bandas mais importantes da história.

O disco em pauta neste texto foi gravado por 4/5 do Fleetwood Mac atual, mas saiu como uma parceria do vocalista/guitarrista Lindsey Buckingham e Christine McVie – que lembra muito a ideia da parceria Buckingham Nicks, do guitarrista com a outra voz feminina famosa do grupo antes de ingressarem na banda. Buckingham e McVie eram membros ativos e importantes compositores do Mac, que juntos já eternizaram hits como “Don’t Stop”, do Rumors (1977). Lindsey Buckinham Christine McVie marca a volta da cooperação criativa dos dois, depois de um tempo separados. Também é o primeiro disco de inéditas da galera toda junta, menos a Stevie Nicks, em anos.

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Como o disco foi gravado pela mesmíssima cozinha rítmica/harmônica e parte das vozes do Fleetwood Mac, é quase impossível que não soe realmente como algo que o grupo faria. Aqui a leveza sônica joga a favor do grupo em canções como “On With the Show”, cantada pelo Buckingham. A faixa é bem tranquila e caracterizada pela marcação pontual dos acordes pelo baixo. A contemplativa “Carnaval Begin” é uma canção que mesmo despida de maquiagem e excessos, soa completa e bela. O teclado de Christine chama a atenção pelas melodias que servem completamente à música e ainda conversam bem com parte rítmica. O dedilhado típico e singular de Buckingham rouba a cena em “Love is Here To Stay”, uma canção bem simples também e igualmente bela. “Too Far Gone” tem uma veia mais roqueira, com um jogo sensacional de vozes e a bateria sendo usada como recurso criativo, diferente da função típica de marcação de ritmo, como o Mick Fleetwood já tinha feito em ocasiões como na clássica “Go Your Own Way”, de 1977. Temos três faixas especiais com cara de hit: “Sleeping Around the Corner” – com um refrão chiclete e um instrumental ousado -, a tropical “Feel About You”, com suas influências de doo-wop e “In My World”, com um arranjo sofisticado e refrão inesquecível, que parece alguma coisa criada originalmente para o ABBA.

Quando perguntado sobre suas influências musicais e seu estilo de tocar, Buckingham afirmou que não gosta do estilo de Eddie Van Halen, por exemplo, pois prefere guitarristas que toquem para a música e não somente para se destacarem individualmente. Essa visão com certeza guiou o músico na sua carreira e o levou a desenvolver essa fórmula de criar e produzir hits, em que todas as partes cooperam decisivamente para um todo forte. O resultado são faixas imbatíveis em termos de sensibilidade e apelo pop, mas não soando necessariamente descartável para ouvintes mais exigentes. Outra banda que também dominou esse modus operandi foi o Steely Dan, por exemplo.

Seu novo disco com a McVie segue esse modus. Como sempre, sobra capacidade de entrar e sair pelo rock e pop, com foco na força das faixas, no quanto soam agradáveis e marcantes para o ouvinte médio/fácil, sem se preocupar em se prender a gêneros ou idéias padronizadas. Um álbum que proporciona uma tranquila viagem pelo mundo das ideias sonoras, cheia de conforto e segurança. Esse disco vai te fazer querer ouvir Fleetwood Mac de novo e respeitar ainda mais esse grupo sensacional, que é tão seminal para a música pop.

E fica cada vez mais fácil acreditar que quando esse pessoal se junta não tem como sair algo ruim.

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The Strypes – Spitting Image (2017)

Confie no rock’n’roll que vem da irlanda

Por Gabriel Sacramento

Quatro garotos europeus muito jovens, de boa aparência, fazendo rock. Não, não estou falando dos Beatles, embora esse grupo que vem da Irlanda goste de referenciar o fabfour, desde o som à aparência do início da carreira. Os Strypes não parecem intimidados pelo fato de serem muito jovens (começaram a banda com membros de 15, 14 e, pasmem, 13 anos) e pelo fato de terem como fãs declarados Elton John, Dave Grohl e Paul Weller. Não estão nem um pouco assustados, mas na verdade os garotos, que hoje têm vinte e poucos anos, acham até bom o fato desses medalhões torcerem por eles.

O visual varia dos Beatles aos Byrds, indo do arrumadinho com terno bem passado ao mais desleixado. O som era mais blues rock no primeiro disco e evoluiu, mas sempre mantendo uma aura anacrônica e referenciando os clássicos Dr. Feelgood, The Clash, Rolling Stones, Chuck Berry, dentre outras influências. Enquanto outros quartetos de meninos de vinte anos estão por aí tocando música adolescente, estes garotos resolveram tocar rock’n’roll, punk, blues, misturando tudo isso sob uma égide garageira e a velha filosofia do faça-você-mesmo. 

