synthpop

Japanese Breakfast – Soft Sounds From Another Planet (2017)

O synthpop garageiro de Michelle Zauner fica ainda mais legal

Por Lucas Scaliza

De todas as coisas que deixamos passar em 2016 (como o lindo Kodama do Alcest, um disco da Emma Ruth Rundle, e muito do que rola no Instagram do Escuta Essa Review), com certeza me arrependo de não ter falado de Psychopomp, a estreia de Michelle Zauner solo, sob a alcunha de Japanese Breakfast. Ela deixa o emo do Little Big League para lá e abraça um som que fica entre o “deixa-que-eu-mesma-faço-minhas-coisas” de uma Courtney Barnett e a produção indie pop cheia de teclados do Little Dragon (que é uma banda sueca liderada por uma descendente de japoneses, e apesar do nome do projete, Zauner descende de coreanos).

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O caso é que Psychopomp é uma gracinha de disco, suave como um synthpop e com atitude roqueira. Faixas curtas que se entrelaçam muito bem e fazem o álbum soar quase como uma única peça musical. Soft Sounds From Another Planet segue a mesma receita, mas melhor e mais exploratório. “Diving Woman” já abre o álbum com quase tudo o que ela tem: uma interpretação vocal emocional, mas não dramática, solo de guitarra noiser, teclados estranhos, linha de baixo contagiante. E nada forçado, tudo descendo pelos tímpanos com naturalidade.

Embora o estilo sonoro seja o mesmo do álbum anterior, fica evidente a melhora na qualidade de gravação e mixagem. Em diversos momentos de Psychopomp parecia que a voz de Michelle Zauner estava “descolada” da música, como uma cena em que a cena entre um ator e um fundo de chroma key parece mal recortada. Havia até um charme meio indie, meio punk nisso, mas agora está devidamente corrigido.

Músicas como os singles “Boysh” e “Road Home” (que tem um ótimo clipe, aliás) definem muito bem quem é e como é o Japanese Breakfast. Música levemente new wave, com melodias e melífluas e aquela doçura que é misto de melancolia e fofura indie. Já “Machinist” e “Planetary Ambience” carregam a artista um pouco mais para o território da música eletrônica. Já “12 Steps” volta a mostrar sua veia mais relaxada e roqueirinha. E lá no fim do álbum ela fica bastante sentimental com a beleza clean de “Till Death” e o folk árido de “This House”.

Ela não perde a mão – e nem a vibe – em momento algum, expandindo a gama de sonoridades que já estavam no disco do ano passado. O que já era bom, ficou ainda mais legal em SSFAP. Embora rico em sons e ambiências, não é um disco que parece distante do ouvinte, como a jornada espacial-folk-experimental de Sufjan Stevens e tchurminha no recém-lançado Planetarium. É como se Michelle Zauner, cantando com o despojo de “Body Is A Blade”, fosse sua amiga. Ela te entende e espera que você também veja a sinceridade de sua melancolia good vibes.

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Tove Lo – Lady Wood (2016)

Sensual, climática, imaginativa, acessível

Por Gabriel Sacramento

Tove Lo faz parte de uma geração de artistas pop que tem pensado o estilo de uma forma diferente. Seu disco de estreia, Queen of The Clouds (2014), confirma isso pelo fato de ser conceitual e mesmo assim soar pop eletrônico acessível. Em seu novo trabalho, Lady Wood, a sueca investe em sensualidade e ousadia para continuar escrevendo seu nome na cena pop com destaque.

Cena que já teve o ABBA, um dos grupos mais importantes da história da música popular na Europa e que influencia muita gente por lá até hoje. Tove Lo tenta dialogar com o público jovem, exigindo um pouco mais de raciocínio para pensar suas temáticas e para entender a sua musicalidade.

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Foto: Victoria Stillwell

A capa do disco já sugere algo bem ousado. E a influência da Madonna não fica só na capa, mas vai também à sensualidade das letras e à atitude.

Fazendo um paralelo com Lady Gaga, um fenômeno do eletropop anos atrás, podemos compreender ainda mais os detalhes que fazem a diferença no som da sueca. Gaga, no início da carreira, soava grandiloquente, superdançante, com bases eletrônicas cheias e pesadas. Já Tove Lo busca caminhos mais simples, mais calmos e menos baladeiros para expressar os seus sentimentos.

