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Jesuton – Home (2017)

Cantora inglesa estabelece bem sua identidade em terceiro disco

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me de, em 2014, assistir vídeos dessa talentosa cantora chamada Jesuton no YouTube. Eram amostras de seu show Show Me Your Soul, em que ela apresentava covers de artistas que foram importantes em sua (e na minha) formação. Lembro-me de ficar surpreso principalmente ao ouvir “People Get Ready” e “What’s Going On” do Marvin Gaye. Era seu segundo álbum e uma reafirmação do seu talento e da sua incrível capacidade musical.

A cantora inglesa veio ao Brasil em busca de sucesso na carreira musical em 2012. Começou cantando nas ruas do Rio de Janeiro e foi parar em programas famosos da Rede Globo, conseguindo um contrato com a Som Livre. Seu novo disco – e primeiro composto somente por faixas inéditas – Home, possui um estilo diferente do que o que ela vinha apresentando.

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A singeleza semifolk que ela imprime em canções como “If I Could” é impressionante. A voz da cantora ressoa em nossas cabeças como quem está muito próximo, com uma interpretação precisa, fazendo com que a faixa seja inesquecível. Destaco o final, com a sonoridade cheia e densa, em um estilo spectoriano de produção que remete aos anos 60. Esse tipo de produção foi elemento marcante em muitos discos de soul que com certeza fizeram parte da educação musical da Jesuton. Apesar do título em português, “Cuidar de Mim” tem só uma frase no idioma. A sonoridade é totalmente soul retrô e a voz lembra muito a de Amy Winehouse, principalmente nas primeiras frases.

A faixa-título abre com uma guitarra muito bem timbrada, que ganha contornos largos dentro do espaço da mix e dá um aspecto folk novamente ao álbum. O refrão reforça esse aspecto, soando como algo indie/folk. “Radio” evoca Amy Winehouse mais uma vez, de forma explícita. Mesmo sendo bem parecida, Jesuton ainda consegue colocar um pouco da sua personalidade na faixa e o resultado agrada facilmente. A solidão que ganha densidade ao final reaparece em “Man of My Life” e “Don’t Think So”, esta última trazendo um belíssimo dueto entre a britânica e Seu Jorge, com um aproveitamento fabuloso das distinções de timbres das duas vozes, que passeiam sobre uma base viajante e inconsistente no espaço sonoro.

Talvez o único ponto negativo de Home seja “Vultures”. A canção possui a participação do guitarrista italiano Salvatore Cafiero, que empresta um timbre característico e pegada marcante. A canção em si é interessante, aborda elementos de rock e funk, fechando o álbum com um clima solto e pra cima. O problema é que destoa totalmente da proposta intimista, reflexiva e densa que as outras faixas construíram ao longo do disco. Ou seja, “Vultures” acaba soando como a sobra que entrou para o disco “por acidente”.

No geral, ouvir Home é bem recompensador. Jesuton mostra uma faceta mais original, com músicas de sua autoria e nos surpreendendo por dar ao álbum um direcionamento diferente dos seus dois primeiros trabalhos. A produção que deixa tudo muito fechado, cheio, ambientalmente pesado e cheio de reverb cooperou para que o disco soasse único e de certa forma original, sem pretensão de imitar ninguém, mesmo que reflita as influências da cantora.

Para quem começou com covers e até então tem sua imagem associada a eles, Jesuton dá um passo importante na carreira, estabelecendo o seu jeito de fazer música. O disco pode desagradar quem esperava algo anacrônico e que bebesse diretamente da soul music, mas com toda certeza irá agradar aos ouvintes que estiverem abertos a uma nova experiência. Em Home, a cantora também nos mostra que tem um pé no folk solitário e intimista e, junto de sua produção, trabalha esse lado de forma clara e inteligente. Entenda como alguém que tem o soul na veia e não pode fugir disso, mas se arrisca com sucesso por um outro tipo de som.

A cantora, que já se sente confortável morando no Brasil há cinco anos, mostra conforto também com seu som, sua musicalidade e entrega um trabalho bem consistente. Home, no final das contas, é um disco seguro de alguém que está em casa, mesmo em terras longínquas.

