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Grace Potter – Midnight (2015)

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Ela não perde a veia roqueira, mas cai na balada (e sem os Nocturnals)

Por Lucas Scaliza

Você já viu a Grace Potter ao vivo com os Nocturnals? Seja por sua ótima voz ou pela beleza da moça, se um dia chegar a assistir uma de suas apresentações ao vivo verá que se trata de uma musicista que faz valer a pena o preço do ingresso. Ela canta, toca guitarra, agita o público, nunca perde a pose e nem o fôlego. Seus discos não são exatamente assim: bem entrincheirada no pop/rock, com algumas influências de soul e de country (com exceção do primeiro disco dela com os Nocturnals, Nothing But The Water [2005], que é muito mais folk e country), ela não faz discos cheios de intensidade e arrebatamento. Mas em cima de um palco a coisa muda de figura. Não é a toa que Grace Potter And The Nocturnals é uma banda já bem estabelecida e querida nos Estados Unidos.

Com exceção de alguns momentos em que ela resolve mostrar a extensão de sua voz ou os bons solos de seu guitarrista, geralmente a linha seguida em discos como This Is Somewhere (2007) e Grace Potter and The Nocturnals (2010) é mais equilibrado e feel good. Sem falar em The Lion The Beast The Beat (2012), o mais pop de toda a sua discografia até agora.

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Após passar uma década gravando e excursionando com os Nocturnals, Potter resolveu fazer um álbum solo, Midnight. Ela mantém a veia roqueira que lhe é característica, mas não força a barra, fazendo-o soar muito mais pop e eletrônico. Canções como “Alive Tonight” e “Your Girl” seguem muito a perspectiva de La Roux em seu Troubles in Paradise (2014). E também temos faixas poderosas, como a abertura “Hot to Touch” e a ótima “Delirious”, que termina com uma dinâmica tão alta que fica impossível não reconhecer Grace Potter em um de seus melhores momentos. “Empty Heart” é o rock soul que explode em um coral gospel, outro acerto de Grace.

Ela não cai no ultrapop e nem está migrando do rock/country para o pop, como fez a Taylor Switft em seu 1989, já que suas referências são outras. A comparação com Janis Joplin ainda é válida, mas dada a natureza de suas novas músicas, diria que há algo de Cindy Lauper em Midnight. Mas ainda há rock. Se “Look What We’ve Become” fosse mais pesada, poderíamos até achar que trata-se de uma faixa do Dead Sara. “Instigator” também é super guitarreira e animada. Em diversos momentos, a voz de Potter está mais rasgada em seu disco de sonoridade pop do que estava em todo o The Lion The Beast The Beat. Além do excelente refrão, “Biggest Fan” tem um jeitinho cativante de ser pop que faz dela outra dos melhores momentos do trabalho. Já “Low” parece que será mais experimental, depois dá uma guinada meio folk e cai em um refrão bem fácil. Talvez a faixa mais “estranha”.

Ela dá algo aos fãs do Nocturnals também. “Nobody’s Born With a Broken Heart” é uma canção que foge da estética de Midnight, mas poderia estar em qualquer outro dos registros passados da cantora. E o mesmo pode ser dito de “Let You Go”, a balada de fim de relacionamento que fecha o disco. São as duas músicas mais orgânicas e que parecem mesmo ter sido gravadas por Potter ao lado dos Nocturnals. “Miner”, a outra balada do disco, é muito mais pop, por exemplo.

Às vezes a carreira solo é uma quebra drástica com o estilo de uma banda principal. O Thom Yorke, por exemplo, deixou o rock e experimental do Radiohead para exercitar seu lado mais eletrônico e trip hop. Até mesmo Bruce Dickinson passou pelo rock clássico e grunge antes de voltar ao metal em sua carreira fora do Iron Maiden. Ou então Brandon Flowers que deixou o indie rock de escanteio para investir em pop anos 80 em voo solo. Grace Potter sozinha abre uma mesa bem ampla de possibilidades com o disco solo, mas ainda reconhecemos cada pedacinho dela. Sua música não ficou mais ou menos exigente, nem se destina para um nicho específico. Aliás, o que não falta em Midnight são canções com potencial radiofônico. Ao que parece, para qualquer lado que a loira for, vai dar certo.

