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Capitão Nemo – Bon Voyage (2017)

Quinteto de Piracicaba (SP) aborda questões sociais atuais sem perder a fluidez do rock vintage

Por Lucas Scaliza

Em Piracicaba, cidade do interior de São Paulo onde a música sertaneja é rainha, o rock ainda é crítico. E lírico. Bruno Razera (vocal), Denis Floriano e Matheus Fagionato (guitarras), Caio Mendes (baixo) e Otavio Bacchin (batera) são a atual formação da banda Capitão Nemo. Bon Voyage, produzido por Claudio Sanchez Vicente, aposta em canções de rock que visitam décadas passadas enquanto as ideias e mensagens são reflexo atualíssimo de nossa realidade.

Embora “Palavra de Ilusão” e “Mais Valia” tenham cara de single, pois são músicas facilmente alinháveis à tradição do rock/pop brasileiro (inclua aí de Titãs a Skank), a banda Capitão Nemo mostra do que é capaz tecnicamente e criativamente a partir da terceira faixa: “Quero Sim” tem riffs à Jimmy Page, um refrão infalível e mudanças de ritmo fluidas que lembram os melhores momentos do Tianastácia. Em seguida, “Otário ou Visionário” é um passeio por tantas referências que deixo para os ouvintes pescarem o que quiserem de lá. Dá pra adiantar que a banda faz bem uma mistura de violão MPB, com acordes com crunch, ponte com acordes que dão um efeito de suspensão da gravidade e participação bem encaixada do teclado.

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Enquanto álbum de rock, Bon Voyage aposta em um meio termo sonoro: não é acelerado como o Rebel Machine (falamos dessa banda gaúcha neste podcast) e nem aposta em um som encorpadíssimo como o do Ego Kill Talent (resenhado neste podcast). A distorção existe que no disco todo, mas bastante comedida, com o knob do pedal regulado conscientemente em um grau suficiente para tocar em rádios sem assustar ninguém. Ou seja, Bon Voyage é um disco que tem sim qualidades comerciais sem precisar abrir mão da identidade roqueira.

Se a julgar pelas duas primeiras músicas do disco parecia que o quinteto piracicabano tendia para canções mais protocolares, as oito seguintes mostram que não: misturas, referências acertadas (que vão de Led Zeppelin à The Doors), técnica a serviço da musicalidade e não da exibição. Se me dissessem que “Pseudolgum Lugar” é uma composição feita entre 1967 e 1969 eu acreditaria. E a riqueza de arranjos dessas oito músicas e uma boa quantidade de solos destoam do que é feito no rock/pop atualmente, já que a maior parte das bandas de rock – ou o que sobrou delas que ainda tocam em rádios – preferem dar ênfase em suas músicas mais padrão. E o padrão já faz alguns ano é não ter solo de guitarra e nem variar muito no ritmo ou dinâmica, duas coisas que Capitão Nemo faz e eu os saúdo por isso!

Bruno Razera, cantor e principal compositor do grupo, mostra que Capitão Nemo não é uma banda apenas de entretenimento. Os temas de suas letras passam longe do amor juvenil ou da angústia mais dramática de um millennial. Vamos percebendo essa qualidade no jeito de abordar assuntos faixa após faixa, mas quando chega a balada “Joe”, rica em violões e com uma das melhores performances vocais de Bon Voyage, vemos que Razera segue uma linha de autor como a de Nando Reis, do tipo que te fisga com versos certeiros e desenvolve uma história com a qual fica difícil não se envolver caso você preste atenção no que está sendo dito. Dá até para descer até o Rio Grande do Sul e encontrar uma intenção parecida com a de Humberto Gessinger em músicas que refletem sobre nossa injusta sociedade.

O teclado não é onipresente, porém é notável quando aparece. Em “Minha Pequena” ele não só consegue algum protagonismo como também exibe um timbre vintage oitentista que remete mais à MPB do período do que propriamente ao rock. Já “Dama de Vermelho” é a composição mais suja do disco, com riffs carregados de fuzz e pegada roqueira clássica.

Bon Voyage é um ótimo primeiro álbum. Preocupado com as letras e com os arranjos, não deixa de ser rock ao mesmo tempo em que deixa claro que tem mais que rock no seu mix de referências. Numa época de golpes políticos e notícias reais que parecem fictícias, Capitão Nemo faz uma viagem pra psedolgum lugar e espera que você enxergue o que está a sua volta de forma mais crítica, que tenha empatia pelos Joe que encontrar no caminho e que, acima de tudo, não perca a esperança e nem a vontade de viver.