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Rag’n’Bone Man – Human (2017)

Ele é humano e gosta de coletar velharias e revendê-las como novas

Por Gabriel Sacramento

A voz é de um bluesman. O nome “Rag’n’Bone Man”, também. Mas o inglês Rory Graham – que começou realmente cantando blues, enfatizando seu timbre vantajoso para o estilo – agora parece aceitar seu lado pop sem preconceitos. Na verdade, ponto para ele e toda a equipe que trabalhou em Human, seu debut, por imaginar: “E se levássemos esse timbre blueseiro para o pop, soaria bem diferente e interessante”. E realmente soa.

No entanto, outro estilo foi referência e ideal a ser alcançado por Graham em sua carreira: o hip-hop. Foi no cenário urbano inglês que ele idealizou o nome “Rag’N’bonez”, que virou Rag’n’Bone Man, seu atual nome artístico. Nos seus primeiros EPs, percebemos que o cara ainda transitava entre o hip-hop e o blues, sem muita delimitação entre os gêneros.

Rag 'N' Bone Man by Deans Chalkley

Human é resultado de cooperação entre diversos profissionais. Alguns deles bem conhecidos: O produtor Mark Crew, conhecido por trabalhar com a banda Bastille, além de Johnny McDaid, colaborador do também inglês Ed Sheeran, fora os diversos nomes que constam nas assinaturas das canções. A verdade é que o grupo trabalhou bem e chegou a um consenso interessante diante de todas as possibilidades que o talento do Rag’n’Bone poderia criar. São muitas facetas a explorar.

Human é um trabalho bem pensado e bem produzido, com um repertório que começa com canções mais encorpadas e termina com baladas. A abertura é com a faixa-título, com versos reflexivos, em que ele admite sua fraqueza e que não pode resolver tudo: “Algumas pessoas têm seus problemas, outras pensam que posso resolvê-los, mas eu sou apenas humano afinal de contas, não ponha a culpa em mim”, ele canta, usando melodias que não saem da cabeça.”Innocent Man” traz batidas pop, vocais sobrepostos, ganchos melódicos e mostra o cantor em dia com seu lado mais comercial. “Bitter End” deixa evidente uma forte influência de cantores da saudosa soul music no estilo vocal de Graham. À medida em que vamos avançamos no setlist, conhecemos sua voz mais crua, com menos tratamento e com mais sentimento. “Grace” é uma prova disso. Uma canção sensível, com piano ao fundo no início, melodias que, mesmo sutis, tocam profundamente. “Die Easy” é fantástica e blueseira até o talo, dispensa instrumentação e somos convidados a ouvir o vozeirão cru e forte do Rag’n’Bone e sua habilidade para segurar o ritmo e a emoção.

A equipe de Human soube bem explorar as facetas mais interessantes de Graham, deixando tudo muito atrativo. As possibilidades eram muitas, mas aqui foram reduzidas para algumas, as mais fortes e com mais potencial. Além do blues, há uma forte veia soul, com toques de hip-hop e um molho pop deixando tudo ainda mais saboroso – e acessível. Se o disco não tenta entregar profundidade em termos estilísticos, entrega um retrato sonoro fiel à pessoa talentosa de Rory Graham.

O quê pop do álbum pode ser – e tem sido – decisivo para colocar o cantor no topo das listas de mais vendidos e de mais ouvidos nos serviços de música online. Mas em Human, até esse apelo é bem administrado, ressaltando as boas características particulares do cantor e mantendo tudo bem embalado para o mercado. Foi uma ótima sacada trazer esse timbre soulful e blueseiro para o pop comum. Deu um aspecto singular ao trabalho dentro do gênero.

Uma curiosidade é que seu nome artístico – Rag’n’Bone Man – era usado para definir um profissional antigo que coletava objetos velhos e inservíveis para revendê-los a outro mercado. O interessante é que isso tem muito a ver com o que Graham faz: coleta elementos de soul e blues que poderiam ter se perdidos no meio do caminho em meio à evolução musical e os revende com uma nova roupagem, mais agradável para as grandes massas. Rory não é o único a fazer isso, embora seu jeito de fazê-lo seja único.

O disco mostrou que o cara é um dos destaques de 2017. O seu vozeirão, sua atitude (reforçada por sua imagem) e originalidade são os fatores que fizeram o projeto dar certo e o produto ser bem recebido. Vale a pena ficar de olho nos próximos trabalhos desse Rag’n’Bone Man que em 12 faixas fez o suficiente para agradar a todo mundo, sem soar banal.

