rock psicodelico

Strand Of Oaks – Hard Love (2017)

O carisma do indie, o combustível do hard rock clássico e influência de LSD

Por Lucas Scaliza

Um pouco de folk rock nas levadas. Mas soam como hard rock, porque ele usa guitarras com uma boa dose de distorção e fuzz. E mesmo sendo o bom e velho rock’n’roll de sempre, há algo de moderno no som. Não chega a assustar, mas pode incomodar. Hard Love, do Strand Of Oaks, o quinto disco composto pelo músico Timothy Showalter, é definitivamente um registro que não pode passar desapercebido.

“Hard Love”, que introduz o álbum, bebe na fonte de Ryan Adams e não mostra a sonzeira que vem a seguir. “Radio Kids” e “Everything” resumem o que ele é capaz de fazer. Você não vai perceber nada de muito diferente de outras canções de rock que ouviu nos últimos 10 anos, principalmente se deu uma boa rodada entre o que há de indie e psicodélico à disposição, mas vai gostar. E conforme o disco avança, vai perceber que está totalmente tomado ou tomada pela energia de suas batidas e pela barulheira de sua guitarra. O fuzz exagerado em “Salt Brothers” vai soar fora de lugar, mas como uma ótima ideia ainda assim. O psicodelismo de “On The Hill” te pega desprevenido e então você exclama: “Uau, que puta som!”.

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É verdade que “Cry” interrompe o poderio de fogo do Strand Of Oaks e que “Quit It” poderia ser uma faixa melhor, mas cumprem seu papel de tentar equilibrar o álbum pisando um pouco no freio e trazer interferências que não são musicais ao trabalho. Paciência. Todo mundo pisa na bola, até o Pink Floyd e o Iron Maiden. Mas desculpe a bagunça e não desista de Showalter ainda. O importante é que ele percebe o que fez e já manda “Rest Of It” para recuperar nossa fé em Hard Love. Faixa bem colegial e com um solo daqueles que te faz lembrar (caso tenha idade para isso) do Marty McFly em De Volta Para o Futuro (fato recentemente relembrado pelo Gabriel Sacramento neste podcast).

E o melhor fica para o final. Voz mais rouca, ritmo menos alucinado e paisagem sonora lisérgica fazem de “Taking Acid and Talking to My Brother” o grand finale espetacular em que os grandes vencedores são o rock e o som do pedal de fuzz.

Se não ouviu falar de Strand Of Oaks, é uma boa começar com Hard Love, seguir para Heal (2014) e assim conhecer o que Showalter tem a oferecer. Se já viu o nome dele por aí, dê o play. O disco interpola o folk com o rock psicodélico, constrói algumas de suas canções com o carisma do indie e com o combustível do hard rock clássico. É ótimo.

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The Flaming Lips – Oczy Mlody (2017)

Disco deixa espaços demais entre boas canções

Por Lucas Scaliza

Claramente, Oczy Mlody, é um todo coeso e belo. Para quem esperava um álbum mais amigável para o público, como eu, acabou se deparando com um misto de canções – como aquelas que Wayne Coyne compôs em discos dos anos 90 e início dos 2000 – e pirações psicodélicas instrumentais que não são pesadas como em The Terror (2013), o disco mais difícil do The Flaming Lips, mas também não deixam de representar um desafio para o ouvinte menos acostumado a longas músicas ambiente.

Assim, embora a ideia sonora que perpassa o trabalho seja um primor, nem sempre as canções funcionam bem, podendo causar tédio em alguns momentos, principalmente se o ouvinte não estiver no momento mais viajante de seu dia.

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“Oczy Mlody”, a linda introdução, dá o tom para músicas como “How??”, “Sunrise (Eyes Of The Young)”, “The Castle”, “We a Family” (esta com participação de Miley Cyrus) e a primeira parte de “There Should Be Unicorns”, todas com potencial para embalar o ouvinte e, de fato, representam o melhor do Flaming Lips neste novo disco. Mesmo que existam algumas interferências mais psicodélicas, que servem justamente para tirar um pouco da segurança do ouvinte, elas não são nenhum desafio.

O restante das faixas serve muito mais como exploração de texturas e experimentação do grupo, uma lembrança de um lado musical de Coyne e Cia que realmente é capaz de afundar na psicodelia enevoada. “Nigdy Nie (Never No)”, “Galaxy I Sink”, “Do Glowy” e a longa “One Night While Hunting For Faeries And Witches And Wizards To Kill” se desenvolvem ao longo de diversos tipos de sons de teclado e sintetizador e um baixo que ora soa orgânico, ora eletrônico, ora distorcido. Aliás, a mistura dos timbres de baixo e sintetizador é o que move a estética de Oczy Mlody até o fim da audição.

Todas as faixas são tristes, noturnas e cósmicas, como se a viagem de ácido nos tivesse levado para um espaço repleto de estrelas néon. Há conforto nessa vista, mas estamos em gravidade zero, à deriva.

Levando em conta diversos fatores, dá para dizer que o álbum começa bem, termina bem (Miley Cyrus se beneficiou muito da parceria com a banda e vice-versa) e em seu miolo tem várias ótimas ideias, mas as explorações instrumentais tomam tempo demais e tornam a paisagem sonora turbulenta. É claro que isso tem um lado positivo, que é a recusa do Flaming Lips de se tornar mais pop e menos exigente, contudo Oczy Mlody parece dividido entre dois universos e não decide em qual deles quer ficar.