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The Strypes – Spitting Image (2017)

Confie no rock’n’roll que vem da irlanda

Por Gabriel Sacramento

Quatro garotos europeus muito jovens, de boa aparência, fazendo rock. Não, não estou falando dos Beatles, embora esse grupo que vem da Irlanda goste de referenciar o fabfour, desde o som à aparência do início da carreira. Os Strypes não parecem intimidados pelo fato de serem muito jovens (começaram a banda com membros de 15, 14 e, pasmem, 13 anos) e pelo fato de terem como fãs declarados Elton John, Dave Grohl e Paul Weller. Não estão nem um pouco assustados, mas na verdade os garotos, que hoje têm vinte e poucos anos, acham até bom o fato desses medalhões torcerem por eles.

O visual varia dos Beatles aos Byrds, indo do arrumadinho com terno bem passado ao mais desleixado. O som era mais blues rock no primeiro disco e evoluiu, mas sempre mantendo uma aura anacrônica e referenciando os clássicos Dr. Feelgood, The Clash, Rolling Stones, Chuck Berry, dentre outras influências. Enquanto outros quartetos de meninos de vinte anos estão por aí tocando música adolescente, estes garotos resolveram tocar rock’n’roll, punk, blues, misturando tudo isso sob uma égide garageira e a velha filosofia do faça-você-mesmo. 

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Se você, assim como eu, também acha curioso que as bandas de rock agressivas e divertidas da década passada injetaram muitas doses de bom-mocismo em seu som, perdendo a urgência tão característica, como fizeram os Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e The Killers, vai se surpreender com o som desses garotos que têm mantido a atitude até agora, deixando transparecer até nas entrevistas um visual e uma pegada um tanto transgressora que lembra os grupos dos anos 60.

Spitting Image tem produção de Ethan Johns (Paul McCartney, Tom Jones) e parece soar um pouco mais garageiro e com uma produção menos polida que o anterior, Little Victories (2015). “(I Need a Break From) Holidays” mostra toda a veia punk, com um pouco de indie, que vai lembrar os bons momentos de Arctic Monkeys e Strokes. “Easy Riding” começa mais tranquila e chega a um refrão empolgante, total rock’n’roll. A faixa mostra como a banda trabalha bem a dinâmica, indo bem de momentos mais melódicos a outros mais cheios de adrenalina. “Turnin’ My Back” lembra bem as boas bandas punk dos anos 70, com um órgão bem articulado no fundo. “Grin and Bear it” é uma aula de como fazer uma música cool, mas com uma boa atitude roqueira. Mesmo envolvidas em guitarras agressivas e diretas, as melodias de “Behind Closed Doors” são ótimas e ficam na cabeça.

Spitting Image é um grande disco do quarteto e continua reafirmando que eles são uma boa referência para quem procura um som mais agressivo e garageiro. Em cada álbum, eles focaram em facetas diferentes, o que pode ser interpretado de duas formas: 1) Não definiram perfeitamente o som ainda ou 2) Suas influências e referências são tão amplas que eles desejaram fazer discos diferentes para explorar mesmo. O fato é que tudo soa muito bem e há uma coesão interessante entre o que já lançaram. Eles conseguem soar garageiros sem a grande produção do Royal Blood ou Black Keys, com ótimas faixas, ótimas melodias, solos e todos os outros elementos desse tipo de rock que as suas influências faziam. A evolução da banda tem sido impressionante, o som deles tem tomado forma e tem ganhando consistência, com tudo sendo feito sem muito esforço. Eles soam como o tipo de banda que chega no estúdio e não tem muitos problemas em gravar suas ideias, pois sabem exatamente o que querem.

Os jovens irlandeses captam bem o espírito roqueiro, jovial, insurgente, muitas vezes inconseqüente, que marcou os anos 50, os anos 60 com a psicodelia, os anos 70 com o punk, os anos 80 com o glam rock, os 90 com o grunge e britpop e a década passada com os revivals e o que ficou conhecido como indie rock. Os Strypes trazem todo esse panorama para o nosso tempo, mantendo a chama acesa e honrando o rock’n’roll de ontem, de hoje e de sempre.