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Se você, assim como eu, também acha curioso que as bandas de rock agressivas e divertidas da década passada injetaram muitas doses de bom-mocismo em seu som, perdendo a urgência tão característica, como fizeram os Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e The Killers, vai se surpreender com o som desses garotos que têm mantido a atitude até agora, deixando transparecer até nas entrevistas um visual e uma pegada um tanto transgressora que lembra os grupos dos anos 60.

Spitting Image tem produção de Ethan Johns (Paul McCartney, Tom Jones) e parece soar um pouco mais garageiro e com uma produção menos polida que o anterior, Little Victories (2015). “(I Need a Break From) Holidays” mostra toda a veia punk, com um pouco de indie, que vai lembrar os bons momentos de Arctic Monkeys e Strokes. “Easy Riding” começa mais tranquila e chega a um refrão empolgante, total rock’n’roll. A faixa mostra como a banda trabalha bem a dinâmica, indo bem de momentos mais melódicos a outros mais cheios de adrenalina. “Turnin’ My Back” lembra bem as boas bandas punk dos anos 70, com um órgão bem articulado no fundo. “Grin and Bear it” é uma aula de como fazer uma música cool, mas com uma boa atitude roqueira. Mesmo envolvidas em guitarras agressivas e diretas, as melodias de “Behind Closed Doors” são ótimas e ficam na cabeça.

Spitting Image é um grande disco do quarteto e continua reafirmando que eles são uma boa referência para quem procura um som mais agressivo e garageiro. Em cada álbum, eles focaram em facetas diferentes, o que pode ser interpretado de duas formas: 1) Não definiram perfeitamente o som ainda ou 2) Suas influências e referências são tão amplas que eles desejaram fazer discos diferentes para explorar mesmo. O fato é que tudo soa muito bem e há uma coesão interessante entre o que já lançaram. Eles conseguem soar garageiros sem a grande produção do Royal Blood ou Black Keys, com ótimas faixas, ótimas melodias, solos e todos os outros elementos desse tipo de rock que as suas influências faziam. A evolução da banda tem sido impressionante, o som deles tem tomado forma e tem ganhando consistência, com tudo sendo feito sem muito esforço. Eles soam como o tipo de banda que chega no estúdio e não tem muitos problemas em gravar suas ideias, pois sabem exatamente o que querem.

Os jovens irlandeses captam bem o espírito roqueiro, jovial, insurgente, muitas vezes inconseqüente, que marcou os anos 50, os anos 60 com a psicodelia, os anos 70 com o punk, os anos 80 com o glam rock, os 90 com o grunge e britpop e a década passada com os revivals e o que ficou conhecido como indie rock. Os Strypes trazem todo esse panorama para o nosso tempo, mantendo a chama acesa e honrando o rock’n’roll de ontem, de hoje e de sempre.

É impossível não associar com o som dos já citados Arctic Monkeys e Strokes, que fizeram tanto alarde no cenário roqueiro mundial na década de 2000, chegando a serem chamados de “salvadores do rock”. Depois de tantos anos, a confiança nesses dois já não é a mesma, mas podemos confiar nos nomes menos esperados e que surgem com menos pretensão, mas que são honestos na hora de entregar um produto que garante uma boa experiência. Os Strypes têm isso e podem ganhar o mundo sem problemas com seu som e proposta super interessantes. Confie nesses garotos. O rock está muito bem de saúde e são jovens como estes que fazem questão de deixar isso bem claro.

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Stone Sour – Hydrograd (2017)

Peso, energia e adrenalina. Mas o problema são os refrãos

Por Gabriel Sacramento

Em uma escala Corey Taylor, como você está se sentindo hoje? Como o mau-humorado, agressivo, das máscaras e guturais do Slipknot, como o bem-humorado, de voz mais limpa, que gosta de diversificar do Stone Sour ou o Corey cool dos All-Stars e entrevistas divertidas? São muitas facetas e o cantor gosta de expor cada uma delas publicamente em seus projetos. O cara já escreveu até livros, mostrando que realmente quer ir fundo em seus dotes.

O Stone Sour é o que mais tem ganhado sua atenção e dedicação ultimamente. O que é até compreensível, visto que o Slipknot já anda com as próprias pernas e se tornou aos poucos uma marca maior que os próprios membros. Já o SS ainda está em fase de consolidação, descobertas e desafios. Sua dedicação à banda tem rendido resultados consistentes, como os dois últimos e conceituais álbuns, da série House of Gold & Bones. O som da banda está cada vez mais metálico, moderno, pesado e diverso dentro do próprio escopo.