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Brandon Flowers – The Desired Effect (2015)

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De volta ao coração dos anos 80

Por Lucas Scaliza

O indie pop bonitinho do The Killers não é suficiente para seu vocalista, Brandon Flowers. Não contente com a inclusão de baladas menos roqueiras e mais eletrônicas no repertório de sua banda, o vocalista encarou o desafio de fazer um álbum solo e foi bem sucedido com Flamingo (2010), entrando de vez em outras paragens que não o indie rock, mas ainda deixando muitos rastros do estilo de sua banda aqui e ali. Cinco anos depois, Flowers desenvolve sua versatilidade musical e lança o ótimo The Desired Effect, seu segundo trabalho solo e que confirma a boa voz e a boa mão para compor.

Assim como o Unknown Mortal Orchestra fez um disco recheado de funk setentista e gravado de forma analógica e crua, fazendo parecer que Multi-Love é mesmo um espécime lá de 1973 ou 75, The Desired Effect é todo oitentista e pode passar despercebido por um disco lá de 1984, e não de 2015. Aliás, Flowers nunca soou tão parecido com Fred Mercury e Queen como neste novo e dançante trabalho.

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Brandon Flowers é um bom vocalista no The Killers e um bom frontman, mas seu trabalho solo evidencia uma maior liberdade para cantar, experimentar e interpretar as canções. Embora os dois pés no pop feliz possam assustar o roqueito indie ocasional que comece a ouvir The Desired Effect, vale a pena ressaltar que nem tudo é tão solar quanto a faixa inicial “Dreams Come True”. Ao longo do álbum, Flowers e o produtor Ariel Rechtshaid incluíram muitas baterias eletrônicas, mas baterias comandadas por músicos convidados também. Além de ótimas partes de sopro e muitos sintetizadores que transmitem tanto a vibe oitentista pretendida pelo artista quanto uma atmosfera de sonho. “Can’t Deny My Love”, primeiro single do trabalho, é totalmente retrô e uma faixa e tanto. Difícil não resistir a imagem de um clube noturno quando seu refrão explode.

É o próprio Flowers quem comanda os teclados e sintetizadores no álbum. E eles fazem a diferença no tom geral do disco, sendo o principal instrumento de “Still Want You”. Mas o baixo de Ethan Farmer também está calibrado para soar como o instrumento soava há 30 anos. E todas as linhas de baterias, desde as gravadas por Kenny Aronoff (que já tocou com Bom Jovi, Tony Iommi, The Smashing Pumpkins, Elton John, Meat Loaf e Lynyrd Skynyrd, entre outros) até aquelas assumidas por convidados, como Danielle Haim (das HAIM), o parceiro de Killers Ronnie Vannucci Jr. e Joey Waronker (que já gravou com R.E.M, Beck e Atoms For Peace), estão timbradas e processadas para não fugirem na referência anos 80. Daí vem a sonoridade quase alternativa de “I Can Change”, a balada “Never Get You Right” e a dançante “Lonely Town”, outra ótima faixa do álbum com um clipe interessante que propõem uma leitura mais sombria da canção, aproveitando-se de dois versos que colocam a segurança da personagem em xeque.

“Diggin’ Up The Heart” é o momento mais Queen e parece saída de algum musical. Um dos únicos momentos em que vemos uma guitarra levemente distorcida participar ativamente da condução da música com acordos e riffs. O guitarrista que figura no disco é Ted Sablay, um multi-instrumentista já velho conhecido de Flowers que atua como músico de apoio do Killers nas turnês. “Untangled Love” não fica muito atrás. É animada e festeira como o rock/pop de um The Police e uma música de alta rotatividade da MTV dos anos 80. Para fechar, a balada “The Way It’s Always Been”, a música menos histriônica e mais pé no chão, com um pezinho no final dos anos 60 e os sopros de Ron Francis Blake chegando no momento exato em que são necessários para fazer da faixa algo mais.

Absolutamente tudo em The Desired Effect mira o rádio e as pistas, mas o gosto retrô e anos 80 que Flowers e Reichtshaid extraem de cada refrão, cada virada da bateria e cada vez que o sintetizador entra em cena dá um gosto especial ao material. Eclético e flexível, vai do mais direto (“Dreams Come True”) ao dançante (“Can’t Deny My Love” e “Lonely Town”), passando pelo romântico (“Between Me and You”, com teclados de Bruce Hornsby, que fez sucesso na década de 1986 com a banda The Range) e flerta com o rock. É um álbum cheio de groove e de força que pede potentes falantes para espalhar sua musicalidade.