É impossível não associar com o som dos já citados Arctic Monkeys e Strokes, que fizeram tanto alarde no cenário roqueiro mundial na década de 2000, chegando a serem chamados de “salvadores do rock”. Depois de tantos anos, a confiança nesses dois já não é a mesma, mas podemos confiar nos nomes menos esperados e que surgem com menos pretensão, mas que são honestos na hora de entregar um produto que garante uma boa experiência. Os Strypes têm isso e podem ganhar o mundo sem problemas com seu som e proposta super interessantes. Confie nesses garotos. O rock está muito bem de saúde e são jovens como estes que fazem questão de deixar isso bem claro.

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Childish Gambino – Awaken, My Love (2016)

Donald Glover cresce em melodia e pretensão e tenta ser o D’Angelo de 2016

Por Lucas Scaliza

Awaken, My Love só foi lançado depois que várias importantes listas de melhores álbuns do ano já tinham sido fechadas e divulgadas. A pressa editorial de várias dessas publicações (algumas divulgaram suas listas antes mesmo de nascer o primeiro dia de dezembro) se baseou no fato de grandes os últimos grandes lançamentos do mercado musical terem se concentrado no mês de novembro. Mas é sempre bom lembrar que há quem gosta de surpresas. Como D’Angelo And The Vanguard, que pegou todo mundo desprevenido com seu incrível Black Messiah no apagar das luzes de 2014.

2016 teve seu D’Angelo: Childish Gambino, o nome musical do ator Donald Glover, chegou com um álbum pretensioso, variado e poderoso. Teria entrado em várias listas de melhores do ano – inclusive a nossa – caso tivesse sido lançado antes. O que Gambino/Glover consegue fazer em Awaken, My Love vai muito além do que seu rap e hip hop de Camp (2011) e Because The Internet (2013) tentaram ser.

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Embora o rap puro nunca tivesse sido a praia de Gambino e seus discos anteriores tivessem sempre algumas faixas mais melodiosas, pop e comerciais, foi o EP Kauai (2014) que melhor indicou a abertura sonora do músico para o que viria a seguir. Rap, hip hop, soul, funk, R&B, um tiquinho de jazz e psicodelia se fundem e se confundem de um jeito que faz a cabeça fervilhar com diferentes referências musicais espalhadas por quatro décadas de produção.

O funk rock de “Boogieman” é uma volta ao estilão clássico, orgânico e cheio de balanço do Funkadelic setentista. Não é apenas especulação a influência do Funkadelic. Até a capa do disco de Gambino é uma referência ao clássico Maggot Brain, de 1971, que é assumidamente um dos discos preferidos do ator e cantor. A música também evoca um tipo de bicho-papão dos Estados Unidos (lá chamado de “bogeyman”, mas musicalmente transformado em “boogieman” na faixa) que, na canção, assume o papel de um policial “com arma na mão” e que pode atirar em um negro. Fica aí a crítica social aguda de Gambino travestida de entretenimento retrô. A excelente abertura com “Me And Your Mama” também é um marco do disco, estabelecendo toda a estética que se seguirá ao longo do álbum, com uma pegada muito orgânica, timbres abafados e coral gospel.

“Redbone”, um dos singles do disco, é lenta e devotada ao estilo de soul popularizado pelo Prince. Embora não pareça, é o próprio Gambino que canta a faixa, de uma forma muito mais aguda e bem diferente de tudo que já mostrou, provavelmente para poder emular o cantor de “Purple Rain”. “Baby Boy”, que toma emprestado o jeitinho de Sly And The Family Stone é outro destaque mais lento do disco e com uma interpretação caprichada do cantor. “Zombies” tem um cativante refrão, mas todo o resto depende de sua entrega ao soul para curtir ou não. É lenta, o que contraste drasticamente com a energética “Riot” e sua guitarra carregada de efeitos de expressão vintages.

A principal diferença de Awaken, My Love para os outros discos de Childish Gambino é que desta vez a obra é muito mais melodiosa. Há muito mais um Gambino cantor do que rapper, mudança que sozinha é suficiente para mudar todo o jeito como ele pensa sua música. E com todas as influências e (aparentes) referências citadas acima, suas harmonias e técnicas de produção estão muito mais sofisticadas dessa vez. “Terrified” é um grande exemplo disso. A dinâmica sobe e desce e a carga emocional é levada tanto pela guitarra sensual quanto pelas vocalizações de Gambino, enquanto os acordes mudam e levam a faixa para diferentes territórios.