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Thundercat – Drunk (2017)

Com jazz canibal e nível de detalhe absurdo, Thundercat propõe viagem bêbada guiada por Jesus

Por Lucas Scaliza

Drunk, sensacional desde a capa (que mais parece um meme), deixa de lado a vanguarda mais sisuda de Thundercat exercitada no EP The Beyond/Where The Giants Roam (2015) e no segundo disco, Apocalypse (2013), para voltar a uma música mais parecida com a apresentada em sua estreia solo, The Golden Age Of Apocalypse (2011). Trabalhando ao lado do competente produtor Flying Lotus, que entende tanto de jazz, hip hop, música eletrônica quanto de Thundercat, conseguiu criar uma jornada por 23 faixas em que até mesmo o que na mão de quaisquer outros artistas seria uma vinheta, para eles têm um nível de detalhamento absurdo.

Fica claro à primeira audição que o feeling do álbum é mais divertido, brincalhão e até mais leve uma porção de vezes. Passagens como a saída do baixista Stephen Bruner (o próprio Thundercat) bêbado da boate e confiado em Jesus para guia-lo de carro de volta para casa (em “Captain Stupido”), sua jornada turística por Tóquio (“Tokyo”) ou a música dedicada a seu gato Tron rendem boas risadas. Mesmo uma música mais crítica como “Bus In These Streets” (sobre nossa obsessão por telas e conexão o tempo todo) é contada com um R&B mais tranquilo. O mesmo vale para “Show You The Way”, uma incursão mais pop do músico pelo buraco do coelho de sua jornada chapada, e “Drink Dat”, talvez a faixa mais acessível do trabalho.

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Embora o seu lado jazzista não esteja muito explícito no gênero que norteia as faixas de Drunk, está nos detalhes de quase todas as faixas. Uma audição desatenta dessa coleção de faixas curtinhas do álbum pode levar a pensar que a música de Bruner está menos ousada, mas o caso é que o endiabrado virtuoso americano propõe um estilo de composição em que usa faixas menores para mostrar uma quantidade maior de ideias diferentes. E como baixista de mão cheia – que sempre aparece portando seu enorme baixo de seis cordas – ele espalha por todo o disco momentos progressivos que lembram muito a estilo de músicos como o também baixista Evan Brewer (“A Fan’s Mail”, “Where I’m Going” e a virtuosa “Uh Uh”) e uns compassos complicados que fariam Frank Zappa admirá-lo (“Blackkk”).

A qualidade sonora do álbum como um todo será bastante familiar para quem o acompanha. Os grooves, os solos com notas estraladas, os incríveis arpejos (como em “Lava Lamp”, “Jethro”, “Inferno”, “3 AM”, “I Am Crazy”), as batidas abafadas, a voz suave, os falsetes e aquela textura de música levemente viajante com timbres vintage permanecem.

Thundercat, que por muito tempo foi um músico de estúdio e ao vivo para diversos grupos diferentes (de Erykah Badu a Suicidal Tendencies, passando por Kendrick Lamar e o próprio FlyLo), adquiriu a habilidade de fazer músicas que possuem elementos de vários estilos (funk, soul, hip hop, pop, rock e jazz) sem necessariamente ficar preso a um deles. Uma música como “Them Changes”, por exemplo,poderá passar como um R&B pop para quem tiver ouvidos apenas para sua melodia de voz. Mas e aquelas duas camadas de sons lânguidos pulsando em sua base junto com mais dois tipos de batidas? “Friend Zone”, extremamente bem produzida por Mono/Poly, é mais acessível, mas conserva ainda um tanto de elementos estranhos na mixagem. “The Turn Down”, com Pharrell Williams, tem batidas regulares e harmonia marcada pelo baixo, mas há uma massa musical cinzenta abstrata rolando entre as vozes e as batidas, resultado de uma pesada manipulação de sons que antes eram “normais”.

O diabo mora nos detalhes. E é nessas diabruras que Drunk vai revelando suas intenções musicais. Fica também a forte impressão de que em grande parte das faixas, Thundercat priorizou a criação harmônica e as levadas em seu baixo, e só depois pensou em como encaixaria letra ou melodia de voz ali, tal é o apreço pela música, a sofisticação de sua produção e a quantidade de novos fraseados que vão constantemente aparecendo (a escala ascendente e descendente em “Friend Zone” pode muito bem ser a versão gamer de Bruner para o tema de introdução da série Final Fantasy, repararam?).

