rock

Blondie – Pollinator (2017)

O Blondie não é só a banda mais charmosa do planeta

Por Eder Albergoni

Vamos direto ao ponto: Pollinator nasce absolutamente clássico! O 11º disco de estúdio do Blondie é uma pérola do rock, sensual e divertida. Já não bastasse o charme de Debbie Harry, a banda se cerca de vários nomes de peso, seja na composição, produção ou participações nas faixas.

Tudo começa com Joan Jett nos vocais de “Doom or Destiny”. A música tem todo o poder e a energia que só poderíamos associar à runaway preferida. E o pé na porta se enfatiza nos solos de guitarra de Chris Stein e Nick Valensi. “Long Time” remete diretamente à “Heart Glass” e ao glam rock como um todo. Debbie conta com a ajuda de Dev Hynes, conhecido como Blood Orange e que já contribuiu com Solange, Sky Ferreira, Florence + The Machine, na composição. A maravilhosa trinca de abertura se completa com “Already Naked”. A música tem contornos espaciais e uma montagem atraente pra dançar.

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“Fun” tem composição de Dave Sitek do TV on the Radio e é perfeita para a pista. Leva um swinguinho gostoso e um certo erotismo que atinge especialmente o quadril. Já “My Monster” foi escrita por Johnny Marr, que não necessita de apresentações, e traz um ótimo arranjo de teclados e sintetizadores. É outra que cai muito bem no tapete da sala. Johnny também aparece com sua guitarra em vários momentos do disco, dando peso, base ou linhas harmônicas nas quais ele é fera.

“Best Day Ever” é a contribuição da Sia e, outra vez, do strokeano Nick Valensi. Talvez seja a faixa mais normalzinha do álbum. “Gravity”, composta por Charli XCX, também não traz nada de especial, mas firma o disco como um trabalho dançante, vivo e capaz de provocar sensações quase íntimas, se tratando de música e da voz de Debbie.

Como prova “When I Gave Up on You”, uma baladinha bem mais contida, explorar a sutileza rasgante da voz de Debbie é sucesso certo. É uma passagem perfeita pra “Love Level”, com participação do ator e comediante John Roberts e da street band What Cheer Brigade numa ótima construção no arranjo dos metais. Outra prova de como Pollinator é um disco vibrante e divertido.

“Too Much” é uma clássica canção do Blondie e funciona muito bem em todos os aspectos. É um resumo de todo o disco e parece confirmar a imponência e a relevância da banda, que não satisfeita encerra o baile com uma das melhores músicas da discografia inteira. “Fragments” tem ares colossais. É um rock de 7 minutos e uma perfeita obra sonora que, apesar de não refletir o rumo tomado no disco, guia como um farol o horizonte do grupo.

A culpa disso tudo é de um cara chamado John Congleton. O produtor acertou em cheio ao usar a experiência da banda a favor de um trabalho inteligente ao extremo. Além do mais, conseguiu capitanear uma extensa lista de nomes com coerência e eficiência. E a gente pode, sem exagero, classificar Pollinator como o melhor álbum do Blondie.

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Warrant – Louder Harder Faster (2017)

Festança rock’n’roll oitentista, divertida e irreverente

Por Gabriel Sacramento

Ouvindo este disco pode não parecer, mas o Warrant não é uma banda nova. O grupo nasceu na cena do glam rock de Los Angeles dos anos 80, onde surgiram grupos megafamosos como o Poison, Motley Crue e o Guns N’ Roses. Mas depois de tantos anos de atividade, a banda soa totalmente rejuvenescida, cheia de fôlego e energia roqueira de uma forma impressionante. Se comparada com bandas novas que gostam de resgatar essa vibe anos 80 como Danko Jones e Airboune, o Warrant não soa muito diferente, pois não dá sinais de rugas e nem de fraqueza no esqueleto.

Mas são mais de 30 anos de carreira e ao mesmo tempo em que soa como uma banda nova, soa também como um grupo maduro que sabe bem o que faz e como chegar precisamente ao resultado desejado. A direção é bem definida e o objetivo alcançado com louvor. Foi assim com o ótimo Rockaholic (2011) – primeiro álbum com os vocais de Robert Mason, que fez um bom trabalho como vocalista do Lynch Mob – e está sendo com Louder Harder Faster, novo trabalho do quinteto de LA.

