rock progressivo

Kneebody – Anti-Hero (2017)

Quinteto aprofunda a relação entre o jazz e o rock progressivo

Por Gabriel Sacramento

Sabe o rock progressivo? Diante de todas as características do estilo, vamos nos ater à ideia da palavra “progressivo”. Para mim, amparado inclusive pelo seu significado no dicionário, o “progressivo” do rock progressivo refere-se, entre outras coisas, a uma forma de música dividida em seções, em que cada seção subsequente acrescenta sentido à anterior, enriquecendo ainda mais a experiência auditiva e conferindo assim a ideia de “progressão”. Os californianos do Kneebody reforçam esse conceito e trazem um grande tratado musical sobre isso.

Se você já leu sobre isso, sabe que o rock progressivo surgiu agregando influências de música clássica e jazz fusion. Essa forma de jazz, assim como a música progressiva, apresenta diferentes climas, arranjos bem elaborados e uma forte ênfase nas “seções” de cada faixa. O quinteto Kneebody é formado por Adam Benjamin (teclados), Shane Endsley (trompete), Ben Wendel (sax tenor), Kaveh Rastegar (baixo) e Nate Wood (bateria). Eles aprofundam essa relação entre o progressivo e o jazz, expandindo os limites da própria musicalidade, principalmente neste novo álbum, Anti-Hero.

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Os temas instrumentais são fortemente conectados, trazem um alto grau de complexidade, mas também uma preocupação com o lado mais atraente do som. Talvez não seja para todos os ouvidos, mas recompensa grandemente os ouvintes que estiverem dispostos a passarem pela experiência.

“Uprising” apresenta outra das características marcantes da banda: a utilização de distorção. Eles a utilizam para engordar os riffs, deixando tudo com uma veia roqueira notável, mesmo que não seja rock necessariamente. “Drum Battle” é uma jam de dez minutos, viajante, alternativa e progressiva. Vai de passagens mais “ambientes” à seções super intrincadas, com tempos complexos e ênfase na bateria. O ótimo riff de “The Ballonist” vai ficar na sua cabeça e as notas rápidas de sax em “Yes You” vão te deixar louco. No entanto, tanto a insanidade tresloucada cheia de notas quanto à riffaria pesada se unem harmonicamente para formar a identidade destes cinco músicos.

Neste conjunto de sensações, o quinteto faz a audição valer a pena. Piano, bateria, sax tenor, trompete e baixo se unem para executar as ótimas canções com timbragens precisas para a proposta e com cada instrumentista apresentando a flexibilidade necessária para os diversos solos e arranjos. Eles estabelecem uma saudável comunicação entre algo do rock progressivo e o fusion, sem fugir da ideia de ser essencialmente jazzístico e de ser, vez ou outra, climático. Também são bem dinâmicos, rejeitando a mesmice, explorando nuances diferentes e trabalhando bem a coesão entre elas.

Por essas e outras, o Kneebody, assim como diversos outros nomes, como o Donny McCaslin, Kamasi Washington e Snarky Puppy, anunciam o melhor do jazz instrumental no século XXI. Os conceitos do estilo se mantêm fortes, incisivos, mostrando que com o tempo, o gênero amadureceu, evoluiu e os artistas estão sabendo como aplicá-los à atualidade. Discos e carreiras tão interessantes nos deixam esperançosos para o futuro do estilo e nos fazem crer que trabalhos ainda mais frutíferos estão por vir.

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Steve Hackett – The Night Siren (2017)

Hackett une sonoridades do mundo todo para falar de união e paz sem pieguice

Por Lucas Scaliza

Como um dos maiores guitarristas que o rock já teve e uma formação musical ampla e clássica, Steve Hackett poderia facilmente tomar um caminho como o de Yngwie Malmsteen ou do conterrâneo Ritchie Blackmore, ambos extremamente técnicos e reconhecidos como precursores da guitarra neoclássica, fundindo escalas de blues com escalas da música clássica. Esses elementos mais eruditos estão no estilo de Hackett, sim senhor, e não é preciso fazer nenhum esforço para encontrá-los, seja em sua obra solo ou com o Genesis. Mas há um feeling diferente no que ele faz, há mais cor, mais melodia e embora sua técnica seja infalível, há muito material acessível e não cai no engodo do virtuosismo pelo virtuosismo. Caso isso não tenha ficado claro, o novo The Night Siren vem corroborar mais uma vez, com um leve acento pop que perpassa todo o disco, aliás.