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Conheci o grupo num show do Rock In Rio de 2011, quando vieram ao Brasil e tocaram com o baterista Mike Portnoy. Foi com “Orchids”, do primeiro álbum deles, que a banda me ganhou e eu passei a acompanhar e ouvir os álbuns. Eu, que até então só conhecia Corey Taylor dos vocais insanos de “People = Shit” e “Psychosocial”, tive uma boa surpresa ao vê-lo trabalhando ideias vocais menos previsíveis de uma forma menos rígida. Desde então, penso na banda como um projeto totalmente distinto do Slipknot – que já teve dois membros em comum – embora características similares possam ser encontradas. O disco All Hope is Gone (2009), por exemplo, tinha muito do Stone Sour e isso rendeu um resultado final bem interessante. Aliás, muita gente pode não saber, mas o Stone Sour foi fundado antes mesmo do próprio Slipknot, mas o grupo das máscaras acabou ganhando mais atenção de James Root e Corey Taylor no final dos anos 90 e alcançou um sucesso mais estrondoso.

O nome do novo disco, Hydrograd, foi escolhido porque Corey pensou ter visto a palavra escrita em um aeroporto e a achou legal. É o primeiro álbum com Johny Chow no baixo e Christian Martucci na guitarra, substituindo James Root que deixou a banda para se dedicar mais ao Slipknot. Dois singles foram lançados para promover o álbum: “Song #3” – uma faixa mais pop/rock, bem comercial, com alguns momentos que lembram as faixas do novo do Incubus – e “Fabuless”, uma porrada na orelha, com riffs afiadíssimos, vocais melódicos seguidos de gritaria gutural, uma bateria pesada e bem executada por Roy Mayorga e referências à “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like it)” dos Stones e “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin. Além disso, a faixa ganhou um clipe bem interessante, no qual eles aparecem tocando para bonecos de posto e no final do vídeo, os bonecos assumem o palco e os músicos aparecem na plateia – com direito à um Corey Taylor insano filmando o show do celular. O clipe foi idealizado pelo baterista há sete anos e só agora encontraram a oportunidade de gravar.

No resto do álbum temos momentos bem pesados, como em “Taipei Person/Allah Tea” e “Whiplash Pants”, com ótimos riffs e uma cozinha segura. Mas as faixas mais pesadas do álbum como a já citada “Whiplash Pants”, “Fabuless”, “Knievel Has Landed”, “Friday Knights” e a faixa-título possuem um problema: seus refrãos. O fato delas terem sempre que cair num refrão melódico acaba meio que minando as possibilidades da banda e deixando o álbum previsível demais. Esses refrãos soam um pouco forçados, pouco desenvolvidos, como se estivessem lá só para cumprir a regra mesmo e constituem o ponto fraco do conjunto. Se as partes pesadas são empolgantes do tipo que te fará balançar sua cabeça no ar, os refrãos são do tipo que te fazem desviar a atenção para checar o Twitter ou Instagram. Não funcionam bem como partes marcantes das canções.

Mas o disco tem refrão bom? Tem sim e os melhores ficam justamente nas faixas menos intensas, como “Mercy”, “The Witness Tree” e a emocionante “When The Fever Broke”. Mas além dos refrãos fracos e do peso, o grupo ainda tenta algumas coisas mais ousadas, como o flerte explícito com o country em “St. Marie”.

Hydrograd é um registro interessante de uma banda em ascensão e que sabe bem o que pode e o que quer fazer. Percebemos que eles exalavam adrenalina e energia no estúdio quando gravaram tudo ao vivo, justamente para captar mais peso e atitude, mesmo esquema usado na gravação dos EPs de covers Meanwhile in Burbank e Straight Outta Burbank.

A bateria de Roy Mayorga ganhou um destaque especial no processo de produção, soando pesada, direta e próxima ao ouvinte, como acontece quando os engenheiros utilizam microfones bem próximos dos tambores. As guitarras soam muito bem, também, com altos e precisos graus de distorção e sujeira. Taylor explora seu gutural, seus vocais melódicos e varia bem em cada nuance diferente, como fez em seus discos mais inspirados na carreira.  O produtor Jay Ruston soube muito bem conduzir a banda no processo e trabalhou com eles para definir bem as estruturas das canções e a dinâmica entre intensidade e alívio, cuidando dos timbres e da pegada.

O Stone Sour entrega peso e energia com uma riffaria precisa – capaz de deixar gente como James Hetfield e Dave Mustaine orgulhosos, inclusive – e execuções agressivas e fortes como um bom disco de metal deve ser. O problema acaba ficando nos refrãos, que impedem o álbum de ser algo fantástico e inesquecível. Ainda assim, em tempos de bandas de metal se repetindo à exaustão, enclausurando o estilo em uma enorme bolha criativa, Hydrograd soa como um bálsamo para os ouvidos cansados da mesmice, visto que eles notavelmente se esforçaram para conseguir um resultado fresco e diferente. Mesmo com alguns problemas, é um bom disco de metal.

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