Vale dizer também que não é só diversão a vida de uma pessoa bêbada. Apesar dos miados mais melódicos que o soul já viu e das referências nerds ao Goku, ao Capitão Planeta e ao Diablo, Thundercat encontra espaço para refletir sobre a morte e a falta de alguém, fala sobre a violência policial contra negros (“Jameel’s Space Ride”), aquele sentimento acachapante de não saber qual será o próximo passo de sua vida (“Where I’m Going?”) e fala do medo que pessoas têm da diversidade e cita o movimento Black Lives Matter com um par de bons versos: “Se todas as vidas importam, por que engasga quando cita os negros? Atrás de nosso céu azul fica o sol, cercado pelo escuro”.

Drunk diz menos sobre o estado etílico de Thundercat e mais sobre a forma como fermentou suas composições. É, de fato, um desses discos em que citar apenas um estilo musical não dá conta direito de descrever nem uma canção. Mostrando muita substância com faixas curtas – e outras minúsculas –, o baixista mostra que o jazz é sim uma metodologia e, melhor do que o personagem de John Legend em La La Land, mostra o jazz com uma pegada do futuro e textura retrô.

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Childish Gambino – Awaken, My Love (2016)

Donald Glover cresce em melodia e pretensão e tenta ser o D’Angelo de 2016

Por Lucas Scaliza

Awaken, My Love só foi lançado depois que várias importantes listas de melhores álbuns do ano já tinham sido fechadas e divulgadas. A pressa editorial de várias dessas publicações (algumas divulgaram suas listas antes mesmo de nascer o primeiro dia de dezembro) se baseou no fato de grandes os últimos grandes lançamentos do mercado musical terem se concentrado no mês de novembro. Mas é sempre bom lembrar que há quem gosta de surpresas. Como D’Angelo And The Vanguard, que pegou todo mundo desprevenido com seu incrível Black Messiah no apagar das luzes de 2014.

2016 teve seu D’Angelo: Childish Gambino, o nome musical do ator Donald Glover, chegou com um álbum pretensioso, variado e poderoso. Teria entrado em várias listas de melhores do ano – inclusive a nossa – caso tivesse sido lançado antes. O que Gambino/Glover consegue fazer em Awaken, My Love vai muito além do que seu rap e hip hop de Camp (2011) e Because The Internet (2013) tentaram ser.

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Embora o rap puro nunca tivesse sido a praia de Gambino e seus discos anteriores tivessem sempre algumas faixas mais melodiosas, pop e comerciais, foi o EP Kauai (2014) que melhor indicou a abertura sonora do músico para o que viria a seguir. Rap, hip hop, soul, funk, R&B, um tiquinho de jazz e psicodelia se fundem e se confundem de um jeito que faz a cabeça fervilhar com diferentes referências musicais espalhadas por quatro décadas de produção.

O funk rock de “Boogieman” é uma volta ao estilão clássico, orgânico e cheio de balanço do Funkadelic setentista. Não é apenas especulação a influência do Funkadelic. Até a capa do disco de Gambino é uma referência ao clássico Maggot Brain, de 1971, que é assumidamente um dos discos preferidos do ator e cantor. A música também evoca um tipo de bicho-papão dos Estados Unidos (lá chamado de “bogeyman”, mas musicalmente transformado em “boogieman” na faixa) que, na canção, assume o papel de um policial “com arma na mão” e que pode atirar em um negro. Fica aí a crítica social aguda de Gambino travestida de entretenimento retrô. A excelente abertura com “Me And Your Mama” também é um marco do disco, estabelecendo toda a estética que se seguirá ao longo do álbum, com uma pegada muito orgânica, timbres abafados e coral gospel.

“Redbone”, um dos singles do disco, é lenta e devotada ao estilo de soul popularizado pelo Prince. Embora não pareça, é o próprio Gambino que canta a faixa, de uma forma muito mais aguda e bem diferente de tudo que já mostrou, provavelmente para poder emular o cantor de “Purple Rain”. “Baby Boy”, que toma emprestado o jeitinho de Sly And The Family Stone é outro destaque mais lento do disco e com uma interpretação caprichada do cantor. “Zombies” tem um cativante refrão, mas todo o resto depende de sua entrega ao soul para curtir ou não. É lenta, o que contraste drasticamente com a energética “Riot” e sua guitarra carregada de efeitos de expressão vintages.