O risco de cair no brega era grande, mas parece que ele não tenta evitar. Embora tenha muito bom gosto, detalhes de diversas músicas soam como aqueles modismos da década que acabam denunciando a origem da canção. Mas nada que chega a estragar o resultado final, muito pelo contrário: parece até que o cantor e compositor está prestando uma homenagem ao seu próprio passado.

O brasileiro Silva é outro que já produziu dois discos com sonoridade anos 80, mas no caso do capixaba os anos 80 acabam sofrendo uma reinterpretação mais próxima de experiências contemporâneas. Já Brandon Flowers parece querer resgatar a década e parecer-se com ela, sem muita reinvenção. E ele consegue. Seu quarto, sua sala, sua casa toda podem virar uma pista de dança ao som dos refrãos que criou.

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Trickfinger – Trickfinger (2015)

Trickfinger

Frusciante perdeu o interesse na composição tradicional e mostra álbum de acid house

Por Lucas Scaliza

Se você espera que o John Frusciante volte a tocar com os Red Hot Chili Peppers ou se espera vê-lo de volta ao rock ou ao funk que o tornaram tão conhecidos, esqueça. Desde que deixou o RHCP, Frusciante passou a se dedicar a tipos de música muito diferentes do que vinha fazendo mesmo solo.

Ele não abandonou a guitarra, mas a colocou em contato com o hip hop, com o trip hop, com música eletrônica alternativa e chapada. Em 2014 ele lançou o ótimo Enclosure, que misturava sua guitarra, seu vocal rouco e diversas batidas eletrônicas quebradas e multifacetadas. Agora, sob o codinome Trickfinger, ele abandona o rock, a voz e a guitarra para fazer música eletrônica.

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Não faz muito tempo, ele declarou que já não gostava de fazer turnês extensas e nem de se apresentar ao vivo, o que era então um martírio para ele enquanto esteve no RHCP. Recentemente, para explicar seu novo álbum, Trickfinger, afirmou que passou a perseguir seu sonho: fazer música eletrônica e ser seu próprio engenheiro, cuidando de todas as etapas da produção de cada música. Tocando com diversos sintetizadores e música baseada em samples por 10 anos (o que vemos em seus discos solo), ele percebeu que esses aparelhos forçaram os programadores a descobrirem (e desenvolverem) um novo vocabulário musical.

Então, em 2007 o próprio Frusciante começou a programar todos esses instrumentos digitais e/ou eletrônicos. Chegou a colocar para tocar até 10 dessas máquinas de uma vez, todas ligadas a um mixer. Era como uma banda, mas tudo programado. O resultado foram faixas de acid house experimental. “Minhas habilidades no rock não tiveram qualquer papel nisso aí. Eu perdi o interesse no jeito tradicional de compor e estou animado com a descoberta de novos métodos para criar música. Me cerco de máquinas, programo uma delas e curto o que foi um processo fascinante do início ao fim”, ele declara.

Você não reconhece Frusciante em nenhuma parte de Trickfinger. Ou pelo menos, não reconhece o cara cabeludo que costumava tocar guitarra. O “truque do dedo” aqui não acontece mais nas seis cordas de uma Fender ou Gibson, mas com diversos botões e aparelhos que disparam batidas, efeitos e melodias diferentes.

É bom deixar claro que Frusciante não faz música para baladas. Embora seja dotado de experiência suficiente para fazer músicas boas e com potencial comercial, ele simplesmente não está mais interessado nisso. Mesmo sua música eletrônica é alternativa, não é cativante de cara. Ainda assim, é acid house, ou seja, é uma música em que você identifica facilmente a métrica, seus loopings e prevê para onde ela vai e quais são seus elementos. Ainda não é uma música eletrônica como Thom Yorke apresentou em Tomorrow’s Modern Boxes (2014), mais etérea e fantasmagórica, descolada de sonoridades que evoquem materialidade.