E põe sentimento nisso! Se no primeiro disco ela falou de relacionamentos que acabam de forma dolorosa, neste ela faz questão de contar algumas histórias de suas relacionamentos, mas fugindo dos clichês. A faixa título, por exemplo, traz uma expressão que faz referência à excitação sexual feminina (“Lady Wood”), enquanto fala sobre sua resistência diante de um relacionamento com alguém mal visto pelas pessoas. Já em “Cool Girl”, ela brinca com os diferentes significados da palavra “cool” (que pode ser legal e fria). E em “Influence”, ela fala sobre o poder da influência externa sobre as pessoas.

Musicalmente, o disco envereda pelo eletropop, com um pouco de synthpop. Podemos perceber sintetizadores bem timbrados, beats simples, bases econômicas bem profundas e distantes e reverberações pesadas. Em casos como “Imaginary Friend” é impressionante como ela trabalha os ecos e a grande quantidade de reverb mixada à melodias bonitinhas. Soando bem espacial e imaginativa. Ao contrário da vibe pra cima do pop encharcado de synths para as pistas, temos em Lady Wood simplicidade e preferência por elementos mais climáticos. Em alguns momentos, soa levemente dançante, mas as bases continuam as mesmas e o bom gosto por timbres também.

“Influence” escancara esse tipo de escolha da cantora em se tratando de bases sintetizadas. A base soa distante e minimalista, enquanto seus vocais soam mais próximos, mais suaves e acessíveis. O mesmo acontece na faixa-título, com uma base surpreendente de tão simples. A participação de Wiz Khalifa em “Influence” não impressiona e traz um problema que temos discutido muito nos podcasts (aqui e aqui): a participação de rappers em músicas pop, dentro de um espaço curtíssimo, que não permite que o rapper possa se desenvolver, nem contribuir significativamente para a faixa. O timbre de sintetizador de “Cool Girl” lembra de cara o que fora usado em “Hang Me Out To Dry”, no disco do Metronomy deste ano. Já “WTF Love Is” segue uma linha mais dançante, mas ainda assim com uma  base densa e linear.

Fazendo um pop bem elaborado, com letras bem escritas e sonoridade que foge do mais fácil, Tove Lo reafirma seu potencial de se tornar uma grande referência no pop sueco. Ela busca ser sincera com sua música, entregando um álbum consistente. Nos intriga a forma como ela soa acessível e ao mesmo tempo climática, minimalista e alternativa. É instigante também a forma como ela escolhe temas comuns e os aborda de uma forma pouco comum e profunda. Um disco pop que vale a pena ser ouvido várias e várias vezes.

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The Naked And Famous – Simple Forms (2016)

Novo álbum do TNAF investe direitinho onde é preciso para ganhar o público mais rapidamente

Por Lucas Scaliza

Foi-se de vez a veia roqueira o grupo neozelandês The Naked And Famous permitia se misturar ao seu synthpop. Durou pouco. Apenas o primeiro álbum, Passive Me, Agressive You (2010) teve a ousadia de propor um pop carregado de sintetizadores e teclados que deixava guitarras distorcidas bem pesadas pressionarem os tímpanos dos ouvintes em faixas como “No Way”, “Jilted Lovers”, “Frayed”, “Spank” e “A Wolf In Geek’s Clothing”. Era muito difícil falar da banda sem mencionar esse lado mais áspero de seu som, que acabava sendo um diferencial.

Entre o segundo e o novo álbum do quinteto, duas coisas aconteceram: as partes mais roqueirinhas foram polidas e suavizadas em In Rolling Waves (2013) e o trio escocês Chvrches trabalhou direitinho sua música e seu business para virar a cara do jovem synthpop da década. É bem possível que os neozelandeses tenham influenciado em algum nível os ingleses, mas agora o que vemos é o The Naked And The Famous tentando trilhar o caminho (re)aberto pelo Chvrches.

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Isso não significa que o TNAF esteja copiando Lauren Mayberry e sua turma. A essência musical da banda ainda é a mesma. Inclusive, a cantora Alisa Xayalith demonstra um amadurecimento vocal enorme e é uma vocalista mais completa do que Mayberry. O que aconteceu é que o som do TNAF perdeu muito de sua pressão roqueiro para ganhar pressão pop. Batidas potentes, teclados e sintetizadores para todos os lados ressaltando a presença de elementos eletrônicos e atmosferas corpulentas.