A principal diferença de Awaken, My Love para os outros discos de Childish Gambino é que desta vez a obra é muito mais melodiosa. Há muito mais um Gambino cantor do que rapper, mudança que sozinha é suficiente para mudar todo o jeito como ele pensa sua música. E com todas as influências e (aparentes) referências citadas acima, suas harmonias e técnicas de produção estão muito mais sofisticadas dessa vez. “Terrified” é um grande exemplo disso. A dinâmica sobe e desce e a carga emocional é levada tanto pela guitarra sensual quanto pelas vocalizações de Gambino, enquanto os acordes mudam e levam a faixa para diferentes territórios.

Ao que parece, Awaken, My Love é totalmente decidado ao filho de Glover, que nasceu este ano. Todas as letras, tenham ou não um contexto mais social ou político, acabam nos levando de encontro a questões de paternidade e família. Não é a toa que uma das faixas mais bonitas do disco chama-se “The Night Me and Your Mama Met” (a noite em que eu e sua mãe nos conhecemos) e trata-se de uma música instrumental que poderia muito bem ter sido feita em 1971. E como o álbum trata de infância – tanto a do filho recém-chegado quanto a de Glover, que é vislumbrada ao longo do repertório –, a volta aos anos 70 é tanto um exercício de estética e de produção quanto uma nostalgia evocada de forma pertinente. Afinal, Glover/Gambino foi uma criança nos anos 80 que cresceu ouvindo a música negra da década anterior.

Não acompanho a carreira de Glover como ator para saber como anda sua evolução nas telas. Mas na música, Awaken, My Love é um grande passo à frente para sua persona musical. Um destaque deste final de 2016 sem sombra de dúvida.

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Bruno Mars – 24K Magic (2016)

Bruno Mars está de volta com disco urbano, noventista e com estilo bem definido

Por Gabriel Sacramento

Finalmente um dos lançamentos mais aguardados do ano saiu. Foram quatro anos de espera e mesmo sem disco de inéditas, Bruno Mars continuou fazendo sucesso e marcando presença nas paradas. Depois do seu último trabalho, Unorthodox Jukebox (2012), Mars reapareceu com Mark Ronson em 2015 com o sucesso “Uptown Funk”, que impressionou a todos pelo seu aspecto dançante, divertido e com sonoridade retrô. A parceria deu tão certo que Mars decidiu trazer Ronson para seu novo disco e, quem sabe, gravar hits tão certeiros quanto “Uptown…”.

Quando liberou “24K Magic” (que discutimos neste podcast), ele nos deixou altamente esperançosos com uma música festeira, groovada, com uma vibe dançante, mesclando elementos de hip-hop old-school e modernos, como auto-tune, de uma forma até então inédita no seu catálogo. A pergunta era: o Bruno investiria nesse tipo de sonoridade nas outras canções também?

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A resposta é sim. Ele investe em groove retrô em outras faixas, mas que não necessariamente soam como “24K Magic”. Assim como fez em Unorthodox Jukebox, Mars ainda tenta explorar diversos gêneros. A diferença é que no álbum anterior ele explorou muitos estilos diferentes, já em 24K Magic temos menos gêneros musicais, mas ainda soa interessante.

“Chunky”, que sucede a faixa de abertura, traz um baixo forte e marcante. Vocais mais R&B noventista, com harmonias espertíssimas. Consegue ser dançante e groovada enquanto dá espaço para Mars desenvolver bem suas melodias. “Perm” segue em sequência ainda mais vibrante, com guitarras funkeadas ao fundo e uma levada de bateria mais pesada. Possui vocais divertidos e descontraídos, assim como a faixa-título. “That’s What I Like” traz uma batida de hip-hop e um vocal principal que se adequa bem ao ritmo. O desenvolvimento da canção é como algo que o Usher comporia nos anos 90. Com vocais mais graves (até incomuns para o seu estilo), ele admite mais claramente essa influência do R&B urbano de Usher em “Calling All My Lovelies”.