Em diversos momentos, como em “Before Above”, soa como uma música retrô ou que ficaria melhor localizada nos anos 90. Ecos de Daft Punk e de eurodance também estão presentes como elementos ao longo do disco, mas nunca como estilo. “Rainover” tem bateria e baixos eletrônicos bem feitos e melodias ágeis que se complementam. Dá para ver que Frusciante conhece o panorama da música eletrônica e sabia onde queria chegar com sua experiência. Com uma enorme miríade de sons diferentes a sua disposição, ele aglutina-os e usando a inserção deles como elementos diferenciadores que mantém a faixa interessante. Como há muitos loops, não há refrãos para facilitar a audição. Mas há melodias que se repetem para nos lembrar do que estamos ouvindo.

O grande trunfo de Frusciante é ter reaprendido a ser músico. Não há partitura, não há notação musical rígida. Mas ele realmente “toca” os sintetizadores e máquinas sonoras que estão à sua disposição. Ele precisou aprender a extrair sons, notas, tonalidades e timbres de cada um e programá-los, que é o equivalente a tocar. Não são meramente sons sendo feitos todos por um programa de computador. É um misto de orgânico e eletrônico. Um músico sendo um músico, mas de um jeito diferente do que insistimos chamar de convencional.

Não ouça o disco esperando encontrar o guitarrista. E não julgue Trickfinger com os ouvidos de quem um dia conheceu o cara que gravou Californication, Arcadium Stadium ou The Empyrean. É preciso pensar diferente para avaliar o que Frusciante traz de diferente.

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Scott Weiland & The Wildabouts – Blaster (2015)

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Rock divertido e sem culpa, mas que já chega acompanhado de uma perda

Por Lucas Scaliza

Scott Weiland é sinônimo de diversão, de rock bom e divertido. E Blaster é isso mesmo. Nada de arte, nada de grandes exibições técnicas. É rock’n’roll para festa, para ouvir no carro, para agitar a galera, para ser só música de entretenimento sem culpa. Mas uma boa música de entretenimento

(Portanto, não vá esperando ambições artísticas como as recentemente demonstradas por Steven Wilson e seu Hand. Cannot. Erase. ou Steve Hackett com seu Wolflight, ok? Estão mais próximos de Tom Petty & The Heartbreakers.)

Faça o teste: ouça “Bleed Out” sem querer sair dançando. Ou os riffs westerns de “Youth Quake” sem ser contagiado pelo ritmo e pela levada do baixo. Não faz mal que tudo parece simples demais. É um tipo de rock que remete aos anos 80 no jeito de evocar guilty-pleasures e aos anos 90 no jeito de ser direto e guitarreiro. Dúvida? Coloca para tocar “20th Century Boy” e logo no gritinho inicial você vai entender.

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Embora não seja nada de proporções épicas e não tenha originalidade nenhuma para tornar Weiland, os Wildabouts ou o álbum lendários no mundo do rock, digo sem medo que Blaster sozinho sabe divertir e ser melhor do que quase tudo que o Bon Jovi tem lançado nos últimos anos. E ainda tem o blues rock com ótimo refrão de “Way She Moves”, a arrastada “White Lightning” e a comercial “Blue Eyes”, sem falar na simples e inocente “Beach Pop”.

Em um álbum em que quase todas as músicas parecem ser fortes candidatas a single radiofônico, fica a certeza de que os shows podem ser ótimos, já a plateia, mesmo que não conheça Blaster, não deverá ter dificuldade de se identificar com qualquer coisa que seja tocada do álbum. E em meio a tudo isso, duas chamas a atenção. “Parachute”, que se permite ser um pouco mais viajante, e a excelente “Circles”, que troca as guitarras pelo violão dedilhado e faz um western bem bonito com ótimos arranjos.

Scott Weiland é um bom vocalista para rock’n’roll. Ele sabe de suas limitações e nunca passa do ponto. Não é incrível, mas é eficiente. Ao vivo então, nem se fala, sobretudo por conta de sua tendência de ser showman e realmente entreter a plateia. Os Wildabouts que o acompanham nessa empreitada são Tommy Black na bateria, Danny Thompson no baixo e Jeremy Brown na guitarra. São apenas quatro caras e o bom repertório de Blaster não exige nada mais para funcionar bem.