Porém, se In Rolling Waves foi um disco que beirava o sem graça, Simple Forms recoloca a banda em uma rota que faz valer a pena ouvi-la. “Higher”, “The Water Beneath You” e “Last Forever” e a ótima “Backslide” são potentes e diretas. Xayalith não economiza em seus dotes vocais para cantar bem alto e afastar qualquer tédio que a banda possa ter suscitado no passado. E não faltam canções que tenham um enorme apelo melódico, como “Laid Low” e “The Runners”. Thom Powers, o guitarrista, encontra seu espaço e ainda mostra que usa bastante o pedal de distorção, principalmente em “Energy” e com certo destaque na ótima “Falling”, mas se antes era ele e seu instrumento que podiam fazer o volume subir, agora são os sintetizadores que conduzem os ânimos do grupo e ditam a textura de todo o álbum.

A maior suavização da banda pode ser sentida em canções mais lentas, que agora estão melhor produzidas e melhor compostas. É o caso de “Losing Our Control”, que não foge muito do lugar comum o conjunto dos instrumentos se arranjam bem, e “Rotten”, que é a música menos ansiosa e consegue expressar um clima eletrônico mais futurista e menos ultrapop.

A veia mais punk, ou industrial, do TNAF ainda é perceptível nas ondas sonoras distorcidas do baixo, da guitarra e do sintetizador que aparecem em algumas faixas. Embora esteja bem claro que a banda precisou se entregar muito mais ao synthpop, ainda há sons mais ásperos, ainda que não tanto quanto antes. O Chvrches, embora funcione bem, no geral é ainda mais pop que o The Naked And Famous.

Se a ideia é ganhar alguns postos no cenário pop europeu e americano, Simple Forms parece investir direitinho onde é preciso para ganhar o público mais rapidamente. É um grande álbum por entreter seu ouvinte do começo ao fim, mas não é um grande álbum que deverá ficar na memória como um dos grandes de 2016, seja dentro do estilo ou no geral da música produzida este ano. Para quem está chegando agora ao The Naked And Famous, é uma entrada rápida (o disco tem apenas 40 minutos de play) e acessível, podendo agradar tanto fãs de Lady Gaga e Britney Spears quanto de Chvrches e pop indie mais festivo. Quem já conhecia e talvez já não esteja curtindo mais tanto assim, pelo menos fica a certeza de que como banda – cantores e instrumentistas – continuam melhorando.

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Kaiser Chiefs – Stay Together (2016)

O Kaiser Chiefs virou uma banda pop. Mas é um pop muito peculiar

Por Gabriel Sacramento

Acostume-se: o Kaiser Chiefs agora é uma banda pop. Inclusive, esse não é um fenômeno novo. É comum bandas que começam fazendo rock se tornarem pop com o tempo. No momento que digito este texto, duas grandes me vêm à cabeça: Maroon 5 e Coldplay. Porém, uma boa notícia: o pop do Kaiser Chiefs é bem peculiar, não genérico.

A banda, que surgiu como uma versão moderna e divertida dos Beach Boys, junto com punk e new wave, se aventura pelo pop com muita propriedade, simplesmente porque as boas referências deles continuam sendo expressas mesmo quando o objetivo é soar mais acessível. Isso faz o pop soar simples, pretensioso, mas unindo ideias diferentes. Ao contrário de muita gente por aí, que foca na replicação dos mesmos clichês, o Kaiser Chiefs parece querer algo diferente com o pop deles.

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A faixa título abre o disco deixando clara a proposta mais leve e acessível. Os vocais graves de Ricky Wilson nos remetem a algo diferente dentro do pop, até que a canção chega ao clímax com uma base simples e vocais mais altos. “Good Clean Fun” é divertida, com um clima tranquilo e arranjos descomplicados. As guitarras surgem marcando acordes numa levada reggae, com detalhes bem interessantes. “Indoor Firework” soa bem parecida com The Smiths. Possui uma base instrumental linear e floreios onipresentes de guitarra. “Parachute”, com uma base densa e sintetizada no refrão, pode funcionar bem nas pistas. “Hole In My Soul” é o Kaiser Chiefs soando como os caras do MAGIC!. E na eletropop “Press Rewind”, eles fazem questão de anunciar no início da faixa: “Isto é pop music, você está ouvindo um disco de pop music”.

