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OutroEu – OutroEu (2017)

Disco apresenta momentos de beleza, mas esbarra na monotonia

Por Gabriel Sacramento

Bandas egressas de programas de calouros, como o Superstar da Globo, têm um grande desafio a enfrentar: trabalhar para tornar a banda um negócio sério, digno de respeito como um grupo capaz de ser muito mais do que aquilo que apresentaram na TV.

Recentemente, o programa revelou diversos grupos e temos visto como cada um se adequa ao mercado fonográfico – alguns com mais facilidade, outros nem tanto. Em suma, as bandas devem se levar a sério, para que os ouvintes as levem a sério também.
Isso de se levar a sério e seguir na – muita vezes espinhosa – estrada da música é mais difícil ainda para bandas como Jamz e OutroEu, que foram formadas especificamente para o programa. Com o término deste, fica o questionamento se o grupo realmente terá fôlego para continuar.

outroeu_Outroeu_2017

Bem, o OutroEu continuou. Acabou de lançar o seu primeiro álbum auto-intitulado, trazendo uma sonoridade orientada ao folk – com proeminência de violões -, mas com um quê muito forte de pop.

A faixa de abertura é um dos singles e uma das primeiras faixas originais que eles tocaram no programa global. É uma boa introdução ao que vamos ouvir ao longo do disco, com folk fofo e simples. Em seguida, temos “Zade”, com uma bela melodia de guitarra, que acaba sendo a melodia vocal também. Percebemos beleza na faixa, mas o problema é que ela é arrastada e não engata. “O que te faz Feliz” segue na mesma ideia, sendo prejudicada também pela falta de um pouco de energia.

O som do OutroEu lembra muito o do Tiago Iorc. Principalmente no lado folk e na forma como o estilo é manipulado para criar atmosferas tranquilas e suaves que visam tirar toda a tensão de quem estiver ouvindo. Também se parece muito com os Arrais, principalmente nas melodias belas e na conexão simbiótica entre instrumental e vocal. Porém, mesmo que soe bonito em momentos mais inspirados, o conjunto do álbum é fraco, pois não empolga e nem se esforça para surpreender ao longo da audição. Ou seja, a banda não concede opções aos ouvintes, impondo sempre a mesma fofura confortável.

OutroEu é um álbum fácil e tranquilo de ouvir e de entender. Por um lado, isso é bom, pois delimita bem a identidade e a marca sonora da banda. Mas é por isso também que ele falha. Acaba sendo fácil demais e o ouvinte se sente um tanto desmotivado a continuar, já que rapidamente saca a identidade sonora. A banda se arrisca pouco e ficamos com a sensação de que falta muito para que o disco seja memorável. Além disso, dentro do folk pop que se propõe a fazer, não apresenta nada acima da média.

A banda ainda tem muito a fazer. Este primeiro álbum foi uma declaração de que eles estão dispostos a continuar depois da experiência na TV. Resta agora um pouco mais de ousadia e uma renovação sonora para reparar os erros e seguir em frente.

Supercombo – Rogério (2016)

Obscuro, complexo, com letras fortes e bonito

Por Gabriel Sacramento

Supercombo é uma das bandas egressas do programa Superstar da Globo, que permitiu ao grupo recordes no Spotify e uma turnê lucrativa do último álbum, Amianto (2014). Porém, antes de sua participação no programa global em 2015, a banda já tinha uma carreira com alguns discos lançados. O primeiro deles foi Festa, de 2007.

O novo lançamento – Rogério – mostra que a banda soube lidar com o sucesso do álbum anterior e isso os motivou a melhorar. A sonoridade continua roqueira, menos indie aqui, com peso desmedido em algumas partes, controlado em outras, e uma complexidade instrumental maior também.

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As boas impressões começam desde o título do álbum, que foi uma genial tentativa de personificar o “lado ruim das pessoas””, como afirmou o vocalista Leo Ramos em uma entrevista recente. Segundo ele, os fatores negativos presentes nas letras são resumidos em uma só palavra – não uma palavra, uma persona – que ganhou até foto na capa do álbum.

As letras são variadas, trazendo elementos cotidianos e comuns, contribuindo para o fator descomplicado da mensagem que o grupo passa. Desde alguns sutis versos recheados de crise existencial e de pessimismo. “Lentes” quase não entrou em Rogério, pois possui uma sonoridade bem diferente do resto do trabalho. A faixa conta a história de uma mulher que aprecia cultura oriental e fotografia, com versos bem elaborados. Em todo o disco, aparecem referências à persona que dá nome ao trabalho, sempre referido como algo ruim.