Bruno Mars continua impressionando com uma musicalidade marcante pela presença de uma boa banda ao fundo. Assim, o cantor se encontra livre para explorar elementos de funk, R&B dos anos 90 e hip-hop clássico sem precisar de samples o tempo todo ou de encharcar suas faixas com elementos eletrônicos. Se o pop atual precisa se basear nos flertes com a música eletrônica para se fortalecer, Bruno vai contra a corrente e mostra o poder da música pop feita por instrumentos.

Mas como se trata de um bom disco do Mars, não podiam faltar as baladas. Em seu primeiro álbum, tivemos “Talking To The Moon” e, no segundo, “When I Was Your Man” como baladas principais. No novo, não temos um hit tão bom quanto os citados, mas temos baladas que servem para mostrar que o havaiano está em dia com sua voz e com sua faceta mais emotiva. “Versace On The Floor” é uma delas e surge com uma influência forte das baladas de artistas como Michael Jackson e Babyface – que coescreveu a última faixa e também balada, “Too Good To Say Goodbye”. Os vocais são doces, a melodia é açucarada, o tom é romântico, a timbragem cristalina e harmonias sugerem uma faixa bem anos 80/90.

24K Magic é o disco menos variado e mais focado de Bruno Mars até agora. A fórmula usada nos dois primeiros, com um conjunto eclético de influências, foi reduzida para um alvo mais fácil de acertar. A sonoridade é mais urbana, mais hip-hop, mais R&B, anacrônico como os outros, embora se atenha às mesmas referências temporais na maior parte do tempo. Os anos 90 foram a década vislumbrada por Bruno quando compôs o disco e é exatamente o que acerta em cheio.

Com o passar do tempo, vemos que o jovem cantor está definindo sua sonoridade. Seu talento e capacidade são inquestionáveis e sua atitude com relação à sua música é outro dos fatores positivos. Mars é sincero e honesto com suas influências e as explora sem medo, enquanto molda o próprio estilo.

Embora não seja o melhor, o novo álbum é o mais bem direcionado. Seus hits de discos anteriores ainda são imbatíveis e poucas canções de 24K Magic podem competir com eles. No entanto, é um disco importante para a carreira, marcado uma fase mais madura. O mais importante é: a magia do seu som e do seu estilo permanecem intocados.

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Foto: Kai Z. Feng

Liniker e os Caramelows – Remonta (2016)

Em uma grande micareta cósmica de estilos musicais, Liniker vai de Prince à MPB progressiva

Por Lucas Scaliza

Não diria que há experimentalismo em Remonta. O que parece que Liniker e os Caramelows fazem é procurar uma expressão, uma voz, um jeito de ser e, não sendo nem uma coisa e nem outra, Remonta são várias coisas ao mesmo tempo. É uma confusão, mas assim como o filme 2046 de Wong Kar-Wai, é uma confusão linda de se ouvir.

Aos 21 anos, Liniker – um(a) cantor(a) e compositor(a) de Araraquara, interior de SP – vem embalando uma geração de universitários e de pessoas interessados no lado mais indie e inventivo e desconstruído da música popular brasileira. Batom e saia, brincos e bigode, uma voz que claramente é de homem, mas com uma interpretação que estamos mais acostumados a ouvir de mulheres. São elementos que instigam a curiosidade e realçam o lado andrógino de Liniker.

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Remonta, o primeiro disco dele/dela com os Caramelows, é um grande festival de estilos, fruto de uma ruminação musical de 5 anos. Tim Maia, Móveis Coloniais de Acaju, percussão afro, rock, soul, Amy Winehouse e clima de micareta são algumas das lembranças que vêm à mente ao ouvir o disco, rico em textura, diversão, drama e sensualidade. A faixa-título, “Remonta”, é um aviso sobre como a música de Liniker paga tributo à MPB dos anos 70 e 80 e faz uma espécie de MPB progressiva. O andamento muda, o drama vira balada, que passa por um interlúdio mais nordestino com arranjos de sopro e chega a um clímax levando a canção para outro caminho enquanto brada que não quer mais “saber de desamor”.