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O disco possui a identidade do glam dos Estados Unidos oitentista. Riffs pesados, vocais agressivos, baladas que surgem para aliviar o tracklist. Em LHD, temos ainda mais músicas mais orientadas aos vocais do que às guitarras, com grandes melodias e ganchos que ficarão na sua cabeça por muito tempo. “Devil Dancer” chama a atenção pelo seu riff principal e sua cadência, mas o principal é o refrão, bem marcante. “New Rebellion” é o tipo de faixa que resgata o hard rock oitentista, mas também traz um quê do heavy metal que bandas como o Accept têm feito atualmente. “Only Broken Heart” é marcada por uma guitarra melódica no início e melodias vocais proeminentes no desenrolar da faixa. É bem estruturada, bem dividida e o refrão ganha ênfase. “U in My Life” cumpre a função da balada obrigatória com violão. A banda consegue manter o equilíbrio e não cai no excesso de açúcar que às vezes acomete este tipo de composição.

LHD foi produzido pelo ex-DIO Jeff Pilson, que soube bem explorar as facetas mais interessantes e obter um resultado consistente. Dá ênfase maior aos vocais, deixando muitas vezes as guitarras em segundo plano, sendo difícil acreditar que realmente existam duas guitarras em vários momentos. O timbre das distorções, mais polido e abafado, também é um pouco diferente do usado em Rockaholic. Joey Allen e Erik Turner estão bem entrosados e ambos trabalham juntos para que as guitarras soem coesas e harmonizadas. Já Jerry Dixon se destaca no baixo, colocando boas notas no meio da porradaria e chefiando bem a cozinha. O vocalista Robert Mason se destaca também, cantando mais melodias e gritando nos momentos certos, acrescentando o que as faixas precisam.

Além de soar jovens e experientes ao mesmo tempo, o Warrant consegue manter a empolgação do ouvinte todo o tempo. A banda nos convida para a festa de celebração dos anos 80, da irreverência, diversão e rock’n’roll e não nos deixa na mão em nenhum momento. LHD são 42 minutos de pura adrenalina e disposição e até os momentos de alívio são usados estrategicamente para dinamizar e ganhar nossa atenção para o que vem a seguir. Mesmo nos levando a uma Los Angeles perigosa de 30 anos atrás, o quinteto não soa totalmente datado, pois há um frescor de novidade, algo do século XXI enrustido no som. Som esse que inclusive pode sair de LA e visitar outras quebradas, sem problemas.

Prepare-se para ouvir um som pesado do bom, puro e feito com honestidade por caras que conhecem bem e dominam essa linguagem musical. Prepare-se também para se perder cantando os refrões e as melodias. Arraste os móveis da sala e balance ao som mais alto, mais pesado e mais rápido rock’n’roll do Warrant.

Chris Stapleton – From A Room: Volume 1 (2017)

Um disco emocionante, forte, energético e gostoso

Por Gabriel Sacramento

Se você acompanhou o cenário da música e das premiações em 2015, sabe que o disco do Chris Stapleton foi um dos mais reconhecidos. O cara ganhou Grammy, Billboard Music Awards, Country Music Association Awards e outros com o disco Traveller, sendo um dos artistas mais comentados daquele ano. Tudo isso é impressionante para qualquer álbum de qualquer artista, mas no caso de Stapleton, o efeito foi ampliado, já que era seu primeiro trabalho.

Em seu novo disco, From A Room: Volume 1, Stapleton trabalhou novamente com o produtor Dave Cobb e nos trouxe uma série de ótimas canções, de novo. Se Traveller tinha uma sonoridade que parecia ao vivo, como se o músico estivesse se apresentando bem na sua frente, From a Room… soa um pouco mais dentro do estúdio. E a mix é mais polida também. Mas nada disso tira o brilho e a energia das faixas, intrínsecas ao estilo do compositor de Nashville.