Quem colocar Stay Together para tocar logo depois de Education, Education, Education & War (2014) vai tomar um susto. O anterior é muito mais nervoso, com muito mais guitarras, com peso, urgência e menos pretensão que este novo trabalho. Embora não seja ruim, Stay Together representa um distanciamento enorme do que eles já fizeram. Vale lembrar que o apelo pop existia antes, mas era implícito, no meio das guitarras e de um certo clima mais irreverente e agressivo.

A diferença absurda vai desde as timbragens e execuções até as canções em si. Stay Together alarga os objetivos do grupo e escancara o desejo por mais sucesso dentro do cenário musical. Mas a grande questão não é o desejo pelo sucesso, e sim como eles fizeram isso: mantendo certas características do pop britânico, da new wave e do synthpop. É como se mantivessem uma proximidade muito grande com um som mais descartável, mas não chegasse a soar dessa forma, pois possui um sentimento de nostalgia, que se destaca de algo mais genérico e nos traz a sensação de estar ouvindo o bom pop do Reino Unido de décadas atrás (sim, aquele do Tears For Fears, Duran Duran e New Order).

Comparado com o Bastille, um dos mais famosos grupos de indie pop britânicos da atualidade, o Kaiser Chiefs soa mais criativo. Essa comparação nos faz perceber e compreender ainda mais os méritos do novo trabalho. O Bastille investe mais fortemente em clichês e fórmulas já usadas, enquanto o Kaiser Chiefs tenta encontrar a sua própria maneira de soar pop. O Kaiser também mostra uma preocupação maior em arranjos que façam a diferença, ainda que sejam simples, com detalhes às vezes até difíceis de perceber, mas que no conjunto elevam a qualidade dos arranjos e dão um charme maior. Há também uma preocupação maior com timbres no som do KC.

Entretanto, o grande ponto negativo do disco é que o Kaiser Chiefs não soa como Kaiser Chiefs. É normal que os fãs critiquem o novo trabalho, pois o grupo apresenta uma identidade muito diferente do som com o qual estamos acostumados. Soa como outra banda, mostrando que toda aquela energia dos lançamentos anteriores está esquecida e foi deixada de lado. Mudanças como essa geralmente são feitas aos poucos, para que as bandas acostumem os fãs. Mas não foi assim com o KC. No entanto, a nova sonoridade aponta para uma nova fase, e nos acende a curiosidade: não sabemos se eles vão continuar investindo no pop ou voltar ao som mais pesado. Resta esperar pelo próximo disco.

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Escuta Essa 05 – Só Os Tops!

Episódio 05 do Escuta Essa Review em clima de baladinha. Será???

O que achamos do esperado “Sorceress”, do Opeth, e do primeiro disco do duo carioca Bilhão, representante do cross over entre synthpop e MPB. E tem muito mais! Coloque seus fones, aumente o volume e divirta-se, porque hoje é tudo open bar!

Ouça e faça download do episódio neste link!

Outros artistas do episódio:
* Calvin Harris
* Testament
* The Naked And Famous
* Kansas
* deadmau5

 

Podcasts: http://soundcloud.com/escutaessareview
Facebook: www.facebook.com/EscutaEssaReview
Contato: escutaessareview@gmail.com

Resenha de “Sorceress”, do Opeth: goo.gl/0jq7gZ
deadmau5 recria tema de Stranger Things: goo.gl/Wh9E4c

Metronomy – Summer 08 (2016)

Joe Mount evoca nostalgia e nos faz voltar a 2008 (ou seria aos anos 80?)

Por Gabriel Sacramento

Se um dia alguém construísse uma máquina do tempo, para qual momento na história você gostaria de voltar? Muitos diriam para 1969, época do Woodstock e dos Beatles. Outros, para os anos 80, na ascensão do rock brasileiro. Já Joseph Mount, vocal e líder pensante do Metronomy, gostaria de voltar para 2008. E foi pensando nisso que ele gravou Summer 08, novo álbum do grupo.

O Metronomy é umas das bandas do cenário indie rock que mais valem a pena. Porque eles vão além do indie e buscam referências eletrônicas para rechear o som. Esse mix entre os gêneros é chamado de indietrônica. Se você já ouviu algum dos discos do grupo britânico sabe bem o que quero dizer. As referências aos estilos oitentistas, como o synthpop, são claras. Uma música direta, simples, com poucos elementos, mas que fazem a diferença.