O mesmo ocorre com “Caeu” que, embora tenha uma levada mais padronizada (e uma linha de baixo deliciosa), também envereda por passagens mais jazzísticas e atmosféricas antes de seguir um crescendo que segue até o final da canção. Lina X, que começa com um animado axé indie (você realmente consegue ouvir a música e se imaginar num carnaval) – vai se transmutando em coisas diferentes, como uma passagem instrumental meio surf rock, meio western, só para depois cair em uma valsa triste que pouco lembra o início da canção. “Louisie du Brésil” passa um bom tempo como um funk que poderia estar na trilha de The Get Down, mas da metade para lá vira algo denso, lento e dramático. E aí você se pergunta: “Eu tô ouvindo MPB ou a porra duma versão do King Crimson?”

Essa recusa da linearidade musical faz com que a música de Liniker seja uma evasão da nova MPB mais bonitinha e padronizada que ouvimos atualmente. De quebra, Liniker dá uma cara muito mais progressiva ao estilo e, ao que parece, ele/ela não está consciente disso, pois não importa muito qual o rótulo de sua música. Ela simplesmente acontece. Difícil saber até onde cada canção foi milimetricamente planejada e o que surgiu ali no estúdio, de forma mais espontânea. Isso é tanto um charme de Remonta quanto o indicativo de que Liniker e os Caramelows ainda têm bastante espaço para amadurecer a proposta em discos seguintes. O acaso e o vale-tudo caem bem, mas o álbum acaba perdendo em unidade e coesão. Não que isso acabe com a experiência. Longe disso.

Entre as músicas mais lineares do álbum estão a animada “Prendedor de Varal” – com guitarras ágeis no registro agudo e seco, um baixo com um timbre bem orgânico e um ótimo naipe de sopro –, a melancólica “Sem Nome, Mas Com Endereço” (outro exemplo de como a banda é ótima com finais de canções), a curtinha “Funzy”, que é o melhor lado Prince que um artista brasileiro da nova geração já mostrou ter, e “BoxOkê”, que tem o reforço da banda Aeromoças e Tenistas Russas e da cantora Tassia Reis, e é uma das melhores e mais completas músicas do álbum. Um exemplo que Liniker e os Caramelows são capazes de não perder a criatividade e ainda assim manter a faixa com uma direção bem definida e certeira.

Há uma sensualidade latente que atinge seus ouvidos tanto com as palavras cantadas, mas principalmente com a forma como Liniker as diz. “A gente fica mordido/ Dente, lábio, teu jeito de olhar/ Me lembro do beijo em teu pescoço/ Do meu toque grosso/ Com medo de transpassar – e transpassei!”, ele canta na excelente “Zero”. E o que dizer de “Nossa, como a gente encaixa gostoso aqui?”, no final de “Caeu”. E também é a sensualidade que dita “Tua”. E não tem como ser mais direto ao ponto do que em “Você Fez Merda”, faixa em que Liniker modula a voz para interpretar diferentes personagens e cantar um verso como “Você fez merda ao dizer que não me ama/ Depois da Transa que eu dei pra você”. E o final apoteótico, com a potente “Ralador de Pia” – “Me beija, me cheira, me tira do sério”, ele/ela canta –, voltando a mostrar que Remonta é uma micareta progressiva, psicodélica e divertida.

O “problema” de Liniker é o mesmo que O Teatro Mágico enfrentou com o primeiro álbum, Entrada Para Raros (2003), e o Móveis Coloniais de Acaju enfrentou com o segundo, C_MPL_TE (2009). Remonta é tão bom e tão criativo, num estágio tão inicial da carreira, que fica complicado manter o mesmo nível de inovação, diferenciação e surpresa no futuro. Liniker, advindo de uma família de músicos, teve que superar a vergonhar de cantar para poder nos encantar com sua voz, sua performance e sua música. Deverá continuar muito destemido – esperamos – para não ter amarras no futuro.

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Alicia Keys – Here (2016)

Disco novo mantém seu legado vivo e pulsante

Por Gabriel Sacramento

Quatro anos se passaram desde que Alicia Keys lançou Girl on Fire. Até então, sua única contribuição para a indústria da música nesta década, com o qual emplacou o hit que leva o nome do álbum e que tocou horrores. Na época era recém-casada e mãe de primeira viagem, experiências que influenciaram a cantora no processo de composição de um ótimo disco e que apresenta seu jeito típico de fazer música.