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“Broken Halos” é uma música simples, bem voltada ao country, fácil de assimilar e ótima para começar o disco. “Last Thing I Needed, First Thing This Morning” deixa evidente a ótima timbragem da guitarra principal, um dos destaques do disco, tocada pelo próprio Stapleton. Além disso, é uma balada tocante e poderosa. Em “Second One To Know”, Chris chama a sua guitarra para a frente, numa faixa mais roqueira conduzida por um riff forte. A voz do cantor se encaixa tão bem aqui quanto nas faixas mais emocionais.

Em Traveller tínhamos uma balada chave que partia nossos corações (“Sometimes I Cry”). Dessa vez temos “I Was Wrong”, outra das ótimas baladas, cortante e precisa, com a potência vocal e o ótimo timbre jogando a favor do cantor. “Death Row” chega mais perto do blues, com típicos fills de guitarra um pouco mais distorcida intermitentemente vindo à luz. “Up To No Good Livin'” é a mais caipira do álbum, com direito à slide e backing-vocal feminino e todo o sotaque sulista de Stapleton deixando as referências bem claras.

Compositor de longa data, cooperador de diversos artistas famosos (Adele, Luke Bryan, Peter Frampton), Stapleton deu o primeiro passo em 2015 para uma carreira solo. O debut foi um sucesso e o segundo prova que o artista está sabendo firmar bem seus passos na longa caminhada da estrada da música. O grande destaque da musicalidade do cantor é a sua capacidade de misturar detalhes de estilos diferentes – southern rock, country, bluegrass, soul, blues -, demonstrando total domínio de tudo que insere nos discos. É difícil rotular o que ele faz, até porque sua música não possui pretensão de ficar enclausurada em rótulos, mas visa ser uma expressão pessoal, sincera e singular.

Chegando sem medo no cenário do country – cenário que já teve nomes como Taylor Swift e que hoje conta com nomes como Sturgill Simpson, Blake Shelton e Eric Church -, Stapleton se diferencia dos demais, tanto pelo jeito como coloca sua guitarra nas faixas, flertando com o rock, quanto pela forma de dar vida às letras, com interpretações envolventes, que são capazes de fazer até um robô derramar lágrimas de emoção. É bem provável que o feito do primeiro disco, no que diz respeito às premiações, não se repita. Mas a qualidade do primeiro álbum foi repetida e ouvir tanto um quanto o outro é uma experiência igualmente maravilhosa.

E mais uma vez Dave Cobb conseguiu um ótimo resultado. O produtor, que tem sido também o mentor do Rival Sons na carreira bem-sucedida do grupo, tem se mostrado bastante competente nos trabalhos em que se envolve. Todo seu conhecimento e experiência com músicos e bandas de rock ajudou Chris Stapleton a orientar esse seu lado e buscar evidenciá-lo sem soar exagerado. Além disso, a impressão que se tem é que Cobb soube muito bem aproveitar os pontos fortes do cantor, para gerar uma fórmula sonora infalível.

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Richie Kotzen – Salting Earth (2017)

Disco ressalta a capacidade do músico de harmonizar suas muitas facetas

Por Gabriel Sacramento

Desde que descobri que o Richie Kotzen tinha sido o guitarrista do Mr. Big em um dos meus discos favoritos dos californianos, passei a acompanhar a carreira dele, desde suas participações, bandas e carreira solo. O que sempre foi muito recompensador, visto que o músico é bastante talentoso, tem uma identidade forte e transmite isso bem em cada música que grava. Além de um guitarrista virtuoso, o cara também é um excelente cantor, com um ótimo timbre vocal (que lembra demais o Chris Cornell) e uma técnica que está sempre em forma.

Seu estilo sempre foi composto por muito de funk, soul e blues misturados com rock. Kotzen sabe como poucos pegar um elemento de um estilo e jogar no outro, mantendo-os reconhecíveis na mistura e enriquecendo a experiência e a audição. Foi assim no Mr. Big, quando sua presença na banda permitiu que eles enveredassem por um som mais funkeado, com muita consistência, e tem sido assim com os projetos de que tem participado.