Assim como em Wolflight (2015), Hackett continua explorando os modos gregos e diferentes tipos de escalas para poder fazer a música de diferentes partes do mundo. Como um artista progressivo, ele é um colecionador de referências e faz de tudo para incluir o mundo em seu caldeirão de ideias. De certa forma, The Night Siren nos coloca mais uma vez diante das mesmas fórmulas que Hackett já utilizara, mas com tantas melodias boas e harmonias sofisticadas que fica difícil não prestar atenção no que ele propõe (novamente).

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Assim, “Behind The Smoke” tem jeitão épico, “Martian Sea” é uma mistura de psicodelia pop com solo de instrumento do Oriente Médio e “El Niño” é quase uma faixa de trilha sonora de Mad Max, misturando orquestração, percussão bem marcada e guitarras distorcidas. “Fifty Miles From The North Pole” é uma dessas composições que Hackett ainda prepara com carinho para nos entregar o melhor do seu espírito progressivo, assim como “In The Skeleton Gallery” tem um solo de flauta de John Hackett que parece remeter à clássica “Firth or Fifty” e uma estrutura que vai do místico ao fusion jazz. “Anything But Love” é flamenco que se transforma em pop e então ouvimos a guitarra com vibratos e bends característicos de Hackett mais à frente; “Inca Terra” coloca o charango peruano para dialogar com as linhas supermelódicas do inglês e do cantor Nad Sylvan; “West to East” não é um dos momentos mais brilhantes de Hackett, mas é uma das mais acessíveis do álbum e trata das guerras em curso em nosso planeta.

Assim como nos discos anteriores, incluindo aqueles em que ele revisita o material do Genesis, há muito de Steve Hackett para se ouvir em The Night Siren. Ele sola o suficiente, canta o suficiente e toma a frente do palco o suficiente para você lembrar a quem pertence o show. Mas é notável, mais uma vez, como ele realmente deixa a música fluir e dá espaço a quem quer que seja para solidificar o lado mais world music do trabalho. Os vocalistas Kobi Farhi (de Israel) e Mīrā ‘Awaḍ (da Palestina), dividem espaço com uma cítara indiana, com um tar (instrumento tradicional do Oriente Médio), com a gaita de fole irlandesa e com músicos da Islândia e do Azerbaijão.

No final das contas, em nosso mundo moderno marcado pela globalização e pelas profundas diferenças culturais e sociais que evidenciadas por políticas nacionais, The Night Siren serve como uma declaração de intenção do guitarrista inglês. Para ele, o disco é como “a visão de um pássaro de um migrante musical que ignora as fronteiras e celebra nosso ancestral comum com unidade de espírito”. Não é a toa que a introdução do disco é um apelo sonoro à crise histórica dos refugiados.

Apesar de mais de 20 pessoas estarem ligadas ao álbum, o centro nervoso do projeto foi o próprio Hackett, sua esposa Jo e o tecladista Roger King (que também toca no The Mute Gods). Trocaram ideias musicais constantemente ao longo de um ano para produzir as 11 novas faixas. Hackett gravou tudo diretamente em um computador, com liberdade para experimentar diversas combinações de pedais e amplificadores simulados digitalmente (Mas não se engane, você nem percebe que a gravação foi feita dessa forma). Em outros casos, os músicos colaboradores gravavam suas partes e mandavam para ele e King ou iam até os músicos para gravar pessoalmente suas partes. Não foi trabalho fácil reunir músicos de tantos lugares diferentes em um mesmo produto.

Não é difícil ver comentário social na produção de Hackett. Um artista tão ligado à história, área de estudo e formação de sua esposa, não está alheio aos problemas do mundo, sejam eles globais (como os refugiados e as guerras) ou o abuso doméstico (tema da música “Love Song to a Vampire”, do disco anterior). The Night Siren é world music e rock progressivo para pregar a paz, sem soar redutor ou panfletário em faixa nenhuma.