Scott Weiland ganhou relevância no cenário mundial do rock como vocalista do Stone Temple Pilots. Quando a banda suspendeu as atividades, foi recrutado no início do século pelos ex-Guns’N’Roses Slash, Duff e Matt para cantar em uma nova banda, Velvet Revolver, que também fez um ótimo barulho enquanto esteve ativa e na estrada. Ao longo de toda a sua carreira, Weiland também ficou famoso por seu consumo de drogas e rehabs a que precisou recorrer, prejudicando inclusive gravações de discos e turnês. Sem falar que o Stone Temple Pilots foram reativados em 2008, mas precisaram demitir o vocalista em 2013, que estava causando problemas com o resto da banda. Chester Bennington, do Linkin Park, acabou substituindo-o.

Mesmo em uma fase divertida como a que tem passado com os Wilabouts – e Blaster atesta isso muito bem –, os reveses da vida não saíram do encalço de Weiland. Mal Blaster chegou aos ouvidos do público e seu guitarrista, Jeremy Brown, morreu aos 34 anos. As causa do óbito ainda não foram divulgadas, mas Weiland disse que ficou preocupado ao ver que Brown não chegava para o ensaio da banda, um dia antes do lançamento do disco. Recentemente haviam tocado no festival South By Southwest em Austin, Texas, e tinham 20 datas de shows já marcadas.

Brown tocou guitarra no disco solo de Weiland Happy in Galoses e acompanhou o cantor, junto dos outros Wildabouts, na turnê que apresentava músicas dos discos Core e Purple do Stone Temple Pilots.

Blaster é tanto volta de Scott Weiland ao rock com material novo quanto o testamento em música de Jeremy Brown que, apesar da falta de pretensão do trabalho, mostra uma mão muito boa para o riffs e solos. A ótima “Modzilla”, que abre o disco, fica como vislumbre do que ele poderia ter mostrado nos anos seguintes se lhe fosse dado mais tempo.

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Will Butler – Policy (2015)

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À sombra do Arcade Fire

Por Lucas Scaliza

A dinâmica do Arcade Fire tem sido lançar um disco a cada três anos. Como isso parece um tempo longo demais para que seus músicos fiquem parados, agora começam a aparecer os projetos paralelos de cada um. O guitarrista Richard Reed Perry já se envolveu com música clássica, fazendo um disco tranquilo seguindo a ideia de produzir música ditada pelo ritmo da batida do coração e da respiração. Music For Heart and Breath é o nome do projeto, que conta com a participação de Aaron e Bryce Dessner, ambos do The National.

Agora quem lança um projeto paralelo e uma carreira solo é William Pierce Butler, o irmão mais novo do vocalista do Arcade Fire, Win Butler. O disco chama-se Policy e é curto, direto ao ponto, animado, rock’n’roll e carrega uma energia parecida com a da banda da família nos primeiros álbuns, Funeral (2004) e Neon Bible (2007). Até mesmo o timbre de voz e a forma de interpretar as linhas melódicas de Will são muito parecidos com os do irmão, principalmente em faixas como “What I want” e “Finish what I started”.

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Enquanto sua banda maior traça um caminho mais pretensioso e mais carregado de nuances cada vez mais difíceis de reproduzir ao vivo, Will fez a tradicional volta ao básico. Sua música é boa, é indie rock no talo, baixo, bateria e uma guitarra com distorção, um pouco de rockabilly e de blues (“Take my side”), um pouco de soul/funk (“Something’s coming”), uma dose de afetação (“Anna”) e uma pegada anos 80 (“Witness”). E não esqueçamos da balada “Sing to me” para dar aquela respirada. Em alguns momentos, sobretudo na ótima “Witness”, surge uma backing vocal feminina que faz você crer que é a Régine Chassagne, esposa de Win e também vocalista e instrumentista do Arcade Fire.

Policy é frenético, mas nada ambicioso e nem teria como ser. Presta homenagem a música alternativa norte-americana de bandas como Violent Femmes, The Breeders, Bob Dylan e The Modern Lovers e Smokey Robinson e foi gravado em apenas uma semana no andar de cima do famoso estúdio nova-iorquinho Electric Lady, no cômodo em que Jimmi Hendrix costumava usar como a sala de sua casa. Will, que já toca uma enorme quantidade de instrumentos com o Arcade, assumiu quase tudo neste trabalho, recebendo uma ou outra ajuda apenas para backing vocals e instrumentos de sopro. A bateria ficou a cargo de Jeremy Gara, o baterista do Arcade Fire.