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Kotzen também é sempre muito prolífico. Recentemente, tem se dedicado ao The Winery Dogs, trio que formou com Billy Sheehan e Mike Portnoy, mas também tem achado tempo para continuar o fluxo frequente de lançamentos de sua carreira solo. Em 2015, ele lançou Cannibals, um disco que representava uma fase menos roqueira e menos intensa do músico. Este ano, lançou Salting Earth. Ele continua gravando e produzindo quase tudo que entra no disco, o que ressalta ainda mais o seu talento e versatilidade. A única exceção aqui é a voz feminina gravada pela sua namorada, a brasileira Julia Lage.

Salting Earth traz mais peso e agressividade que seus dois antecessores – 24 Hours (2011) e Cannibals (2015). Há menor predominância da sonoridade R&B e dançante e pode ser entendido como uma tímida volta aos discos mais roqueiros como Get Up (2004). Temos várias músicas com as guitarras distorcidas dando o tom: “End of Earth”, “Thunder”, “Make it Easy” e “Divine Power”. A primeira possui um vocal distorcido bem diferente do comum do Kotzen, com um pouco mais de agressividade (soando ainda mais como o Cornell). O vocal soa muito bem colocado entre os riffs potentes. Já “Make It Easy” traz um quê oitentista, com um refrão que lembra a ex-banda do guitarrista, o Poison.

Mas também temos baladas: “I’ve Got You”, com letra simples, um baixo forte e uma guitarra que dá um charme sem prejudicar o refrão melodioso e chamativo. O baixo também chama a atenção na também romântica “My Rock”, o que mostra que Kotzen está cada vez melhor no instrumento. Ainda entre as baladas, temos a semiblueseira “This is Life” e a good vibes “Grammy”, com um violão bem ensolarado. Dentre todas, a que mais se destaca e até destoa um pouco é essa última. “Meds” parece ter sobrado de Cannibals, tamanha é a vibe um pouco roqueira mas sem tanta distorção que predominou no anterior.

Em Salting Earth, Kotzen explora diversos timbres, indo do piano elétrico à típica guitarra distorcida, passando pelo baixo, bateria e até violão. Mesmo que a bateria, por exemplo, soe bem simples em alguns momentos, a dinâmica que o músico consegue desenvolver é suficiente para as canções funcionarem bem. A impressão é que ele se dedicou com igual intensidade a todos os instrumentos que se propôs a gravar e não somente aos principais.

O novo disco, assim como o anterior, é muito bom de ouvir, mesmo que não seja excelente. O mais legal do álbum é o equilíbrio que Kotzen consegue destacando todas as suas facetas da mesma forma, sem exagerar demais em nenhuma delas. Se você gosta mais do Kotzen vocalista ou do Kotzen guitarrista do começo da carreira, prepare-se para ouvir essas duas características um pouco mais tímidas aqui, a fim de harmonizar com as outras e oferecer um resultado mais coeso e consistente.

A sua discografia continua irrepreensível. Cada disco parece aumentar a validade da fórmula e de sua capacidade criativa. Salting Earth é superior à Cannibals: além de abarcar os mesmos parâmetros, ainda traz um feel mais old school. Ouça sem medo.

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Feist – Pleasure (2017)

Contrastando arranjos áridos com passagens cheias de vida, Leslie Feist faz disco imprevisível e difícil

Por Lucas Scaliza

Não deixe que a estranheza de “Pleasure”, primeira faixa, primeiro single e primeiro clipe do novo álbum de Feist, te afaste, seja da cantora ou de Pleasure. Ou, na verdade, afastar pode ser o que ela quer. Mas “afastar” não é a palavra certa. A música de Leslie Feist, dessa vez mais do que antes, busca, quem sabe, “selecionar” quem vai ouvi-la até o fim e quem desistirá no meio do caminho. A inconstância meio roqueira de “Pleasure”, que pode ser cruelmente desestimulante antes do primeiro refrão, é só a primeira das esquisitices que a cantora e compositora canadense mostrará ao longo do disco.