Ao que parece, Awaken, My Love é totalmente decidado ao filho de Glover, que nasceu este ano. Todas as letras, tenham ou não um contexto mais social ou político, acabam nos levando de encontro a questões de paternidade e família. Não é a toa que uma das faixas mais bonitas do disco chama-se “The Night Me and Your Mama Met” (a noite em que eu e sua mãe nos conhecemos) e trata-se de uma música instrumental que poderia muito bem ter sido feita em 1971. E como o álbum trata de infância – tanto a do filho recém-chegado quanto a de Glover, que é vislumbrada ao longo do repertório –, a volta aos anos 70 é tanto um exercício de estética e de produção quanto uma nostalgia evocada de forma pertinente. Afinal, Glover/Gambino foi uma criança nos anos 80 que cresceu ouvindo a música negra da década anterior.

Não acompanho a carreira de Glover como ator para saber como anda sua evolução nas telas. Mas na música, Awaken, My Love é um grande passo à frente para sua persona musical. Um destaque deste final de 2016 sem sombra de dúvida.

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Amy Winehouse – Back To Black (2006) faz 10 anos

10 anos de uma grande obra-prima da música soul e pop moderna

Por Gabriel Sacramento

O que é?

Back To Black é o segundo e último álbum que Amy Winehouse lançou em vida, em outubro de 2006.

Histórias e curiosidades

Em 2003, o mundo assistiu ao surgimento de uma cantora londrina amante de jazz chamada Amy Winehouse. Isso mesmo, jazz cinquentista era uma das coisas que a garota mais gostava e foi o que ela preferiu registrar em seu primeiro trabalho, mesclando com soul music e R&B. Frank chegou ao mercado em 2003, com a maioria das canções escritas pela própria Amy.

Mas foi no segundo registro que a cantora se superou. Amw Winehouse declarava estar cansada de compor jazz e, muito influenciada pela música das girl groups dos anos 60, decidiu fazer um álbum com uma direcionamento mais próximo do soul clássico. Para tanto, ela convocou Salaam Remi e Mark Ronson para a produção e contratou os músicos do grupo Sharon Jones & the Dap-Kings para tocar com ela em estúdio e na turnê. A ideia de Ronson e Remi na produção foi emular um som típico das girl groups, com direito à Wall of Sound (técnica de gravação usada para contornar os vocais com camadas densas de instrumentos). Os instrumentos de base – guitarra, baixo, piano e bateria – foram gravados ao vivo em uma única sala, sendo que a bateria foi gravada com apenas um microfone. Tudo isso para conseguir uma crueza bem característica dos anos 60.

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Ronson então foi para o Metropolis Studios, em Londres, gravar alguns overdubs como metais, cordas e percussão que podemos ouvir complementando os arranjos. Tom Elmhirst foi chamado para mixar o álbum e contribuiu com seus conhecimentos para trazer um pouco de contemporaneidade ao som de Amy. No geral, podemos perceber que além de aludir a um som tipicamente sessentista, o som de Back To Black também possui boas referências modernas.

“Rehab” – talvez a mais famosa canção de Amy – abre o álbum com uma letra autobiográfica sobre quando ela se recusou ir a uma clínica de reabilitação para tratar o vício alcoólico. A sonoridade é totalmente anos 60, com direito a andamento típico e metais adornando os versos, como outrora faziam Ray Charles e Otis Redding. Nesta faixa, a voz de Amy foi comparada com a de ninguém menos que Ella Fitzgerald. “Rehab” é a canção de assinatura da inglesa e mostra exatamente o que ela sabe fazer de melhor. A história da composição da canção é curiosa: os versos que abrem a música foram ditos por Amy em uma conversa sobre reabilitação, na qual ela deixava claro sua falta de vontade de frequentar clínicas do tipo. Ao ouvir, Ronson pensou que a frase daria uma boa canção. E realmente deu. Amy escreveu em 3 horas, gravando logo em seguida, no estúdio de Ronson em Nova York. A ideia original era utilizar elementos de blues, mas Ronson sugeriu que a canção soasse como uma mix de R&B contemporâneo com um quê dos anos 60.