“Magaiver” abre com uma guitarra limpa e uma sonoridade que lembra o Jota Quest. Só aí, já dá pra sacar que os caras expandiram bem as ideias. O refrão é cantado pela baixista Carol Navarro. Traz a primeira das muitas participações do álbum: Keops e Raony, da banda Medulla, que contribuem com um rap. “A Piscina e o Karma” destaca o vocalista Leo Ramos e seu estilo singular de cantar. A melhor faixa do álbum vem na sequência: “Bonsai” tem o refrão mais marcante do disco, com um peso muito bem colocado, reforçado na marcação dos acordes. Além disso, traz ótimos vocais de Leo, com falsetes acertados.

“Grão de Areia” traz melodias obscuras e levemente dissonantes, explodindo em um refrão pessimista, pesado e expressivo. A performance de Raul de Paula na bateria é irrepreensível. Tem a participação de Gustavo Bertoni, vocalista do Scalene, que coloca muito bem sua voz e reafirma o poder e o peso da faixa. O lado mais dark do grupo dá as caras mais uma vez em “Eutanásia”, com Sérgio Britto, dos Titãs, emprestando sua voz, e em “Monstros”, cantada em dueto com Mauro Henrique, do Oficina G3. “Embrulho” possui a sonoridade mais variada do álbum, com efeitos eletrônicos e ritmos quebrados. Destaco o piano da canção, com as notas dançando livremente sobre a base instrumental de fundo.

“Morar” possui uma letra muito interessante, aliando críticas pesadas (“Sermão é só pra quem tem envergadura moral/ Você não tem”) à frases de efeito sensacionais como: “Em 2012 o mundo não acabou, mas a paciência sim”. “Jovem” e a faixa-título têm refrãos bem pesados, que impressionam pela mix bem feita.

O peso de algumas partes impressiona, mostrando que o Supercombo não é exatamente a banda “fofa” que podem ter parecido no programa da Rede Globo. Mas soar pesado não é nenhum mérito hoje em dia. O que faz a diferença é mostrar uma razão para ser pesado, e o Supercombo consegue isso com o conteúdo de suas letras, entregando bons refrãos e versos bem estruturados que casam perfeitamente com o instrumental. O resultado é um disco muito bom, com méritos que vão da execução de cada músico individualmente à mixagem bem balanceada.

O grupo conseguiu abarcar diferentes sonoridades dentro de Rogério, mantendo-se fiel ao rock e usando a sensibilidade para manter tudo muito em equilíbrio. Outro destaque é a complexidade instrumental. É possível notar uma noção maior de harmonia e de ritmo na música do Supercombo. Em diversos momentos, eles fazem uso de harmonias/melodias bem construídas, com dissonâncias que, no geral, engrandecem os arranjos. Também se preocuparam com os climas das canções, trabalhando para ser pesado, sombrio e bonito ao mesmo tempo.

As performances são convincentes. O vocalista Leo Ramos usa falsetes e gritos aliados à sua interpretação que sabe como colocar sentimento onde é necessário. Raul de Paula, como sempre, executa muito bem seu instrumento, reforçando a cozinha rítmica com ideias ousadas e bem elaboradas, que enriquecem a música do grupo.

Depois do sucesso de Amianto, o Supercombo soube se concentrar para fazer um grande álbum. Rogério é complexo, sombrio e obscuro, ao mesmo tempo em que é marcante e belo, com boas letras e um conceito forte. Definitivamente, o melhor disco da banda e um dos melhores do ano.

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Scalene – ÉTER (2015)

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Sabe compor, ser criativa e, principalmente, soa contemporânea, grande e poderosa

Por Lucas Scaliza

À primeira audição, O Scalene ganhou minha intenção por ser uma banda que não esconde a que veio. Mesmo as músicas que não são pesadas trazem o poder do som grave das guitarras afinadas mais baixo que o padrão. Além disso, não deixam de propor uma abordagem mais moderna que não esconde as influências reais do grupo, como Radiohead em experimentações e riffs à Queens Of The Stone Age. Que recompensa poderíamos ter melhor do que vê-los em rede nacional e a cantora Sandy tentando entender a métrica deles contando os compassos? Ou Paulo Ricardo olhando para aquilo com um sorriso no rosto e admirando alguém que tem colhões de mostrar uma música boa, com melodia, com peso e com alternância de compasso na tevê, e ainda recebendo o apoio de milhares de pessoas que gostaram daquilo sem se importar com esses detalhes técnicos (que na verdade influem muito na hora de mostrar que Scalene é uma ótima banda e tem personalidade).