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Portanto, esteja preparado. Seja fazendo rock ou folk, indo do indie ao alternativo e à balada num piscar de olhos, Pleasure tenta ser pouco convencional e pouco previsível (quem é que conseguiria prever cada virada e cada alto e baixo de “Get Not High, Get Not Low”, afinal?). Faixas como “I Wish I Didn’t Miss You”, “Lost Dreams” e a groovada “Century” (com Jarvis Cocker e Brian LeBarton) têm o temperamento de Feist, mas resgatam também algo de cancioneira folk rock que PJ Harvey exibia em seus primeiros trabalhos: uma mulher, uma guitarra e sua voz. Já outra como a valsa “Any Party” tem algo de Karen O na forma de cantar, embora a estrutura toda da canção seja, no final das contas, pensada para funcionar como um storytelling digno de Roger Waters (tem até latidos de cachorros e autorreferência).

Dois elementos chamam a atenção ao longo do álbum. Primeiro, os arranjos. Há os bonitos, há os esquisitos e há aqueles que surgem subitamente, nos levando para um entendimento diverso da faixa, como um pequeno novo universo que se apresenta por alguns minutos, seja no background da faixa – como o fantasmagórico teclado ao fim de “Baby Be Simple”, ou o rock rascante que toma a balada “A Man Is Not His Song” de assalto. Praticamente todas as músicas do trabalho terminam com alguma “surpresa”.

O segundo elemento são as dinâmicas, que reforçam os momentos mais emocionais das canções e também nos levam deles direto para os mais áridos. Absolutamente nenhuma música mantém uma mesma pegada do começo ao fim. Unindo os dois elementos, cada faixa precisa ser ouvida do começo ao fim para ser compreendida, já que Feist recusa fazer o esquema verso-refrão tradicional. Estamos já há milhas de distância de The Reminder (2007), sua estreia, muito mais fácil de ouvir do que qualquer trabalho que ela entregou depois.

O que vão dizer – com certa razão – é que Pleasure não empolga. Suas viradas e passagens áridas contrastam com os coros mais quentes e refrãos de melodias mais agradáveis, fazendo sua audição ir de um estado de prazer a um estado de estranhamento. Contudo, certos momentos e detalhes de cada composição não seriam tão interessantes sem outros mais secos. Uma vez vista como promissora estrela do indie pop, Feist conscientemente escolheu seguir em frente tentando novas formas de fazer indie. Há quem adorou Metals (2011), elevando-a ao patamar de “arte” no estilo. Pleasure, então, é a sequência desse estado de arte de sua música. Outros simplesmente não acompanharão a opinião e a música mais uma vez.

Eu fico com o primeiro time, mas entendo perfeitamente o segundo. E você?

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Mark Lanegan Band – Gargoyle (2017)

Mark Lanegan chega ao 3º capítulo de sua caminha gótica e eletroblueseira

Por Lucas Scaliza

Primeiro, tivemos o blues do funeral. Depois, o rádio fantasma. Agora, um gárgula. A mistura de blues, rock, música eletrônica e nuances góticas de Mark Lanegan chega ao terceiro capítulo com Gargoyle, sempre com referências muito claras da capa ao nome do álbum do que ele pretende.

É impossível cansar de sua voz grave e cavernosa, que acaba virando mais um elemento de textura em sua música, por mais simples que sejam suas melodias. E sua música, por mais previsível que possa parecer, consegue manter o mesmo tom dos álbuns anteriores e não se repetir nunca. “Blue Blue Sea” pode até ser uma canção bucaneira, mas toma ares cósmicos com toda a gama de teclados e sintetizadores que a compõe. E “Nocturne”, “Beehive”, “First Day of Winter” e a instigante “Old Swan” mostram como Lanegan ainda é… o próprio Lanegan, o cantor que você sempre imagina cantando nas sombras de um pub, tomando uma de uísque entre uma canção e outra.

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O mesmo de sempre, mas levemente flexível. Duas das mais interessantes faixas de Gargoyle são quase opostas. “Goodbye To Beauty”, entupida de reverb, é o que há de mais tradicional em termos de expressão em Gargoyle – uma das mais fundamentalmente orgânicas do álbum. Enquanto “Sister” é bem mais sintética e árida. Já “Emperor” é a coisa mais animada que ouvimos dele nos últimos 10 anos.