Os singles se salvam todos, mas teremos que esperar mais alguns anos se quisermos ver o palco de Wayne Coyne transformado em uma festa surreal novamente, com papel picado, serpentina e bolas coloridas. Por enquanto, reflete apenas a nossa tristeza interior.

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Headless Buddha – Homesick (2016)

Uma viagem psicodélica que surpreende até a última faixa

Por Lucas Scaliza

Estou viajando desde o mês passado. Não é a trabalho e nem para fazer turismo. É aquele tipo de viagem que só é proporcionada por sons capazes de eletrificar as redes neurais, preenchendo nossos neurotransmissores com informações que nos fazem espontaneamente bater o pé e jogar a cabeça para frente e para trás. E os pensamentos voam. É como se fosse uma droga, mas não é preciso fumar e nem cheirar. Injetar sim, mas através de fones, não de agulhas. A absorção ocorre pelos ouvidos,  e não pela corrente sanguínea, chegando diretamente ao cérebro.

Em fevereiro Mauro Sanches forneceu um link privado para que eu pudesse ouvir e avaliar o seu primeiro álbum completo, o fantástico Homesick. Já conhecia o EP Soul River (2014) que mostrava que Sanches não era brincadeira: sua música é psicodélica desde a raiz. Cada acorde, solo e fill em sua Fender soa como um guitarrista do estilo deve soar desde os anos 60. E como a música psicodélica contemporânea é bastante retrô e vintage, Sanches está mais do que em dia com o estilo.

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Mas não procure pelo nome do homem por trás da música. Procure por Headless Buddha, nome que Sanches adotou em 2013 para dar vazão aos sons viajantes e sofisticados que cria. O nome surgiu quando Mauro acidentalmente derrubou sua pequena estátua de buda ao chão, separando o corpo da cabeça.

Homesick é todo cantado em inglês, no entanto encontra-se tanto a tradição anglo-saxã do estilo como laivos da música brasileira. A primeira comparação que vem a nossa cabeça é o Boogarins, a banda brasileira que voltou à raiz do estilo e conseguiu projeção internacional (embora ainda seja indie quase hipster em termos de público). Contudo, a vastidão sonora das 12 faixas cobre desde baladas até o lado sombrio da psicodelia (como “Oblivion”), daqueles tons maiores vivazes até uma enigmática passagem western com castanholas e coral (“Nightmares Out Of Nothing”). É Tame Impala e Unknow Mortal Orchestra, é Jefferson Airplane , Beatles e Temples, é tropicália e Mutantes, e a lista segue.

Para que o Headless Buddha tenha essa identidade tão forte, Mauro Sanches lança mão de uma série de pedais de expressão para criar em sua guitarra o ambiente perfeito para sua música. Cabe ressaltar que há bastante reverb no som dele, fazendo com que muitos instrumentos soem profundos. Há outro tanto de ruído e notas saturadas. Essa falta intencional de limpidez (a curta “I Saw Her Going” exemplifica muito bem isso) dá a característica garageira e underground do trabalho.

“Stay”, “Alive” e a poderosa “Black Hole” são a trinca que abrem Homesick e já te colocam em estado permanente de viagem.  Em “Source” temos uma música mais inglesa, repleta de ruídos e interferências.  Em “Pages”, em meio à percussão insana e desregrada, surge um saxofone conduzindo nossa atenção e roubando a cena até mesmo da voz.

É muito salutar como Headless Buddha consegue quebrar a linearidade das faixas e deixa a composição vagar por onde quiser – ou precisar – sem remeter ao mesmo riff, tema ou refrão continuamente. A impressão geral é que a as músicas possuem uma estrutura, mas vale mais a pena a viagem total de cada uma e não apenas o ápice dinâmico. Isso abre precedentes interessantíssimos para se explorar ao vivo, podendo brincar ainda mais com as músicas, chegando ao ponto de “desmontá-las” (como o Tame Impala já mostrou ser capaz de fazer em um registro ao vivo) ou expandi-las com improvisações na guitarra, no teclado e no sax.

As imprecisões são parte da graça de Homesick, um pouco como ocorre também com as meninas do Hinds e com o clima geral das meninas do Savages. A voz de Mauro Sanches é suave e quase sempre mantém um registro mais agudo que, somado às melodias bem feitas e viajantes, adequa-se totalmente à proposta. Apesar da dose de rock’n’roll e das pirações ácidas, o compositor soube fazer músicas que podem se comunicar bem com qualquer ouvinte. Não é de se espantar que “Alive”, com seu baixo constante e regular, dê vontade de dançar. E “Stay” é um achado, a mistura perfeita de psicodelia, estrutura de música pop, um quê de ambição e um refrão marcante.

O mainstream, infelizmente, não comporta uma sonoridade como a do Headless Buddha, mas assim como o Boogarins, Tame Impala e Unknown Mortal Orchestra, Mauro pode encontrar em formas de divulgação alternativas o nicho de apreciadores de uma experiência sonora como a que propõe. O disco é ótimo e cada música vale a pena por seus próprios méritos. Não é nem preciso estar chapado para apreciar. O próprio som cria esse efeito em você.

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