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Foto: Sebastien Bozon/AFP/Getty Images

Summer 08 é tão bom em termos de indie rock quanto os outros. Mas em termos de produção e sonoridade é ainda mais grandioso. É possível perceber que eles se aprofundaram no eletrônico, diluindo ainda mais a pegada mais orgânica.

A produção é do próprio guitarrista e vocalista Joseph Mount e a nostalgia é o centro do álbum. Mount revelou em algumas entrevistas recentes que escolheu nomear o disco referenciando o primeiro verão que passou fazendo turnê com sua banda. E, de certa forma, Mount quis resgatar aquela época. Em 2008, o Metronomy lançou Nights Out, um disco dançante e cheio de elementos eletrônicos. O novo trabalho é o mais dançante em anos, o que torna ainda mais lógica essa conexão entre os álbuns e os momentos temporais. E claro, como já afirmei anteriormente, o disco vai longe e nos entrega claras menções à onda que dominava nos anos 80.

Ao ouvir o álbum, percebemos que eles não só diversificaram com relação ao que fizeram nos dois últimos – o melódico e bonito English Riviera (2011) e o intimista Love Letters (2013) – mas também acertaram muito a mão nos toques eletrônicos e floreios dançantes. Os detalhes fazem o disco valer a pena. Por exemplo, as escolhas de timbres eletrônicos em “Old Skool” junto de elementos de hip hop. A faixa, que foi liberada como single, possui um baixo forte valorizando a melodia principal, enquanto nos convida a dançar groovando com a bateria eletrônica.

A batida forte da bateria abre “16 Beat” e as melodias excelentes conquistam até o ouvinte de primeira viagem. A irresistível “Hang me Out to Dry” com a cantora sueca Robyn, é uma das melhores faixas da banda (e do ano!). A banda alterna estes momentos dançantes e extrovertidos com momentos mais leves e densos como “Night Owl” e “Mick Slow”.

Summer 08 chega ao fim nos deixando com vontade de ouvir mais. Os sintetizadores, timbres e escolhas estéticas mais dançantes que são contrastadas com seções mais calmas e contemplativas são fatores positivos do álbum. A voz do Mount está muito bem colocada nas faixas e nos arranjos, contribuindo para que tudo soe único e original.

O grau de anacronismo de Summer 08 permite que o disco seja destacável frente às produções mais recentes da mesma cepa. O eletrônico abraça o indie, com escolhas que podem soar até estranhas para ouvidos desacostumados, mas depois de um tempo soam fantásticas. Tudo isso realça a mente criativa e o poder de fogo do Mount na liderança da banda. Por essas e outras, podemos afirmar que estamos diante de uma das melhores obras musicais do ano.

O synthpop e a new wave dão as caras e são alvos claros do Metronomy na busca por sua sonoridade. Mesmo que o disco faça referência a oito anos atrás, na época esse tipo de som já era considerado anacrônico. Então é provável que essa nostalgia nos leve à anos anteriores. Ou seja, Mount nos convida a entrar na máquina do tempo e não nos diz ao certo quanto tempo iremos retroceder. Apenas nos garante que a viagem valerá a pena. E realmente vale.

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Foto: Phil Sharp

Metric – Pagans in Vegas (2015)

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Pop, animado e trocando as guitarras pelos sintetizadores

Por Lucas Scaliza

Desta vez, o quarteto canadense Metric pode tirar de campo o rótulo de banda de rock indie. Ainda que Synthetica (2012), o disco anterior, já fosse bastante processado por timbres eletrônicos e levadas mais pop, era um trabalho em que a construção das músicas (dedilhados de guitarra, viradas de bateria, o papel do baixo) ainda seguia uma linha que facilmente traçaríamos ao típico rock. Já o novo Pagans In Vegas é synthpop do começo ao fim e banda parece um pouco diluída na produção do álbum.

As músicas de Pagans In Vegas são mais fáceis e bem mais palatáveis do que as dos discos anteriores. Emily Haines, tecladista e cantora do grupo, afirmou que o disco buscava pelo menos três coisas. A primeira seria homenagear os heróis do grupo, como Depeche Mode, Joy Division e Underworld. Bem, é notável que esses grupos têm alguma influência no som do Metric, mas neste álbum especificamente não parecem tão próximo de qualquer um deles. Estão melhor desenvolvendo a veia pop da banda do que recuperando as texturas eletrônicas e post –punk que não raro soavam melancólicas e fora de lugar. Os paulistanos do Remove Silence chegaram muito mais perto do Depeche Mode com Irreversible e nem estavam querendo prestar nenhum tipo de homenagem. “The Shade” talvez seja a faixa que mais se aproxima do Depeche Mode, graças ao poderoso uso de sintetizadores que dominam a faixa toda.