No geral, Will faz um trabalho que sai do espectro mais recente perseguido por sua banda, mas o DNA de sua banda não sai do compositor e multi-instrumentista. Gostoso de ouvir mas não muito original, Policy é mais um artigo de curiosidade do que o lançamento de uma carreira solo digna de nota. Pelo menos por enquanto, pois a qualquer momento Will pode mostrar a que realmente veio e colocar nas prateleiras do iTunes um disco autoral mostrando o que seria a sua assinatura pessoal.

Richie Kotzen – Cannibals (2015)

CannibalsMenos rock, mais acessível e com a mesma classe de sempre

Por Lucas Scaliza

Este Cannibals do norte-americano Richie Kotzen, é muito gostoso e divertido de ouvir. Ele faz um som que é modernoso, mas traz um sentimento de nostalgia por algo que há algum tempo não ouvíamos no hard rock e que ficou ali entre os anos 80 e 90. Um hard rock que se permite colocar a guitarra um pouco de lado para que toda a banda participe.

O baixo, por exemplo, faz um incrível trabalho em “Cannibals”, “Shake it off”, sola em “Come on free” e segura todas as pontas em “I’m all in”. Kotzen se permite mesclar rock com funk em “Stand tall”, rock bem anos 80 em “The enemy”, rock com soul em “In an instant” e na animada “Up (You turn me)” e até passagens eletrônicas em “Cannibals”. E a música “You”, uma balada voz e piano, foi composta sobre uma música que a filha do músico, August, deixou incompleta entre os 13 e 15 anos. O resultado final é bem bonito e um dos únicos momentos realmente mais tristes do álbum.

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Richie Kotzen não busca uma originalidade sem igual, apenas fazer boas músicas. E consegue, pois entrega um disco com 10 faixas passionais e que embalam.

No entanto, para quem quer olhar apenas o passado mais roqueiro e sua presença mais nervosa e técnica na banda The Winery Dogs, Cannibals vai soar como se ele tivesse se vendido ou ficado comercial demais. Bom, para esses fãs ou para esse tipo de interpretação, cabe dizer que Kotzen não abandonou o rock e nem está renegando seu passado, mas está exercitando sua musicalidade. Não é pecado pensar fora da caixa e tentar novos ares, ainda mais para um compositor, cantor e guitarrista já bastante experimentado pelo mercado, que sempre se disse fã de soul, jazz, fusion e de várias vertentes do blues e que grava profissionalmente desde os 19 anos.

Não deixe o ecletismo e a facilidade com que Cannibals é diferido enganar. Kotzen ainda está ali com todos aqueles seus fraseados característicos. E embora ele saiba não inundar as músicas com sua Fender – algo que muitos guitarristas acabam fazendo em carreira solo e acabam soando repetitivos – ele não deixa de criar riffs, solos e fills bem legais.

Como Kotzen já tem no The Winery Dogs, ao lado do baterista Mike Portnoy, uma banda para destilar toda a sua técnica, velocidade e agressividade, Cannibals acaba sendo uma contraparte disso, um espaço para ele fazer o que não cabe na banda. É o mesmo que Neal Morse anda fazendo: em 2014 ele esteve boa parte do ano ativo com o Transatlantic, sendo tão progressivo quanto se pode ser ao lado de uma banda bastante técnica. E foi o ano também em que saiu Second Nature, segundo disco do Flying Colors. Quando lançou um disco solo logo depois, o bonito Songs From November, apostou em músicas mais relax e mais acessíveis. Afinal, para que inundar seu mundo ainda mais com rock progressivo se já está bem servido nessa área? Ainda mais quando este ano está para sair mais um disco do gênero de Morse ao lado de Portnoy.

O guitarrista John 5, que também mostra um rock’n’roll diferente em sua carreira solo daquele que vemos ele fazer nas bandas em que toca, mas por ser um projeto todo instrumental, fica com espaço de sobra para ser fritador do começo ao fim. Kotzen não tem esse problema. Ele sabe a hora de fritar e não faz disso seu modus operandi corrente.

Não é um disco íntimo, nem triste, nem excessivamente romântico. O melhor de Cannibals é que pode ser tocado a qualquer hora e em qualquer lugar sem que nenhum tipo de público se sinta incomodado ou corra o risco de não entender o som. Bem direto, cheio de ritmo e palatável. É menos rock, mas não é por isso que Kotzen deixa de ser um cara de classe.