2015. Crédito: Luringa/Divulgação. Banda brasiliense Scalene, que se apresenta no MUV Festival.

Foto: Luringa

A banda tornou-se mais conhecida ao chamar a atenção no Superstar da Rede Globo. Antes, porém, se apresentaram no Lollapalooza 2015 e no South by Southwest. Não há como saber se vão vencer a “competição” televisiva de bandas, mas isso não importa nem um pouco. Aliás, talvez o grupo corra mais riscos dentro de um esquema controlador como a da Globo do que encarando as agruras de seguir como banda independente. Enfim, são questões para mais tarde e que competem ao quarteto formado por Gustavo e Tomas Bertoni, Lucas Furtado e Phillipe Makako.

Por hora, eles têm um novo álbum muito competente no mercado. ÉTER não é um trabalho recheado de baladas ou que teme pisar no pedal de distorção para não afugentar o “público global”. Pelo contrário: as qualidades melódicas do grupo estão preservadas, assim como o peso de suas batidas e a agressividade de seu som. Foi uma escolha inteligente: melhor afugentar a volátil audiência televisiva de massa (que iria flutuar em direção à próxima moda logo, logo) e usar a visibilidade para alcançar um novo público que realmente gosta de rock e que entende ou se identifica com as referências da banda.

 

Se eles tinham a experimentação de “Danse Macabre” para fazer muito veterano (alô, Paulo Ricardo!) passar vergonha por ter medo de ousar, com ÉTER eles têm “O Peso da Pena”, em que o lado Josh Homme do grupo se evidencia. É quase metal… quase. Há ótimos interlúdios de teclado e baixo, sem falar nas vocalizações. Há um momento em que um acorde de guitarra soa sobre os demais instrumentos, o que lembra um ataque de guitarra distorcidíssimo também presente na perturbada “Index”, de Steven Wilson. E o que falar da valsinha “Loucure-se”? Uma das melhores faixas do disco, intensa e linhas de guitarra que misturam peso e escolhas harmônicas na linha de um Omar Rodriguez-Lopez (ex-The Mars Volta e agora no Bosnian Rainbows e Antemasque).

Em menos de 3 minutos, “Histeria” é um show a parte, mostrando que a banda vai dos riffs musculosos aos ruídos, não deixando a música ter a mesma arquitetura de sempre. E o Scalene mostra a boa mão para composição ao fazer de “Náufrago” (com seus Ooohs) uma ótima faixa para se cantar junto e ainda colocar uma alternância de compasso bem no meio do refrão. E “Alter Ego” bem que poderia ser a música pop do álbum, mas o tom grave e guitarreiro faz com que ela não saia da proposta. E não há como não ver um pouco do Radiohead anos 90 de “Just” em “Fogo”, outra das melhores faixas de ÉTER.

O quarteto também usa bastante alternância de dinâmica. Faixas que a princípio parecem que serão mais calmas acabando ganhando refrãos poderosos (caso de “Gravidade”, “Tiro Cego” e “Legado”) ou se voltam para o lado mais pesado do grupo, como a ótima “Terra”, que começa como balada e termina bastante intensa, e “Sublimação”, umas das canções mais equilibradas do trabalho. É uma alternância muito presente nos últimos álbuns do Rosa de Saron também.

ÉTER é o segundo disco da banda de Brasília, que continua soando fresca, já que não segue o rock de sua terra natal e nem as incursões indie de São Paulo e Rio de Janeiro. É mais focado e melhor gravado do que o primeiro, Real/Surreal, as letras também caem bem às composições, mas ainda não são o forte do grupo. O forte do grupo é ser uma banda com personalidade.

Não há nenhum problema no fato de Scalene ter mais a ver com o rock lá de fora do que com o rock “geográfico” brasileiro. Bom lembrar que o Skank também deixou seu “rock mineiro” para ir buscar inspiração e expressão no rock inglês há uns bons 10 anos. Scalene é a banda que faltava ao rock nacional, que não tem medo de impressionar, sabe compor, ser criativa e, principalmente, soa contemporânea, grande e poderosa. Não por acaso, após ouvir ÉTER fica a impressão de que é preciso conferir o repertório ao vivo para ter certeza de que essa força toda vai chegar até você.

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