 

Photo by Tina Korhonen © 2016, all rights reserved.

Soen – Lykaia (2017)

Mais um bom metal progressivo sueco que aposta na sensibilidade

Por Lucas Scaliza

Dado o quilate dos músicos que fazem parte do Soen (o baterista Martin Lopez já tocou no Opeth e no Amon Amarth, só para citar um de seus mais renomados membros), é possível esperar um nível de musicalidade e de técnica muito grande em cada um de seus álbuns. Na verdade, isso é um requisito básico, já que a banda faz metal progressivo. Assim, é natural que esperemos algo mais sempre, já que qualidade na execução é um requisito básico.

Lykaia, terceiro álbum do grupo sueco, é o seu melhor até agora, mais bem gravado (utilizaram apenas recursos analógicos) e com um excelente equilíbrio entre metal, rock e melancolia. Acordes embalam o ouvinte em ¾ (“Lucidity”, “Paragon”) ou mesmo tempo em que riffs quebrados dão a tônica dos momentos mais agressivos do álbum (“Sectarian”, “Opal”, “Sister”). Os solos de guitarra nunca descambam para o show off e exibem uma qualidade melódica marcante.

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Os timbres em Lykaia lembram mais os conseguidos pela banda em Cognitive (2010) do que no anterior, Tellurian (2014), e são um dos elementos mais interessantes do álbum. Contudo, embora seja um trabalho de qualidade que emociona e empolga, deverá te deixar com a pulga atrás da orelha caso seja um ouvinte abrangente do metal progressivo europeu atual.

A princípio, duas bandas também suecas parecem colidir no mix de referências que Lykaia evoca: Opeth e Katatonia, ambas em suas encarnações mais recentes, sem vocais guturais e mesclando muito bem elementos de rock com metal. Assim como essas bandas, o Soen aproveita muito bem o vocal mais grave de seu vocalista, Joel Ekelöf, mas fica evidente que sua amplitude vocal não permite voos muito altos, fazendo com que as faixas dependam mais da estrutura musical do que da melodia de voz para manipular a emoção do ouvinte e não parecerem muito flat. (Mas justiça seja feita: o refrão de “Jinn” é, sim, emocionante.)

Por sorte, a banda é boa. E não faltam ideias para que consigam se expressar musicalmente. “Orison” é uma das melhores faixas do álbum justamente por apresentar uma estrutura caprichada, do tipo que brinca com a dinâmica e a intensidade, repetindo-se muito pouco.

A banda Soen, assim, soa bastante como o metal sueco e europeu contemporâneo, sendo possível coloca-la ao lado de Opeth, Katatonia, Haken e, quem sabe, até dos alemães do Dark Suns. Contudo, fica aquele gosto de estar diante de algo especial, mas que talvez não seja tão original. Não é o caso de plágio, é claro, mas sim de já termos ouvido esse mesmo esquema musical não muito tempo atrás na obra dessas outras bandas citadas.

O tecladista Lars Ahlund poderia ter tido mais espaço, mas faz a diferença sempre que pode. A cozinha formada por Lopez e o baixista Stefan Stenberg parece o maior acerto da banda. A guitarra de Marcus Jidell não fica atrás, mas é nos detalhes (como em fills e solos curtos, ou as longas notas de “Lucidity”) que revela seu melhor lado.

Mesmo que Lykaia não seja um sopro de novas ideias para o metal progressivo, é um disco bastante bonito, bem feito e que aposta na sensibilidade, acima de tudo. Se não for para os melhores do ano, o novo disco do Soen vai pelo menos para a lista das boas indicações de metal de 2017.

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Pain Of Salvation – In The Passing Light Of Day (2017)

Um drama hospitalar dá origem ao disco mais pesado, difícil e dramático já concebido por Daniel Gildenlöw

Por Lucas Scaliza

Faz seis anos desde que a banda sueca Pain of Salvation lançou seu último trabalho inédito, Road Salt Two (2011). A banda não se manteve parada nesse tempo todo: fizeram turnês tocando material antigo e até lançaram um ótimo segundo álbum acústico há três anos (Falling Home), mas sentíamos falta do senso distorcido de beleza de Daniel Gildenlöw, o vocalista, guitarrista, principal compositor e letrista do grupo, que faz do PoS uma das bandas mais interessantes do metal progressivo europeu.