“Me and Mr. Jones” possui um leve andamento R&B da década de 1950 combinado com backing vocals que nos levam ao início da soul music. “Just Friends” é Amy flertando com o ska e acrescentando uma sonoridade diferente ao repertório do disco. A faixa-título deixa bem explícito as referências clássicas, do som das girl groups, com o Wall of Sound aplicado na base instrumental da canção. Sendo franca, Amy fala sobre um triste fim de relacionamento. Totalmente cool e jazzy, surge a bela “Love is a Losing Game”. Já “Tears Dry on Their Own” traz a mesma progressão harmônica do clássico “Ain’t No Mountain High Enough” de Marvin Gaye.

Passa pelo teste do tempo?

O sucesso de Amy Winehouse impulsionou a carreira de muitas mulheres na música. No som, na moda e na atitude. A cantora foi uma grande representante feminina dos tempos modernos, algo como foi a Madonna nos anos 80. Ela também revigorou o cenário musical britânico nos anos 2000.

Back To Black também foi fundamental por trazer de volta às paradas pop o som da soul music e todos os seus trejeitos clássicos. Essa onda, conhecida como neosoul, que resgasta o estilo e o mixa a alguns elementos modernos, foi fortalecida depois do sucesso do álbum. Cantoras como Adele e Duffy foram fortemente influenciadas pelo estilo de Amy. Beyoncé, Sam Smith e Troye Sivan são outros artistas que fizeram covers de canções dela. Bruno Mars elogiou o produtor Mark Ronson e se inspirou no som de Back To Black para compor uma de suas canções mais conhecidas, “Locked Out of Heaven”. Já a popstar Lady Gaga afirmou que a cantora britânica era sua heroína pessoal.

O disco é muito reconhecido comercialmente até hoje. Está presente na lista dos álbuns mais vendidos em território britânico junto com os Beatles, Queen e Oasis. Além de ser um dos discos mais vendidos do século no Reino Unido. Por sua sonoridade única, emocional e suas letras autobiográficas, o disco causou um impacto muito forte na indústria da música, difícil de ser batido. Uma obra-prima da música soul e pop.

Amy foi ousada o bastante para exprimir tão claramente suas influências, sua personalidade, decepções com o amor, problemas com os entorpecentes, bem como sua criatividade, resultando em um ótimo trabalho. Um álbum que possui uma sonoridade que remete ao passado, cheio de recursos utilizados no século anterior, mas que conseguiu ser mais chocante e expressivo que muitos lançamentos novos da época. Amy, Ronson e Remi souberam aliar o moderno e o clássico. Ela homenageou seus ídolos ao mesmo tempo em que escrevia seu nome na história da música.

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Bryan Adams – Get Up (2015)

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Jovial, roqueiro e vintage. Novo disco do cantor canadense traz muitas surpresas

Por Gabriel Sacramento

Nos últimos anos, muitos artistas que estão há tempos na música têm lançado discos realmente dignos de atenção especial. Foi o caso de Bruce Springsteen com o High Hopes (2014), David Gilmour com o ótimo Rattle That Lock (2015), Buddy Guy com o Born to Play Guitar (2015), Keith Richards e seu Crosseyed Heart (2015) e Rod Stewart com o Another Country (2015), sem falar no recém-lançado Blackstar de David Bowie. É bom ver que esses artistas sabem gerenciar suas carreiras e continuam buscando nos surpreender, mesmo depois de consolidados e bem-sucedidos.

Bryan Adams se encaixa nesse contexto. O cantor ficou conhecido por músicas românticas como “Heaven” e “Everything I Do”, mas pouca gente lembra de sua veia roqueira e da sua paixão pelo rock. Nos primeiros lançamentos esse estilo era mais evidente, mas acabou se diluindo com o passar do tempo. Aos 56 anos, o cantor continua lançando discos e busca impressionar o público com novas ideias. Seu mais novo álbum, Get Up, foi lançado em outubro de 2015 e é o 13º de sua safra.

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Os fãs acostumados com o direcionamento que a sonoridade de Adams nos últimos anos tomaram um grande susto com o que ouviram dessa vez. Adams traz uma atitude roqueira que há muito tempo não se via nele. É notável a vontade de Bryan resgatar a sonoridade agressiva e rebelde dos primeiros discos, principalmente Reckless (1984).

“Belong To Me” traz de volta o espírito roqueiro do início da carreira, com linhas vocais bem cativantes e faz uma referência explícita ao country rock. “Go Down Rocking” soa como se Bryan tivesse 17 anos de novo, possuísse uma guitarra em suas mãos e saísse pelo mundo com a única missão de expressar toda a sua rebeldia tocando o mais puro rock and roll.