Embora sombrio, enevoado e grave, Gargoyle não é um disco triste e, como tudo que Mark Lanegan tem feito ultimamente, passa longe de soar monótono. Seja cantando sobre os demônios de cada um, fazendo referências ao passado de vícios em drogas ou usando um humor negro e seco, o álbum segue sempre em frente, sem exigir demais do ouvinte.

Gargoyle encontra eco no rock e na new wave oitentista, guardando paralelos com Joy Division, Echo & The Bunnymen e Depeche Mode. Mas a personalidade do cantor se impõe com força. Daí, “Drunk On Destruction” é o rock que você queria ouvir e “Death’s Head Tattoo”, que abre o disco, é a síntese do que Lanegan tem sido nos últimos anos. Pega suas influências, processa suas origens e junta tudo em novas e boas composições que continuam a ampliar o espectro sonoro de sua longa caminha pela noite urbana.

Slowgold – Drömmar (2017)

Não tema o sueco. Abrace a viagem de Amanda Werner

Por Lucas Scaliza

A banda sueca Slowgold é um caso de displicência. Não da música que produz, que é ótima, mas do público, talvez, e da crítica, que tem medo do sueco. E não digo do homem sueco ou do povo que vive naquelas bandas nortistas da Europa, mas da língua sueca. Roxette explodiu para o mundo décadas atrás por ter um som cativante, mas sobretudo porque cantavam em inglês. E não faltam artistas das terras escandinavas que cantam na língua global – só aqui nos arquivos do Escuta Essa Review e podcast há vários exemplos. Mas ignorar Slowgold só porque cantam na língua materna é covardia.

Drömmar é quarto disco do trio formado pela vocalista Amanda Werne, que também responde pelo violão, guitarra, harmônica e teclados, pelo baixista Johannes Mattsson e pelo baterista Erik Berntsson. O som é levemente viajante, o que garante o rótulo de rock psicodélico, mas este álbum está muito ligado ao folk. Dá para sentir que pendem tanto para o indie quanto para uma volta ao sonho hippie do fim da década de 1960.

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Há uma pureza muito gostosa de ouvir em todo o trabalho. Amanda usa sua voz de forma doce e dramática – às vezes alternando entre ambos os modos na mesma faixa – e encaixa belas vocalizações que expandem de vez o perfil mais psicodélico do grupo. Se o Tame Impala confia na manipulação sonora dos instrumentos para levantar voo, é a cantora quem opera a trip, como fica muito claro nas excelentes “Drömmar” (mais folk) e “Stjärna” (mais roqueira). Esse também foi um recurso bastante usado em Glömska (2015).

Slowgold propõe uma dinâmica distinta em cada faixa, mantendo o passeio interessante, mesmo que nem todos os caminhos casem perfeitamente com o gosto do ouvinte. “Karusellen” é indie, “Sammetsmorgon” é mais reflexiva, quase como se a voz e o teclado soassem mergulhados em uma lagoa, “Sommarhaus” é uma valsinha econômica e “Evighet” pende para o campal com seu dedilhado de violão e arranjo de harmônica. E ainda temos faixas mais roqueirinhas pelo meio.

Ainda que os arroubos sonoros não estejam entre as características mais marcantes da banda, eles aparecem para dar uma boa aquecida no coração em “Orden”, “Staden” e “Väntar”, músicas que também mostra a ótima consciência de Amanda Werne na hora de compor riffs e arranjos de guitarra. É tudo bem simples e instintivo até, mas cabem direitinho no som proposto pelo grupo.

Não caia nessa de achar que o som do Slowgood é muito simples ou magro demais e que talvez por isso seja menos merecedor de sua atenção. Há uma arte oculta em fazer músicas simples e belas, em que a produção chama a atenção para o talento de cada músico e não para si mesma. Aliás, não faltam exemplos de canções e álbuns tão superproduzidos que acabam ou perdendo o que havia de melhor na composição ou se tornando homogêneas demais ao lado de tantas outras superproduções colocadas no mundo todas as semanas.

Slowgood é um pedacinho da música sueca nativa que raramente chega ao público de fora do país. E Drömmar é ótimo para deixar rolar. A linguagem musical é mais abrangente que a língua vernácula.

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Ellika Henrikson