In The Passing Light Of Day é exatamente o que Gildenlöw disse que seria: mais pesado, complexo, duro e cheio de contrastes. É também um álbum difícil, sem a polidez da produção dos álbuns mais recentes e voltando com tudo para uma estrutura de composição que era muito mais presente nos três primeiros álbuns do PoS, mesclando faixas mais fluentes com outras cheias de contrastes de dinâmica, ternura e raiva, tudo permeado de mudanças de andamento e ritmos quebrados. A produção de Daniel Bergstrand deu timbres secos aos instrumentos e tirou do teclado o papel de instrumento que poderia criar uma cama, amaciando o som. As guitarras de sete cordas soam encorpadas nos registros mais graves e mais estridentes nos agudos, um contraste que é tanto a cara da banda como um certo descuido (desde sempre) com a timbragem. In The Passing Light Of Day é o Pain of Salvation mais cru e visceral desde The Perfect Element (2000), como atestam músicas como “Reasons” e a excelente “If This Is The End”.

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Baseado no tempo em que Gildenlöw permaneceu hospitalizado em 2013 por quase seis meses após ser infectado por uma bactéria carnívora nas costas. A princípio, não era um assunto que ele achasse que cairia bem a um novo disco da banda, que representaria uma nova fase e com uma ótima nova formação também, mas deve ter notado que o caso, quando olhado do ponto de vista reflexivo – pois ele foi submetido a uma cirurgia (que o deixou com um buraco nas costas), passou pelas piores dores que já havia sentido, podia ter morrido, podia ter ficado com graves sequelas que o impediriam de tocar, cantar, subir em árvores com os filhos ou fazer parkour – deve ter visto o potencial dramático do caso. E drama é algo que sempre esteve presente no PoS, seja contando como ainda garoto viveu seu segundo amor (Remedy Lane, 2002) ou criando uma história sobre uma suposta cunhada (Road Salt One, 2010).

A questão da polirritmia às vezes é tão “na sua cara” – em faixas como “Angels of Broken Wings”, toda a abertura de “On a Tuesday” e boas partes de “Full Throttle Tribe” – que fica claro como a banda usa a complexidade rítmica para representar um certo descompasso na vida de Gildelöw. Se fosse uma escultura, In The Passing Light Of Day seria uma dessas obras contemporâneas de metal retorcido cheio de arestas – algo bem dramático que, no caso do álbum, é uma síntese do progressivo com o metal alternativo.

Quando as primeiras composições novas começaram a surgir, Daniel Gildelöw disse que havia encontrado em seu novo guitarrista – Ragnar Zolberg, o loiro que raramente sorri – um parceiro que há tempos não tinha na banda. O primeiro single do trabalho, “Meaningless”, mostrava não só o poder metaleiro cru de sua guitarra, mas sua voz aguda, dando mais vida (e drama) ao refrão. Parecia que ele teria mais espaço individual do que o PoS jamais deu a outro membro. Contudo, embora os riffs arrastados de Zolberg façam a diferença, é Gildenlöw quem permanece no controle da situação do começo ao fim, seja sussurrando, narrando, vociferando ou criando uma melodia marcante. Ao vivo poderemos ter uma ideia melhor de como eles dividem suas funções e proeminências nas guitarras, por ora fica o destaque para o solo em “Angels of Broken Wings”. Apesar da falta de solos no álbum, contudo fãs de discos anteriores vão reparar em algumas melodias conhecidas sendo reaproveitadas aqui e acolá.

A faixa final, “The Passing Light Of Day”, coroa a tradição de grandes composições que fecham os álbuns do PoS (categoria que conta com “The Perfect Element”, “Beyond The Pale”, “Enter Rain” e “The Physics of Gridlock”). Com 15 minutos, a maior faixa já registrada em estúdio pela banda, ela até lembra a fase Road Salt até sua metade. Depois volta ao seu metal para um abrasivo e emocionante crescendo.