“We Did it All” é uma balada que traz ideias harmônicas bem elaboradas e que não soam tão previsíveis. “That’s Rock and Roll” é uma ode ao estilo, com um ótimo timbre de guitarra limpo, que lembra muito Chuck Berry, além de possuir um ritmo contagiante acentuado por palmas. “Don’t Even Try” tem ritmo intrigante e um foco maior nas melodias. “Do What Ya Gotta Do” é outra que enfatiza o ótimo timbre da guitarra, com um refrão simples e harmonias vocais interessantes. As harmonias e os riffs também roubam a cena em “Thunderbolt”. “Yesterday Was Just A Dream” é a segunda balada do disco, com vocais bem entrosados. “Brand New Day” é bem pop/rock, com arranjos acessíveis e guitarras distorcidas, mas bem dosadas. Sentimos o peso da idade do cantor em Get Up, já que é perceptível como ele não canta mais como antes. Agora, sua voz soa bem limitada. Lembra levemente o rock oitentista que Bruce Springsteen fazia. Para os fãs de Bryan Adams das melodias bonitinhas, ele inseriu quatro versões acústicas de “Don’t Even Try”, “You Belong To Me”, “Brand New Day”  e “We Did It All”, que ressaltam a beleza e elegância dessas composições.

O cantor declara que cada música foi sendo escrita e gravada esporadicamente entre 2013 e 2015, sem pressão de gravadora, selo, empresário ou produtor. Para isso, contou com a produção de Jeff Lynne, o líder da Electric Light Orchestra, que dava o acabamento de cada faixa conforme podia. Na outra ponta da composição está o amigo Jim Vallance, que já é um velho colaborador de Adams. Pela internet, os três iam trocando figurinhas e gravações, fazendo os arquivos serem transmitidos do Canadá para a Europa e para Los Angeles ao longo do processo.

Bryan Adams não tem que provar nada para ninguém. Possui uma carreira de sucesso alavancada por seus singles românticos e acessíveis. Mas mesmo assim, o cantor resolve surpreender com um lançamento roqueiro, jovial, agressivo e rebelde, que faz parecer que ele ainda está nos anos 80. O disco possui uma sonoridade direta, vintage, independente e forte que faz algumas bandas de rock atuais soar infantis.

O último disco de inéditas que Bryan lançou foi o 11 em 2008. Comparando este com o novo Get Up fica ainda mais evidente a ousadia ao escrever as novas canções. 11 soa como um pop/rock bem dosado, com arranjos acessíveis e limpinhos. Já o novo soa como algo rústico, excêntrico e obstinado ou, se preferir, soa como o bom e velho rock and roll.

Com esse lançamento, há surpresa para todos. Tanto para os que adoram ou adoravam Bryan Adams, quanto para os que não gostam/gostavam do seu som. O disco é, simplesmente, um “back to basics”, mais ou menos como o Nheengatu (2014) do Titãs, que se afastou da sonoridade comercial para novelas e voltou a pisar sem dó no pedal de distorção. Assim, Get Up nos deixa muito curiosos com relação ao que há de vir.

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Parov Stelar – The Demon Diaries (2015)

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Retrô, moderno, dançante, bonito, eletrônico e comercial. É tudo isso mesmo e ainda tem solos de trompete e sax

Por Lucas Scaliza

Se a pós-modernidade artística é a crença ou a capacidade de usar todos os referenciais existentes como ferramentas para algo novo – como prédios cheios de transparências, mas com colunas gregas e decoração egípcia – e ainda por cima não ter o puder de anunciar que essa arte está à venda, podemos dizer então que Parov Stelar é pós-moderno pra burro!

Parov Stelar – codinome do austríaco Marcus Füreder – é um músico, produtor e DJ que tem se destacado. Desde 2001, lançou 13 álbuns e ficou conhecido por iniciar um tipo de música eletrônica chamada de electroswing. Esse estilo consiste em se apoiar em músicas antigas de swing e dar uma roupagem nova a elas, com as batidas do eurodance e do house atual, mas mantendo o feeling original da gravação de época, dando a várias de suas músicas um sabor vintage embalado com modernidade. O álbum duplo The Demon Diaries, seu novo disco, tem muito disso.