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O segundo objetivo seria capturar “o romance de uma época passada sem cair na nostalgia”. Se aproximaram bem melhor deste objetivo. O disco não te deixa desejoso de ir para o passado em momento nenhum. É, pelo contrário, uma coleção de músicas que te empurram para a frente, para texturas modernas, animadas, sempre ladeadas por batidas fortes, marcadas e por ótimas melodias de Haines e refrãos que funcionam. Os elementos retrôs e vintage estão aparentes em “Celebrate”, que tem algo de anos 90 e da década passada no jeito de usar o teclado e os efeitos eletrônicos, e também em “Cascades”, que promove um encontro do ritmo oitentista com filtros vocais que ganharam as pistas no anos 90, mas nenhuma das duas é uma experiência temporal muito profunda. O Currents do Tame Impala, o Multi-Love do Unknown Mortal Orchestra e o The Desired Effect do Brandon Flowers soam tão anos 60, 70 e 80 (nessa ordem) quanto atuais, e apenas Flowers cai na nostalgia.

A terceira seria explorar os dilemas da vida em uma época em que as más notícias são inevitáveis e a grande arte é salva vidas. É um objetivo bastante pretensioso para a música pouco pretensiosa de Pagans In Vegas. Vejamos: más notícias inevitáveis sempre foram um fato para a humanidade, a única diferença é que, por meio de tantos meios de comunicação e gadgets digitais, temos acesso mais amplo, variado e rápido a elas. Em seguida, de que grande arte estaríamos falando? Por melhor que o álbum possa ser, não estará nem entre os melhores do ano e não se sustenta tão bem quanto Synthetica. Por outro lado, músicas são tão animadas que contagiam qualquer um. E este é, ao meu ver, o verdadeiro poder do disco. Por cerca de 50 minutos é possível esquecer os problemas e entrar numa vibe acolhedora e cheia de luz.

E assim “Lie Lie Lie” se revela uma música crítica por baixo de seu synthpop em que a banda critica o show business abertamente e as celebridades que se deixam manipular, citando tanto aqueles que precisam estar dopados numa capa de revista até a atriz que se permite ficar nua num filme só para bancar o cãozinho do diretor (e assim ganhar mais papéis na indústria). O Que essa música denuncia é, afinal de contas, a falta de talento (ou falta de confiança no próprio talento) que acaba tomando atitudes desviantes.

“For Kicks” é ótima, principalmente por seu refrão, mas o arranjo de guitarra nos versos nos faz perceber o quanto o instrumento está apagado no álbum. O guitarrista e produtor James Shaw deve ter ficado tão ocupado com as texturas de sintetizadores que deve ter sentido que a guitarra não faria muita falta. O curioso é que em Synthetica, que já tinha bastante de synthpop, o Metric continuava marcando seu espaço roqueiro com o jeito criativo de colocar a guitarra de Shaw com distorção e tudo no meio das faixas. Aqui são teclados e sintetizadores que ditam como as faixas vão se desenvolver. Na poderosa e ótima “Too Bad, So Sad” temos uma veia roqueira mais proeminente, mas mesmo assim nada que tire a faixa do âmbito pop. E em “The Governess” temos arranjos simples, mas que ficam bem e tiram um pouco da cara sintética do álbum. A voz de Haines e refrão alto fazem a faixa parecer algo que a Madonna faria caso saísse da aba de produtores e seguisse um modelo menos previsível, mas ainda assim bastante acessível.

Emily Haines teve acesso a tantos novos instrumentos e o grupo todo compôs tanta coisa juntos que o material total caberia em dois discos. Um deles é Pagans In Vegas que é uma boa contribuição ao lado mais texturizado e sintetizado do Metric, mas nada que vá alçar a banda para fora do reduto indie. O outro deverá sair em 2016, talvez com uma pegada mais orgânica. Não que Pagans In Vegas seja ruim, pois é um bom álbum pop, mas olho com mais confiança para o próximo.

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