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Karen O – Crush Songs (2014)

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Um rascunho de trilha sonora para relações efêmeras, passageiras e marcantes

Por Lucas Scaliza

Você assistiu a Her (Ela), o último filme do Spike Jonze? Viu até o fim? Ouviu uma baladinha cantada por uma mulher e um homem, com um violão e um som que parece saído de dentro de uma piscina ou aquário? Pois a música é “The moon song”, da Karen O, a espera e talentosa vocalista do Yeah Yeah Yeahs e colaboradora de trilhas sonoras (como a inesquecível trilha de Onde Vivem os Monstros, também dirigido por Jonze). O caso é que “The moon song” é uma epítome do que ouvimos em Crush Songs, o aguardado primeiro álbum solo de Karen O, que pode ser ouvido na íntegra aqui.

Para resumir: Crush Songs tem menos de 20 minutos e 10 faixas. Todas são curtinhas, delicadinhas, muitas são estranhinhas e todas são subaquáticas, como se tudo tivesse sido gravado em um aquário-estúdio. Sendo assim, o clipe de “Rapt” cai como uma luva a impressão sinestésica que temos do álbum.

Karen usa um violão bem seco, um teclado bem discreto, alguns ruídos de ambiência e reverb em quase tudo, até em sua voz tão estridente quanto doce. E tudo é bem melancólico, como um dia de outono na beira do mar. É essa tristeza, esse violão solitário, essa ambiência e o reverb que dão o tom afogado ao disco.

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“Visits” usa uma percussão eletrônica e até soa mais como um dia bom de praia, mas a produção fuleira faz com que não fuja do clima geral do disco. “Beast”, uma das melhores do disco, é uma mostra de como Karen O usa bem sua voz e deixa o erro fazer parte de sua estética. Não é preciso ser músico para flagrar as notas imprecisas ou que acabaram não soando bem no dedilhado do violão. Essa característica não profissional e até meio caseira torna-se um traço estilístico marcante em Crush Songs. Só para continuar no campo cinematográfico de comparações, é como se um diretor como Jason Reitman (que dirigiu Juno e Amor Sem Escalas) resolvesse fazer um filme de baixíssimo orçamento e com a estética de found footage.

“NYC Baby” mal começa e já termina depois de alguns segundos. E é uma ótima musiquinha. Com “Comes the night” ocorre o mesmo. Até “Rapt” não chega aos dois minutos. Há uma economia de tempo e de recursos impressionante. Questiono se isso tem a ver, de algum modo, com a efemeridade dos relacionamentos atuais, tão toscos em sua superficialidade e ainda assim capazes de ser tão avassaladores e profundos que, por menor que seja a duração, deixam marcas nos casais casuais e momentâneos que se distanciam, se perdem e esmorecem como a voz de Karen no final de “Far”. Daí a melancolia, a solidão, o sentimento de vazio, o afogamento (afinal, afoga-se uma paixão com outra paixão, daí afoga-se novamente para em outra para esquecer a anterior e assim segue indefinidamente desde que o romantismo surgiu).

São esboços de relacionamentos, esboços do que poderiam ser um dia, esboços de escolhas não feitas. E são como esboços também as músicas de Crush Songs. Assim como ela esboçou o que seria um release do álbum por meio de um cartãozinho manuscrito que diz: “Quando eu tinha 27, me apaixonei pra caramba. Não tinha certeza se algum dia iria me apaixonar de novo. Essas músicas foram escritas & gravadas de uma forma bem pessoal naquela época. Elas são a trilha sonora do que foi uma contínua CRUZADA DO AMOR. Espero que façam companhia à sua também.”

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Sentimental, Karen O expressa como “love is a fucking bitch” de forma crua, distante da produção triste e glamorizada de Lana Del Rey e seu Ultraviolence, sem a precisão técnica vocal de Lykke Li em I Never Learn, muito mais econômica que o Ghost Stories do Coldplay, colocando sua inventividade estética em uma subtração ainda mais acentuada do que faz  Damon Albarn em Everyday Robots.

Karen O faz um disco para fãs de música alternativa tão íntimo quanto o Are We There da Sharon Von Etten. Não espere nada de Crush Songs no rádio ou na balada. Mas talvez os 19 minutos de música possam embalar sua lembrança dos 15 que passou com alguém na noite passada e que não vão mais voltar.

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