Importante considerar que Alicia possui um legado importante dentro do cenário R&B e soul. Sua influência para novos artistas, principalmente mulheres, é inegável. Além de ter seus discos premiados por diversas revistas especializadas, Alicia possui um diferencial: ela toca piano nos discos e sempre fez questão de prezar por uma imagem mais “urbana”.

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Em junho, ela declarou que deixaria de usar produtos cosméticos, buscando realçar a sua beleza e seu jeito de ser natural, indo na contramão da imagem de “diva pop superproduzida”. Se a imagem para muitas/muitos é motivo para angariar lucros em detrimento da música, no caso de Alicia é diferente: imagem é imagem e música é música. A mudança na estética acabou orientando uma mudança em sua visão de mundo, que acabou influenciando o novo disco, Here.

Seu novo disco só confirma o quanto sua carreira tem dado certo e o quão bem Alicia sabe impor seu som simples e marcante. Sem aludir a modismos baratos, Keys soa acessível o bastante sem prejudicar a sua identidade sonora, sendo direta e clara nas referências que a norteiam. O disco também tem menos gente envolvida na produção do que o último: a própria Alicia e o marido Swizz Beatz como executivos e Mark Batson, Jimmy Napes e Llangelo como produtores.

Em Here, seu piano continua aparecendo em momentos estratégicos e bem pensados. Seja em uma mistura sensacional de R&B com um arranjo mais complexo das teclas em “Where Do We Begin Now” ou carregando a semibalada “Hallelujah”. Já o violão chama a atenção em faixas como “Blended Family (What do You Do For Love)” – que tem participação do rapper A$ap Rocky – e em “Kill Your Mama”.

Alicia sempre foi uma ótima cantora e ela sempre sabe aproveitar bem seu timbre, potência e desenvoltura vocal. Dessa vez, ela experimenta momentos mais viscerais como em “Illusion Bliss”, com uma entrega dotada de uma paixão incrível, e momentos mais “rapeados” como em “The Gospel”. Vale lembrar que quando ela faz harmonias e vocais dobrados, como em “She Don’t Really Care_1 Luv”, também acerta em cheio.

Temos vários elementos e sacadas diferentes que fazem Here valer a pena. Mesmo sendo longo – 16 faixas –, Alicia não se restringe a receitinhas, buscando explorar a própria criatividade para entregar algo realmente convincente. Vai do R&B e soul ao pop com naturalidade. Se vale de bases simples, dando destaque a poucos instrumentos, e trabalha bem seus vocais. Sua música é acessível, feita para tocar muito e fazer bastante sucesso, mas longe de ser clichê. Here é exemplo de um disco que soa bem pop, mas não superproduzido. É perceptível que ela, como produtora executiva, comanda o direcionamento do trabalho. Não é como alguns discos que vemos por aí, em que os artistas são meras marionetes dos produtores).

O disco possui alguns interlúdios que reforçam o sentido das letras. A cantora explicou que o nome do álbum (“aqui”, em português) se refere a um “lugar onde ela quer ver quem realmente é no espelho e enxergar o que nos tornamos no mundo em que vivemos”. Destaco a interessante letra de “Holy War”, um dos singles do álbum, que explora o contraste entre amor e guerra. Na primeira parte, a cantora apresenta consequências do mundo dominado pelas guerras – desunião, preconceito e segregação –, onde o sexo (encarado aqui como demonstração de amor) é tido como obsceno e os conflitos entre os humanos, tido como sagrado. Na segunda parte, ela fala sobre se o contrário acontecesse – se o mundo fosse dominado pelo amor e a guerra fosse tida como obscena. Isso resultaria em mundo melhor e com melhores relações entre as pessoas. Ambas as partes são encerradas pelo refrão convidativo, em que Alicia aumenta a voz para cantar: “Talvez devêssemos amar alguém/ Talvez pudéssemos nos importar um pouco mais ao invés de polir bombas de uma guerra santa”.

Se apenas recentemente a cantora decidiu abrir mão da maquiagem e passou a valorizar ainda mais sua beleza natural e quem ela realmente é, em sua música ela tem feito isso há muito tempo. Talvez aí esteja o motivo do seu sucesso. Seja por não abrir mão dessa imagem urbana ou por optar por uma música simples e sem excessos. Como já disse, o seu legado no R&B mundial é indiscutível. E com discos como Here, ela se mostra disposta a manter esse legado vivo e pulsante.

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