É bom ter o Pain of Salvation de volta. Embora seja difícil antever qualquer coisa que venha deles – tipo de som, temática, etc – qualquer ouvinte atento às bases do estilo, ou a estética fundamental, e não apenas à aparente, percebe que o grupo sueco sempre consegue permear sua obra com contrastes entre sofrimento e libertação, brutalidade e melodia, fluência e quebras temporais. O álbum se ajusta perfeitamente a isso tudo que faz parte do PoS, não importando muito se estão tocando metal ou rock setentista, disco ou rap, folk ou um épico progressivo. In The Passing Light Of Day não é o melhor trabalho que Gildenlöw já fez, mas com certeza supera os anteriores em carga dramática e visceralidade.

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Escuta Essa 05 – Só Os Tops!

Episódio 05 do Escuta Essa Review em clima de baladinha. Será???

O que achamos do esperado “Sorceress”, do Opeth, e do primeiro disco do duo carioca Bilhão, representante do cross over entre synthpop e MPB. E tem muito mais!

Outros artistas do episódio:
* Calvin Harris
* Testament
* The Naked And Famous
* Kansas
* deadmau5

Coloque seus fones, aumente o volume e divirta-se, porque hoje é tudo open bar!

Podcasts: http://soundcloud.com/escutaessareview
Facebook: www.facebook.com/EscutaEssaReview
Contato: escutaessareview@gmail.com

Resenha de “Sorceress”, do Opeth: goo.gl/0jq7gZ
deadmau5 recria tema de Stranger Things: goo.gl/Wh9E4c

Orbs – Past Life Regression (2016)

Superbanda manda ver no rock visceral e progressivo para contar histórias estranhas de vidas passadas

Por Lucas Scaliza

Não chore mais o fim do The Mars Volta. A banda Orbs é uma prima mais jovem, mais ansiosa e igualmente maluquinha em seu rock’n’roll criativo e nervoso. Do começo ao fim, Past Life Regression é uma rajada de músicas interpretadas com urgência pelo vocalista e guitarrista Adam Fisher, lembrando diversas vezes a banda punk Titus Andronicus. Existe certa ênfase na técnica, o que dá uma cara progressiva ao rock do quinteto e uma dinâmica de banda que alterna entre o rock de riffs poderosos do Muse e o psicodelismo do Of Montreal e do MGMT.

Não quero fazer parecer que o Orbs necessita dessas aproximações com essas bandas mais famosas para se definir. No entanto, eu, como um resenhista tentando pôr em palavras o som dessa banda, achei pertinente citar as bandas com elementos e estilos que parecem confluir para formar o som do Orbs. Definir sem referências fica ainda mais difícil no caso deste disco em que as faixas são camaleônicas. “Jaws On Repeat (Life On Hold)”, por exemplo, começa com uma levada psicodélica do teclado e da guitarra (o som do MGMT, a voz do Titus Andronicus) e vai ficando mais intensa, como acontecia no Mars Volta, uma dinâmica de guitarra, baixo e bateria que lembra o Muse ao vivo e um encerramento digno do Of Montreal. Mas e se eu disse que, apesar dessas comparações todas, a Orbs soa autêntica? E que Past Life Regression, em sua explosão roqueira e diversa, tem uma assinatura sonora própria?

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É exatamente isso o que ocorre com esse supergrupo e com este álbum. Mesmo que você curta uma das bandas mencionadas, não é certeza que você vai gostar da mistura sonora, mas vale a pena tentar, porque há qualidade no trabalho e nos músicos envolvidos. Dan Briggs, guitarrista, vem da pesadona e prog Between The Buried And Me; a tecladista Ashley Ellyllon é egressa das bandas de black metal Cradle Of Filth e Abigail Williams; o cantor Adam Fisher era da banda experimental Fear Before The Marcho of Flames.

Completam o time o baixista Chuck Johnson e o baterista Matt Lynch (substituindo Clayton “Goose” Holyoak) que, apesar de não terem feito parte de bandas conhecidas, fazem um trabalho primoroso em Past Life Regression. Afinal, quando há um repertório lotado de canções que mudam de dinâmica constantemente, você PRECISA de uma cozinha que acompanhe com precisão e a força necessária. A nervosa “These People Are Animals” mostra justamente como Lynch moi o kit de bateria e Johnson propõe ótimas linhas de baixo o tempo todo.