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“Clap Your Hands”, single do trabalho, é o exemplo mais fácil. A voz e o naipe de sopros são gravações dos anos 30 (você percebe fácil a qualidade abafada do vinil da época), mas Stelar coloca uma batida de house e um baixo e faz a música transitar entre o hoje e os anos 30. Retrô, mas moderno. “The Green Frog”, “Djangos Revenge” e “Gin Tonic” usam o mesmo modus operandi. A música é atual, mas quando as partes vintage aparecem, você nota imediatamente. Ou então seções melódicas (no sax, trompete ou piano) são gravados com produção atual, mas a música remete ao passado.

A princípio, essa mistura pode causar estranheza. É como se Stelar estivesse recriando músicas clássicas de bailes dos EUA de 1920 a 1940 e dando uma cara comercial para o mercado das boates de hoje. E em grande medida, é isso mesmo que ele está fazendo. Mas após o momento de estranheza, dá para apreciar o resultado. “Don’t Mean a Thing”, também dentro desse esquema moderno-retrô, ficou ótima. Já “Josephine” se aproveita de um esquema muito usado na música eletrônica dos últimos anos (feito para funcionar perfeitamente em qualquer pista de dança de qualquer parte do mundo) e apenas insere ali no meio da batida e do teclado a melodia anos 30 dos sopros.

Mas o primeiro disco tem outras músicas que não se apoiam no electroswing. A bela “Keep This Fire Burning” usa muito bem violinos para dar o clima triste da música enquanto o piano trata de temperar a harmonia. Com Timothy Auld nos vocais, “Hooked on You” é um eurodance bem comercial. “Heat Me Like a Drum”, outra na voz de Auld, tem um violão comando o ritmo junto com batidas de house que remetem à música do leste europeu. Essas influências do leste é outra característica que encontramos na obra de Marcus Füreder. E “I Nedd L.O.V.E” combina tudo – house, electroswing e sopros – e ainda acrescenta uma guitarra bem funkeada.

Isso tudo está no primeiro disco de The Demon Diaries. É inegável que há um misto tanto de criação artística quanto de pastiche artístico, onde se toma a referência só para poder transformá-la em outra coisa mais vendável e, talvez, sem o respeito ou a homenagem ao estilo. Como já anunciado, o álbum é para as pistas.

No segundo álbum, Parov Stelar parece seguir uma linha mais artística e mais contemporânea, retirando o pastiche de cena. Se no primeiro é o ritmo dançante e animado que predomina, o segundo se deixa ser mais viajante e se aproveita de melodias do jazz, mas sem perder a música acessível de vista, ficando ali entre um Chromeo e um Röyksopp.

“The Sun”, com Graham Candy, “Six Feet Under”, com Claudia Kane, e “Walk Away”, com Anna F., são músicas mais parecidas com a produção radiofônica de Moby. A ótima “Summertime” tem base (bateria e baixo eletrônicos) de electrohouse, solos de trompete jazzistas (que lembram a trilha do seriado Homeland) e Maya Bensalem interpreta com o mesmo drama de uma Lana Del Rey. Se no primeiro disco ele faz uma “Josephine” para pistas, no segundo Anduze cantar uma versão piano e voz da canção, dando uma cara de balada RnB a ela.

“Magenta Rising” é uma das melhores faixas de todo The Demon Diaries. Piano aos poucos vai dando lugar a um redemoinho de violinos sem se preocupar em apressar nada para o ouvinte. Aqui os solos de saxofone trazem o jazz para uma faixa que é deliciosa e viajante. O clima se mantém em “Gold Arrow”, com Lilja Bloom, e na balada “The Sea”, com Harald Baumgartner. A ótima “Don’t Believe What They Say”, com vocais de Angela McCluskey, vem com bons arranjos de trompete e de piano preenchendo a faixa. O disco fecha com “The Lonely Trumpet”, com cara de trilha sonora e uma leve base de house.

Ouvir The Demon Diaries sem ser um entusiasta da música dance pode ser uma briga consigo mesmo. Por um lado, tem tudo o que você espera de uma obra de música eletrônica. Por outro, é um exercício de estilo (electroswing) e às vezes almeja ser mais criativo do que meramente comercial. No final das contas, acredito que o austríaco fez um belo trabalho e não deixou pontas soltas. Antes que fosse acusado de ser só mais um eurodance para as massas, trabalhou bem suas canções (principalmente no segundo disco) para mostrar que pode mais.

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