Embora soe mais jovial que o The Mars Volta e o At The Drive-In, a Orbs faz parte da mesma estirpe: uma banda que presa pela criatividade e procura meios de perverter as composições, transformando-as em coisas que ouvintes possam exclamar: “Nossa, que louca essa parte!” A recusa de fazer uma música linear e fácil de digerir é o que garante a originalidade da proposta. Nem mesmo os vocais facilitam para o ouvinte, alternando entre o intenso, o raivoso, o infantil, o arrastado e o limpo (como na faixa “Exploded Birds”), interpretando diversos personagens na mesma faixa. Afinal, trata-se de um disco conceitual com “histórias de reencarnação e suas mais estranhas formas”.

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Goste ou não do resultado final, tenha ou não você paciência para chegar à metade do álbum, saiba que não deve desconfiar da qualidade musical dos envolvidos. Nenhum músico mostra preguiça, não há uma levada que não valha a pena prestar atenção e os climas criados por Ashley Ellyllon são certeiros para o som do Orbs ter uma qualidade viajante e etérea que sabe a hora de aparecer e a hora de dar lugar ao rock’n’roll ágil. É uma banda plural que usa a sua pluralidade com muita inteligência – mas não tenta, nem por um minuto, sacrificar essa pluralidade para agradar quem prefere uma música mais linear. Past Life Regression exige do ouvinte a mesma pluralidade.

A descrição da banda para seu som era, há algum um tempo, era uma tentativa de representar o espaço e a natureza. Embora isso ainda possa ser encontrado em faixas como na melancólica “Giving Tree Hanging Me”, parece ser uma declaração mais restrita ao primeiro álbum, Asleep Next To Science (2010). O novo trabalho tem cara de ópera rock, com variações de dinâmica e intensidade coordenados para combinar com o desenvolvimento da narrativa e dos atos do personagem.

Com as bandas At The Drive-In e The Mars Volta fora dos estúdios, o Orbs acaba sendo a banda de rock experimental e progressivo que preenche a falta de um som tresloucado, visceral e bem calculado. E eles entregam o que prometeram e vão além. Não é preciso ter ouvido todas as bandas citadas para entender o que se passa com esse supergrupo, mas só mesmo ouvindo “Death Is Imminent (However, Relative)”, “Dreamland II”, “El Burro” e “Peculiar, Isn’t It?” para ter noção de verdade do que eles propõem e de como são originais.

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Dark Suns – Everchild (2016)

Banda alemã chega ao ápice criativo misturando metal, jazz, progressivo e toneladas de melodias cativantes

Por Lucas Scaliza

A safra de música heavy metal de 2016 está muito superior à dos anos anteriores. Não que não tivesse um ou outro destaque, mas este ano o metal voltou a ser instigante e parecer muito menos acomodado que no passado (vide o caso do Dream Theater). Algo que também chama a atenção é o quanto as bandas têm arriscado, colocando a criatividade acima de qualquer “obrigação” de manter uma certa sonoridade (caso de Affinity do Haken e o vindouro Sorceress do Opeth). Everchild, quinto disco dos alemães do Dark Suns, é a cereja em cima do bolo do metal progressivo, nos presenteando com um trabalho incrível. Se faltava algo para a banda ascender ao primeiro escalão do prog metal, era este disco.

Para começar, eles não se importaram em misturar diferentes gêneros musicais e incluir ideias ousadas ao seu metal, transformando-o em algo muito mais complexo e difícil de definir. As duas músicas que abrem Everchild – “The Only Youn Ones Left” e “Spiders” – vêm com um leve toque jazzístico em meio à guitarras com overdrive mantendo a animação das faixas. Já “Escape With The Sun” é um rock progressivo que vai dos teclados setentistas ao blues rock moderno. Transcendendo o metal progressivo, os alemães pisam no terreno que podemos chamar de fusion prog metal.

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Em termos de jazz, o Dark Suns se revela em toda sua sensibilidade em “Monster”, canção lenta, melodiosa e extremamente bem feita. Um guitarra bate os acordes com distorção leve (para não esquecermos de que se trata de rock), outra faz dedilhado, um piano e o trompete dão a tônica jazzística. A melodia, em dueto, é um aceno à melhor contribuição do metal melódico para o álbum e para o metal em geral. Uma faixa corajosa, para um disco de metal, que mostra não só a pretensão da banda, mas a capacidade de fazer algo que foge completamente à expectativa de seus ouvintes.

Em termos de metal, não espere nada próximo ao death metal que fizeram no início da carreira. Assim como Opeth, os heróis do Dark Suns, a banda evoluiu bastante a sua forma de encarar a música e mostrou uma abertura sonora surpreendente em Orange (2011), quando o fusion ficou sério, e em Grave Genuine Human (2008), trabalho em que seu metal mostrou mais preocupação artística do que vontade de agradar a fãs presos às velhas fórmulas do estilo. Os vocais de Everchild são quase sempre suaves para acompanhar canções de fundo melancólico (e aí há uma proximidade com a fase mais recente do Katatonia). Ao mesmo tempo, usam timbres mais clássicos para seus instrumentos. O teclado de Ekkehard Meister em “Codes” e em “Morning Rain” soa vintage, como o do Opeth em seu Sorceress.

Mesmo sendo mais diverso que Orange, Everchild é menos esquizofrênico que seu antecessor. “Unfinished People” tem tanto uma pegada mais obscura como mais moderna, frente à beleza singela da balada “The Fountain Garden”, às melodias supercativantes de “Torn Wings” e ao refrão poderoso de “Everchild”, saciando a vontade de guitarras pesadas do ouvinte.

É nesse equilíbrio entre peso, intensidade, levadas roqueiras, levadas jazzísticas, quebras progressivas, ótimas harmonias e uso de melodias expressivas que Everchild se faz um dos melhores discos de 2016 e a obra mais vistosa já criada pelo Dark Suns até agora. As duas últimas faixas, ambas com mais de 10 minutos de duração, fazem um grand finale digno dos melhores discos do século 21 do estilo, passando por bandas como Tool, Pain Of Salvation, Dream Theater e o próprio Opeth. A sofisticação sonora de “Morning Rain” e “Yes, Anastasia” (um cover de Tori Amos) não difere do que foi apresentado nas nove faixas anteriores, fechando um ciclo que cria uma ponte entre o metal, o rock, o progressivo e o fusion dos últimos 20 anos utilizado por bandas da Europa continental, da Inglaterra e dos Estados Unidos. Acredito que nem mesmo o Dark Suns tenha noção dessa amálgama sonora que conseguiu criar sem que essa diversidade de referências soe pastiche, mas está tudo em Everchild para que perceba qualquer um que tenha acompanhado o heavy metal nos últimos anos.

A banda apostou alto dessa vez, inclusive em termos financeiros. Usaram todo o dinheiro recebido como adiantamento para custear o aluguel do estúdio Funkhaus, em Berlim, com o produtor Yensin Jahn. Para financiar a mixagem feita pelo produtor Peter Junge em Londres, abriram um crowdfunding – o que diz muito também sobre a qualidade e confiança dos fãs do Dark Suns. Dessa vez o vocalista Niko Knappe concentra-se apenas nos vocais, deixando as guitarras para Maik Knappe e Torsten Wenzel, que fazem uma dupla e tanto, nunca competindo um com o outro, e sim complementando-se. O baixista Jacob Müller se dá muito bem no jazz e cria linhas marcantes para as faixas mais lentas. Dominique Ehlert agora é o baterista oficial do grupo e simplesmente destrói em Everchild. Ao lado de Meister nos teclados, é o músico que se mostra mais versátil, indo do metal ao jazz, do rock à balada, sem deixar de propor uma dinâmica prog que perpassa todo o álbum. Por fim, Govinda Abbott e Evgeny Ring entram para a banda definitivamente no trompete e no saxofone alto, respectivamente, adicionando os bem-vindos elementos de jazz.

Em termos de metal, eles conseguiram um som desafiante e inovador. Em termos artísticos, chegaram ao ápice de sua criatividade demonstrada até aqui. Elevaram o grau de comparação não só para si mesmos, mas para as outras bandas também.

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